11 de mai. de 2007

Discurso do Papa aos Jovens


Estádio do Pacaembu – São Paulo – Brasil 10/05/07

Queridos jovens! Queridos amigos e amigas!

"Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá o dinheiro aos pobres [...] Depois, vem e segue-me" (Mt 19,21).

1. Desejei ardentemente encontrar-me convosco nesta minha primeira viagem à América Latina. Vim para abrir a V Conferência do Episcopado Latino-americano que, por meu desejo, vai realizar-se em Aparecida, aqui no Brasil, no Santuário de Nossa Senhora. Ela nos coloca aos pés de Jesus para aprendermos suas lições sobre o Reino e impulsionar-nos a ser seus missionários, para que os povos deste "Continente da Esperança" tenham, n'Ele, vida plena.

Os vossos Bispos do Brasil, na sua Assembléia Geral do ano passado, refletiram sobre o tema da evangelização da juventude e colocaram em vossas mãos um documento. Pediram que fosse acolhido e aperfeiçoado por vós durante todo o ano. Nesta última Assembléia retomaram o assunto, enriquecido com vossa colaboração, e desejam que as reflexões feitas e as orientações propostas sirvam como incentivo e farol para vossa caminhada.

As palavras do Arcebispo de São Paulo e do encarregado da Pastoral da Juventude, as quais agradeço, bem atestam o espírito que move a todos vocês. Ontem pela tarde, ao sobrevoar o território brasileiro, pensava já neste nosso encontro no Estádio do Pacaembu, com o desejo de dar um grande abraço bem brasileiro a todos vós, e manifestar os sentimentos que levo no íntimo do coração e que, bem a propósito, o Evangelho de hoje nos quis indicar.

Sempre experimentei uma alegria muito especial nestes encontros. Lembro me particularmente da Vigésima Jornada Mundial da Juventude, que tive a ocasião de presidir há dois anos atrás na Alemanha. Alguns dos que estão aqui também lá estiveram! É uma lembrança comovedora, pelos abundantes frutos da graça enviados pelo Senhor.

E não resta a menor dúvida que o primeiro fruto, dentre muitos, que pude constatar foi o da fraternidade exemplar havida entre todos, como demonstração evidente da perene vitalidade da Igreja por todo o mundo.

2. Pois bem, caros amigos, estou certo de que hoje se renovam as mesmas impressões daquele meu encontro na Alemanha. Em 1991, o Servo de Deus, o Papa João Paulo II, de venerada memória, dizia, na sua passagem pelo Mato Grosso, que os "jovens são os primeiros protagonistas do terceiro milênio [...] são vocês que vão traçar os rumos desta nova etapa da humanidade" (Discurso 16/10/1991). Hoje, sinto-me movido a fazer-lhes idêntica observação.

O Senhor aprecia, sem dúvida, vossa vivência cristã nas numerosas comunidades paroquiais e nas pequenas comunidades eclesiais, nas Universidades, Colégios e Escolas e, especialmente, nas ruas e nos ambientes de trabalho das cidades e dos campos. Trata-se, porém, de ir adiante.
Nunca podemos dizer basta, pois a caridade de Deus é infinita e o Senhor nos pede, ou melhor, nos exige dilatar nossos corações para que neles caiba sempre mais amor, mais bondade, mais compreensão pelos nossos semelhantes e pelos problemas que envolvem não só a convivência humana, mas também a efetiva preservação e conservação da natureza, da qual todos fazem parte.

"Nossos bosques têm mais vida": não deixeis que se apague esta chama de esperança que o vosso Hino Nacional põe em vossos lábios. A devastação ambiental da Amazônia e as ameaças à dignidade humana de suas populações requerem um maior compromisso nos mais diversos espaços de ação que a sociedade vem solicitando.

3. Hoje quero convosco refletir sobre o texto de São Mateus (19, 16-22), que acabamos de ouvir. Fala de um jovem. Ele veio correndo ao encontro de Jesus. Merece destaque a sua ânsia. Neste jovem vejo a todos vós, jovens do Brasil e da América Latina. Viestes correndo de diversas regiões deste Continente para nosso encontro. Quereis ouvir, pela voz do Papa, as palavras do próprio Jesus.

Tendes uma pergunta crucial, referida no Evangelho, a Lhe fazer. É a mesma do jovem que veio correndo ao encontro com Jesus: o que fazer para alcançar a vida eterna?

Gostaria de aprofundar convosco esta pergunta. Trata-se da vida. A vida que, em vós, é exuberante e bela. O que fazer dela? Como vivê-la plenamente?

Logo entendemos, na formulação da própria pergunta, que não basta o aqui e agora, ou seja, nós não conseguimos delimitar nossa vida ao espaço e ao tempo, por mais que pretendamos estender seus horizontes. A vida os transcende.

Em outras palavras, queremos viver e não morrer. Sentimos que algo nos revela que a vida é eterna e que é necessário empenhar-se para que isto aconteça. Em outras palavras, ela está em nossas mãos e depende, de algum modo, da nossa decisão.

A pergunta do Evangelho não contempla apenas o futuro. Não trata apenas de uma questão sobre o que acontecerá após a morte. Há, ao contrário, um compromisso com o presente, aqui e agora, que deve garantir autenticidade e conseqüentemente o futuro. Numa palavra, a pergunta questiona o sentido da vida.

Pode por isso ser formulada assim: que devo fazer para que minha vida tenha sentido? Ou seja: como devo viver para colher plenamente os frutos da vida? Ou ainda: que devo fazer para que minha vida não transcorra inutilmente? Jesus é o único capaz de nos dar uma resposta, porque é o único que nos pode garantir vida eterna. Por isso também é o único que consegue mostrar o sentido da vida presente e dar-lhe um conteúdo de plenitude.

4. Antes, porém, de dar sua resposta, Jesus questiona a pergunta do jovem num aspecto muito importante: por que me chamas de bom? Nesta pergunta se encontra a chave da resposta. Aquele jovem percebeu que Jesus é bom e que é mestre. Um mestre que não engana.

Nós estamos aqui porque temos esta mesma convicção: Jesus é bom. Podemos não saber dar toda a razão desta percepção, mas é certo que ela nos aproxima dele e nos abre ao seu ensinamento: um mestre bom. Quem reconhece o bem é sinal que ama. E quem ama, na feliz expressão de São João, conhece Deus (cf.1Jo 4,7).

O jovem do Evangelho teve uma percepção de Deus em Jesus Cristo. Jesus nos garante que só Deus é bom. Estar aberto à bondade significa acolher Deus. Assim Ele nos convida a ver Deus em todas as coisas e em todos os acontecimentos, mesmo lá onde a maioria só vê a ausência de Deus. Vendo a beleza das criaturas e constatando a bondade presente em todas elas, é impossível não crer em Deus e não fazer uma experiência de sua presença salvífica e consoladora.

Se nós conseguíssemos ver todo o bem que existe no mundo e, ainda mais, experimentar o bem que provém do próprio Deus, não cessaríamos jamais de nos aproximar dele, de O louvar e Lhe agradecer. Ele continuamente nos enche de alegria e de bens. Sua alegria é nossa força.

Mas nós não conhecemos senão de forma parcial. Para perceber o bem necessitamos de auxílios, que a Igreja nos proporciona em muitas oportunidades, principalmente pela catequese. Jesus mesmo explicita o que é bom para nós, dando-nos sua primeira catequese. «Se queres entrar na vida, observa os mandamentos» (Mt 19,17).
Ele parte do conhecimento que o jovem já obteve certamente de sua família e da Sinagoga: de fato, ele conhece os mandamentos. Eles conduzem à vida, o que equivale a dizer que eles nos garantem autenticidade. São as grandes balizas a nos apontarem o caminho certo.

Quem observa os mandamentos está no caminho de Deus. Não basta conhecê-los. O testemunho vale mais que a ciência, ou seja, é a própria ciência aplicada. Não são impostos de fora, nem diminuem nossa liberdade. Pelo contrário: constituem impulsos internos vigorosos, que nos levam a agir nesta direção. Na sua base está a graça e a natureza, que não nos deixam parados. Precisamos caminhar. Somos impelidos a fazer algo para nos realizarmos a nós mesmos.

Realizar-se, através da ação, na verdade, é tornar-se real. Nós somos, em grande parte, a partir de nossa juventude, o que nós queremos ser. Somos, por assim dizer, obra de nossas mãos.

5. Nesta altura volto-me, de novo, para vós, jovens, querendo ouvir também de vós a resposta do jovem do Evangelho: tudo isto tenho observado desde a minha juventude. O jovem do Evangelho era bom. Observava os mandamentos. Estava pois no caminho de Deus. Por isso Jesus fitou-o com amor. Ao reconhecer que Jesus era bom, testemunhou que também ele era bom. Tinha uma experiência da bondade e por isso, de Deus.

E vós, jovens do Brasil e da América Latina? Já descobristes o que é bom? Seguis os mandamentos do Senhor? Descobristes que este é o verdadeiro e único caminho para a felicidade? Os anos que vós estais vivendo são os anos que preparam o vosso futuro. O "amanhã" depende muito de como estais vivendo o "hoje" da juventude. Diante dos olhos, meus queridos jovens, tendes uma vida que desejamos seja longa; mas é uma só, é única: não a deixeis passar em vão, não a desperdiceis. Vivei com entusiasmo, com alegria, mas, sobretudo, com senso de responsabilidade.

Muitas vezes sentimos trepidar nossos corações de pastores, constatando a situação de nosso tempo. Ouvimos falar dos medos da juventude de hoje. Revelam-nos um enorme déficit de esperança: medo de morrer, num momento em que a vida está desabrochando e procura encontrar o próprio caminho da realização; medo de sobrar, por não descobrir o sentido da vida; e medo de ficar desconectado diante da estonteante rapidez dos acontecimentos e das comunicações. Registramos o alto índice de mortes entre os jovens, a ameaça da violência, a deplorável proliferação das drogas que sacode até a raiz mais profunda a juventude de hoje. Fala-se por isso, seguidamente, de uma juventude perdida.

Mas olhando para vós, jovens aqui presentes, que irradiais alegria e entusiasmo, assumo o olhar de Jesus: um olhar de amor e confiança, na certeza de que vós encontrastes o verdadeiro caminho. Sois jovens da Igreja. Por isso Eu vos envio para a grande missão de evangelizar os jovens e as jovens, que andam por este mundo errantes, como ovelhas sem pastor.

Sede os apóstolos dos jovens. Convidai-os para que venham convosco, façam a mesma experiência de fé, de esperança e de amor; encontrem-se com Jesus, para se sentirem realmente amados, acolhidos, com plena possibilidade de realizar-se. Que também eles e elas descubram os caminhos seguros dos Mandamentos e por eles cheguem até Deus. Podeis ser protagonistas de uma sociedade nova se procurais pôr em prática uma vivência real inspirada nos valores morais universais, mas também um empenho pessoal de formação humana e espiritual de vital importância.

Um homem ou uma mulher despreparados para os desafios reais de uma correta interpretação da vida cristã do seu meio ambiente será presa fácil a todos os assaltos do materialismo e do laicismo, sempre mais atuantes em todos os níveis.

Sede homens e mulheres livres e responsáveis; fazei da família um foco irradiador de paz e de alegria; sede promotores da vida, do início ao seu natural declínio; amparai os anciãos, pois eles merecem respeito e admiração pelo bem que vos fizeram. O Papa também espera que os jovens procurem santificar seu trabalho, fazendo-o com competência técnica e com laboriosidade, para contribuir ao progresso de todos os seus irmãos e para iluminar com a luz do Verbo todas as atividades humanas (cf. Lumen Gentium, n. 36).

Mas, sobretudo, o Papa espera que saibam ser protagonistas de uma sociedade mais justa e mais fraterna, cumprindo as obrigações frente ao Estado: respeitando as suas leis; não se deixando levar pelo ódio e pela violência; sendo exemplo de conduta cristã no ambiente profissional e social, distinguindo-se pela honestidade nas relações sociais e profissionais. Tenham em conta que a ambição desmedida de riqueza e de poder leva à corrupção pessoal e alheia; não existem motivos para fazer prevalecer as próprias aspirações humanas, sejam elas econômicas ou políticas, com a fraude e o engano.

Definitivamente, existe um imenso panorama de ação no qual as questões de ordem social, econômica e política ganham um particular relevo, sempre que haurirem sua fonte de inspiração no Evangelho e na Doutrina Social da Igreja.

A construção de uma sociedade mais justa e solidária, reconciliada e pacífica; a contenção da violência e as iniciativas que promovam a vida plena, a ordem democrática e o bem comum e, especialmente, aquelas que visem eliminar certas discriminações existentes nas sociedades latino-americanas e não são motivo de exclusão, mas de recíproco enriquecimento.

Tende, sobretudo, um grande respeito pela instituição do Sacramento do Matrimônio. Não poderá haver verdadeira felicidade nos lares se, ao mesmo tempo, não houver fidelidade entre os esposos. O matrimônio é uma instituição de direito natural, que foi elevado por Cristo à dignidade de Sacramento; é um grande dom que Deus fez à humanidade. Respeitai-o, venerai-o. Ao mesmo tempo, Deus vos chama a respeitar-vos também no namoro e no noivado, pois a vida conjugal que, por disposição divina, está destinada aos casados é somente fonte de felicidade e de paz na medida em que souberdes fazer da castidade, dentro e fora do matrimônio, um baluarte das vossas esperanças futuras.

Repito aqui para todos vós que «o eros quer nos conduzir para além de nós próprios, para Deus, mas por isso mesmo requer um caminho de ascese, renúncias, purificações e saneamentos» (Carta encl. Deus caritas est, (25/12/2005), n. 5). Em poucas palavras, requer espírito de sacrifício e de renúncia por um bem maior, que é precisamente o amor de Deus sobre todas as coisas.

Procurai resistir com fortaleza às insídias do mal existente em muitos ambientes, que vos leva a uma vida dissoluta, paradoxalmente vazia, ao fazer perder o bem precioso da vossa liberdade e da vossa verdadeira felicidade. O amor verdadeiro "procurará sempre mais a felicidade do outro, preocupar-se-á cada vez mais dele, doar-se-á e desejará existir para o outro" (Ib. n. 7) e, por isso, será sempre mais fiel, indissolúvel e fecundo.

Para isso, contais com a ajuda de Jesus Cristo que, com a sua graça, fará isto possível (cf. Mt 19,26). A vida de fé e de oração vos conduzirá pelos caminhos da intimidade com Deus, e de compreensão da grandeza dos planos que Ele tem para cada um. "Por amor do reino dos céus" (ib., 12), alguns são chamados a uma entrega total e definitiva, para consagrarse a Deus na vida religiosa, "exímio dom da graça", como foi definido pelo Concílio Vaticano II (Decr. Perfectae caritatis, n.12).

Os consagrados que se entregam totalmente a Deus, sob a moção do Espírito Santo, participam na missão de Igreja, testemunhando a esperança no Reino celeste entre todos os homens. Por isso, abençôo e invoco a proteção divina a todos os religiosos que dentro da seara do Senhor se dedicam a Cristo e aos irmãos. As pessoas consagradas merecem, verdadeiramente, a gratidão da comunidade eclesial: monges e monjas, contemplativos e contemplativas, religiosos e religiosas dedicados às obras de apostolado, membros de institutos seculares e das sociedades de vida apostólica, eremitas e virgens consagradas. "A sua existência dá testemunho do amor a Cristo quando eles se encaminham pelo seu seguimento, tal como este se propõe no Evangelho e, com íntima alegria, assumem o mesmo estilo de vida que Ele escolheu para Si" (Congr. para os Inst. de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica: Instr. Partir de Cristo, n. 5).

Faço votos de que, neste momento de graça e de profunda comunhão em Cristo, o Espírito Santo desperte no coração de tantos jovens um amor apaixonado no seguimento e imitação de Jesus Cristo casto, pobre e obediente, voltado completamente à glória do Pai e ao amor dos irmãos e irmãs.

6. O Evangelho nos assegura que aquele jovem, que veio correndo ao encontro de Jesus, era muito rico. Entendemos esta riqueza não apenas no plano material. A própria juventude é uma riqueza singular. É preciso descobri-la e valorizá-la. Jesus lhe deu tal valor que convidou esse jovem para participar de sua missão de salvação. Tinha todas as condições para uma grande realização e uma grande obra. Mas o Evangelho nos refere que esse jovem se entristeceu com o convite. Foi embora abatido e triste.

Este episódio nos faz refletir mais uma vez sobre a riqueza da juventude. Não se trata, em primeiro lugar, de bens materiais, mas da própria vida, com os valores inerentes à juventude. Provém de uma dupla herança: a vida, transmitida de geração em geração, em cuja origem primeira está Deus, cheio de sabedoria e de amor; e a educação que nos insere na cultura, a tal ponto que, em certo sentido, podemos dizer que somos mais filhos da cultura e por isso da fé, do que da natureza. Da vida brota a liberdade que, sobretudo nesta fase se manifesta como responsabilidade. E o grande momento da decisão, numa dupla opção: uma quanto ao estado de vida e outra quanto à profissão. Responde à questão: que fazer com a vida?

Em outras palavras, a juventude se afigura como uma riqueza porque leva à descoberta da vida como um dom e como uma tarefa. O jovem do Evangelho percebeu a riqueza de sua juventude. Foi até Jesus, o Bom Mestre, para buscar uma orientação. Mas na hora da grande opção não teve coragem de apostar tudo em Jesus Cristo. Conseqüentemente saiu dali triste e abatido. É o que acontece todas as vezes que nossas decisões fraquejam e se tornam mesquinhas e interesseiras. Sentiu que faltou generosidade, o que não lhe permitiu uma realização plena. Fechou-se sobre sua riqueza, tornando-a egoísta.

Jesus ressentiu-se com a tristeza e a mesquinhez do jovem que o viera procurar. Os Apóstolos, como todos e todas vós hoje, preenchem esta lacuna deixada por aquele jovem que se retirou triste e abatido. Eles e nós estamos alegres porque sabemos em quem acreditamos (2 Tim 1,12). Sabemos e testemunhamos com nossa própria vida que só Ele tem palavras de vida eterna (Jo 6,68). Por isso, com São Paulo, podemos exclamar: alegrai-vos sempre no Senhor (Fil 4,4).

7. Meu apelo de hoje, a vós jovens, que viestes a este encontro, é que não desperdiceis vossa juventude. Não tenteis fugir dela. Vivei-a intensamente. Consagrai-a aos elevados ideais da fé e da solidariedade humana. Vós, jovens, não sois apenas o futuro da Igreja e da humanidade, como uma espécie de fuga do presente.

Pelo contrário: vós sois o presente jovem da Igreja e da humanidade. Sois seu rosto jovem. A Igreja precisa de vós, como jovens, para manifestar ao mundo o rosto de Jesus Cristo, que se desenha na comunidade cristã. Sem o rosto jovem a Igreja se apresentaria desfigurada.

Queridos jóvenes, dentro de poco inauguraré la Quinta Conferencia del Episcopado Latinoamericano. Os pido que sigáis con atención sus trabajos; que participéis en sus debates; que recéis por sus frutos. Como ocurrió con las Conferencias anteriores, también ésta marcará de modo significativo los próximos diez años de Evangelización en América Latina y en el Caribe.

Nadie debe quedar al margen o permanecer indiferente ante este esfuerzo de la Iglesia, y mucho menos los jóvenes. Vosotros con todo derecho formáis parte de la Iglesia, la cual representa el rostro de Jesucristo para América Latina y el Caribe.

Je salue les francophones qui vivent sur le Continent latino-américain, les invitant à être des témoins de l'Évangile et des acteurs de la vie ecclésiale. Ma prière vous rejoint tout particulièrement, vous les jeunes, vous êtes appelés à construire votre vie sur le Christ et sur les valeurs humaines fondamentales. Que tous se sentent invités à collaborer pour édifier un monde de justice et de paix.

Dear young friends, like the young man in the Gospel, who asked Jesus "what must I do to have eternal life?", all of you are searching for ways of responding generously to God's call. I pray that you may hear his saving word and become his witnesses to the people of today. May God pour out upon all of you his blessings of peace and joy.

Queridos jovens, Cristo vos chama a serem santos. Ele mesmo vos convoca e quer andar convosco, para animar com Seu espírito os passos do Brasil neste início do terceiro milênio da era cristã. Peço à Senhora Aparecida que vos conduza, com seu auxílio materno e vos acompanhe ao longo da vida.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

10 de mai. de 2007

Discurso do Papa em Guarulhos


Excelentíssimo Senhor Presidente da República
Senhores Cardeais e Venerados Irmãos no Episcopado
Queridos Irmãos e Irmãs em Cristo!

É para mim motivo de particular satisfação iniciar minha Visita Pastoralao Brasil e apresentar a Vossa Excelência, na sua qualidade de Chefe e representante supremo da grande Nação brasileira, os meus agradecimentos pela amável acolhidaque me foi dispensada. Um agradecimento que estendo, com muito prazer, aosmembros do Governo que acompanham Vossa Excelência, às personalidades civis e militares aqui reunidos e às autoridades do Estado de São Paulo. Nas palavras de boas-vindas a mim dirigidas, sinto ecoar, Senhor Presidente, os sentimentosde carinho e amor de todo o Povo brasileiro para com o Sucessor do Apóstolo Pedro.

Saúdo fraternalmente no Senhor os meus queridos Irmãos no Episcopado queaqui vieram para me receber em nome da Igreja que está no Brasil. Saúdo igualmenteos sacerdotes, os religiosos e as religiosas, os seminaristas e os leigos comprometidos com a obra de evangelização da Igreja e com o testemunho deuma vida autenticamente cristã. Enfim, dirijo a minha afetuosa saudação atodos os brasileiros sem distinção, homens, mulheres, famílias, anciãos,enferemos, jovens e crianças. A todos digo de coração: Muito obrigado pelavossa generosa hospitalidade!

O Brasil ocupa um lugar muito especial no coração do Papa não somente porquenasceu cristão e possui hoje o mais alto número de católicos, mas sobretudo porque é uma nação rica de potencialidades com uma presença eclesial queé motivo de alegria e esperança para toda Igreja. A minha visita, Senhor Presidente, tem um objetivo que ultrapassa as fronteiras nacionais: venho presidir, em Aparecida, a sessão de abertura da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho. Por uma providencial manifestação da bondadedo Criador, este País deverá servir de berço para as propostas eclesiais que, Deus queira, poderão dar um novo vigor e impuslo missionário a este Continente.

Nesta área geográfica os católicos são maioria: isto significa que eles devem contribuir de modo particular ao serviço do bem comum desta Nação. A solidariedade será, sem dúvida, palavra cheia de conteúdo quando as forças vivas da sociedade, cada qual dentro do seu próprio âmbito, se empenharem seriamente para construirum futuro de paz e de esperança para todos.

A Igreja Católica - como coloquei em evidência na Encíclica Deus caritas est - "transformada pela força do Espírito é chamada para ser, no mundo, testemunha do amor do Pai, que quer fazer da humanidade uma única família,em seu Filho" (c.f.19). Daí o seu profundo compromisso com a missão evangelizadora, a serviço da causa da paz e da justiça. A decisão, portanto, de realizar uma Conferência essencialmente missionária, bem reflete a preocupação do episcopado, e não menos a minha, de procurar caminhos adequados para que, em Jesus Cristo, os "nossos povos tenham vida", como reza o tema da Conferência. Com esses sentimentos, quero olhar para além das fronteiras deste País e saudar todos os povos da América Latina e do Caribe desejando, com as palavras do Apóstolo, "Que a paz esteja com todos vós que estais em Cristo" (1 Pt5,14).

Sou grato, Senhor Presidente, à Divina Providência que me concede a graçade visitar o Brasil, um País de grande tradição católica. Já tive oportunidade de referir o motivo principal da minha viagem que tem um alcance latino-americano e um caráter essencialmente religioso.

Estou muito feliz de poder passar alguns dias com os brasileiros. Sei que a alma deste Povo, bem como de toda a América Latina, conserva valores radicalmente cristãos que jamais serão cancelados. E estou certo que em Aparecida, durante a Conferência Geral do Episcopado, será reforçada tal identidade, ao promover o respeito pela vida, desde a sua concepção até o seu natural declínio, como exigência própria da natureza humana; fará também da promoção da pessoa humana o eixo da solidariedade, especialmente com os pobres e desamparados.

A Igreja quer apenas indicar os valores morais de cada situação e formar os cidadãos para que possam decidir consciente e livremente; neste sentido, não deixará de insistir no empenho que deverá ser dado para assegurar o fortalecimento da família - como célula mãe da sociedade; da juventude - cuja formação constitui fator decisivo para o futuro de uma Nação - e finalmente, mas não por último, defendendo e promovendo os valores subjacentes em todos os segmentos da sociedade, especialmente dos povos indígenas.
Com estes auspícios, ao renovar os meus agradecimentos pela calorosa acolhida que, como Sucessor de Pedro, sou objeto, invoco a proteção materna de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, evocada também como Nuestra Señora de Guadalupe, padroeira das Américas, para que proteja e inspire os governantes an árduatarefa de serem promotores do bem comum, reforçando os laços de fraternidade cristã para o bem de todos os seus cidadãos. Deus abençoe a América Latina! Deus abençoe o Brasil! Muito obrigado.

9 de mai. de 2007

Bem-Vindo, Papa Bento XVI!

A Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) saúda o Papa Bento XVI na sua chegada ao Brasil, chamando-o bem-vindo como autoridade máxima da Igreja Católica Apostólica Romana, representada em nosso país por um tão grande número de fiéis.

Ao mesmo tempo em que dá as boas vindas ao Papa Bento XVI, a IELB reafirma o que pensa da importância de um papa para uma igreja. Cada papa será sempre respeitado pela IELB na função que exerce. O respeito devido, todavia, jamais chegará ao ponto de considerá-lo chefe supremo de toda a cristandade, visto que é autoridade sobre uma parte da cristandade, ou seja, os fiéis da Igreja Católica Apostólica Romana.

A IELB também expressa sua discordância em relação a qualquer manifestação popular ou oficial que se dirija ao papa como "santo padre", visto que a santidade de qualquer um, seja papa, padre ou pastor, é igual em todos aqueles que confiam em Jesus Cristo como Salvador. Por meio da fé em Jesus, recebem Dele a santidade que jamais será alcançada por qualquer obra ou merecimento humanos. É a justiça e santidade de Jesus, o Filho de Deus, que deixa santos diante de Deus todos aqueles que confessam sua confiança na salvação trazida à humanidade por Cristo. Por tal razão, não existe entre os seres humanos alguém mais santo do que outro, não importa a função ou cargo que desempenhe dentro de uma hierarquia eclesiástica.

A IELB deseja ao Papa Bento XVI a constante iluminação do Espírito Santo para que ele, valendo-se dos recursos de que dispõe para se manifestar, possa transmitir o que o Senhor Jesus espera dos seus apóstolos. A palavra de Jesus continua sendo a única luz para o mundo em trevas, por isso possa Bento XVI confessá-la e anunciá-la a fim de que multidões conheçam o que o Salvador afirma em João 14.6: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.


Rev. Paulo Moisés Nerbas
Pastor Presidente da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

7 de mai. de 2007

Bento XVI, crítico da cultura

O que levou Bento XVI ao supremo pontificado foi o fato de ser um eminente doutor e não um conhecido pastor. Representa o típico teólogo acadêmico alemão, cuja faculdade de teologia se situa no interior da universidade do Estado. É a primeira entre todas as faculdades o que lhe permite um discurso transversal, em permanente diálogo com outros saberes. Tal fato confere à teologia em estilo alemão alto nível de criticidade e até uma discreta arrogância de ser a mais profunda e filosofante de todas na Igreja, a ponto de Lutero, ainda em seu tempo, poder dizer que "um doutor romano é um asno germano".Como teólogo acadêmico, Joseph Ratzinger se envolveu ativamente nas discussões sobre a identidade européia e sobre os desafios a modernidade. É neste campo que se revela o alcance e também o limite de sua fecunda produção intelectual. Normalmente é assim como os filósofos do conhecimento nos ensinam que a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam e o que cada ponto de vista é a vista de um ponto. Onde pisam os pés do intelectual Ratzinger e que vista seu ponto permite? Indiscutivelmente ele pisa o espaço cultural da Europa central, portanto, a partir do grupo de paises hegemônicos no mundo e sua vista depende daquele ponto a partir do qual vê o mundo e a Igreja.Com efeito,não vê na ótica dos pobres e dos oprimidos. O que pesa em seu pensamento é o lastro cultural formado na escola de Santo Agostinho(+450) e de São Boaventura(+1274), sobre os quais escreveu duas brilhantes teses. Ambos têm isso em comum: o mundo é uma arena onde se enfrenta Deus e o diabo, a graça e a natureza, a cidade de Deus e a cidade dos homens. O pecado das origens produziu uma tragédia na condição humana: esta ficou tão decadente que sozinha não consegue se redimir e produzir uma obra que agrade a Deus. Precisa do Redentor, Jesus, que é continuado pela Igreja, dotada com todos os meios de salvação. Sem a mediação da Igreja, os valores culturais valem mas não o suficiente para salvarem o ser humano e sua história. O mesmo se aplica à libertação de nossa teologia. Este tipo de teologia leva a a uma leitura pessimista da cultura. Isso se percebe na leitura que o teólogo Ratzinger faz da modernidade. Nela vê antes de tudo arrogância, relativismo, materialismo e ateismo, esforço humano em busca de emancipação por seus próprios meios. Missão da Igreja é desmascarar esta pretensão, levar-lhe clareza de princípios, segurança na obscuridade e verdades absolutamente válidas. Esta teologia contém muito de verdade, pois há efetivamente decadência na modernidade. Mas esta não poupa também a Igreja que é feita de justos e pecadores. Entretanto, importa alargar o horizonte teológico. Faz-se mister inserir junto com Cristo uma teologia do Espírito Santo, praticamente, ausente em Santo Agostinho e no teólogo Ratzinger. Uma teologia do Espírito permetiria ver no mundo moderno, como fez o Concílio Vaticano II (1965) grandes valores como os direitos humanos, a democracia, o trabalho, a ciência e a técnica. Do anátema a Igreja passaria ao diálogo. Associar-se-ia a todos os seres humanos de boa vontade para buscar uma verdade mais plena, pois o Verbo "ilumina a cada pessoa que vem a este mundo" e o "Espírito enche a face da Terra" como dizem as Escrituras judaico-cristãs. Como o Papa é sumamente inteligente pode bem ser que, face à nossa realidade, veja o que de bom está sendo feito para tirar as pessoas das consequências de uma perversa modernidade que negou a tantos milhões os direitos,a justiça e a vida.
Leonardo Boff

6 de mai. de 2007

Uma Nova Canção…

Tenho aprendido e tentado aplicar à minha vida a política do silêncio. Acho que a experiência me ensinou que em determinados momentos o gesto silente é muito mais eficaz do que dar vazão a palavras pois estas, muitas vezes, vêm acompanhadas de sentimentos nem sempre nobres...
Mas, diante de algumas questões, principalmente aquelas que envolvem princípios, questões de caráter, respeito, virtudes básicas que pelo menos nos meus áureos tempos de escola ainda nos ensinavam, é impossível ceder, e as palavras tornam-se armas poderosas, aliadas na luta por um mundo justo, um mundo melhor.
Hoje, elas tomam vazão em defesa de alguém que sequer conheço, mas as vestes da justiça não têm olhos, e nem estes são necessários pois a consciência é algo que nos fala com sapiência e neste instante a balança da revolta pesa mais que a da indiferença, já que esta canção que hoje ouvi não é tão nova assim...
Hoje contamos com inúmeros meios de comunicação, uma evolução louvável, mas que precisa ser disciplinada, como tudo na vida, uma vez que liberdade em excesso acaba se transformando em anarquia.
Nem tudo que se prega, fala, nem tudo na vida é 100% bom ou ruim, com algumas exceções neste “reino tão universal”... Metáforas à parte, voltemos ao cerne na questão...
Há anos uma mesma canção toca no rádio e na TV... E a cada dia seu coro se enche de vozes, silenciando outras apenas por ter mais potência. Nada de errado, o ser humano é livre, até mesmo para escolher ser escravo novamente, escravo desta canção que soa como um disco arranhado, cantarolando as mesmas melodias, melodias que soam como sofismas diante de tão deturpada imagem de que apenas naquele pedaço de céu existe salvação.
Mas que $anto$ são esses? $anto$ que falam por Deus, que sabem de suas vontades? Que acreditam que a morte é uma forma de retirar do cenário alguém que os incomode, alguém que não testemunha da mesma loucura e alienação? Que vêm a morte como um castigo, e não como a porta para a vida eterna? $anto$ que se julgam Deus... Anjos que se julgaram Deus... Acho que podemos estabelecer aqui um paralelo...
Hoje a canção que me revolta é a da leviandade... dos $anto$ da nova meca que, em busca de Ibope e de novos sócios jogam palavras em rede nacional como se estivessem a ler uma receita de bolo. Usam neologismos, descartam a filosofia, a teologia, acreditam que seus escritos de ABC, meros manuais de auto-ajuda, são superiores que as próprias Encíclicas Papais. Reduziram a igreja a acampamentos, onde legiões de pessoas vão em busca de cura e libertação, distorceram a liturgia, transformaram o altar num palco para seus shows, transformaram os templos em galpões...
O que ainda está por vir? Acho que só mesmo eles sabem, já que assumiram o papel de canal aberto com Deus...
Waleska Melo

Mentira global

Os países comprometidos com o combate às mudanças climáticas estabeleceram metas equivocadas. E sabem disso...
George Monbiot, THE GUARDIAN

Os países ricos que estão querendo impedir as mudanças climáticas têm em comum o seguinte - eles mentem. Vocês não encontrarão essa afirmação na minuta do novo relatório preparado pelo Comitê Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC - Intergovernmental Panel on Climate Change). Mas, assim que entender os números, terá a verdade diante dos olhos. Os governos que fazem esforços genuínos para lutar contra o aquecimento global usam números que sabem serem falsos.
O governo britânico, a União Européia e a ONU, todos alegam estar tentando impedir mudanças climáticas “perigosas”. Qualquer alteração climática é perigosa para alguém, mas há amplo consenso sobre o que essa expressão significa - 2 graus de aquecimento acima dos níveis pré-industriais. É perigoso por causa do seu impacto sobre as pessoas e os lugares (pode, por exemplo, desencadear um derretimento irreversível da cobertura de gelo da Groenlândia e o colapso da floresta tropical da Amazônia) e, como tende a estimular mais aquecimento, incentiva os sistemas naturais do mundo a liberar gases de efeito estufa.
O objetivo de impedir um aquecimento superior a 2°C foi adotado abertamente pela ONU e pela União Européia e implicitamente pelos governos britânico, alemão e sueco. Todos disseram esperar restringir a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera a um nível que venha a impedir tal elevação. E todos eles sabem que estabeleceram metas erradas, baseadas em dados científicos obsoletos. Temerosos das implicações políticas, não ajustaram suas metas à exigência das novas pesquisas.
A temperatura média global é afetada pela concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Essa concentração é geralmente expressa como “o equivalente em dióxido de carbono”. Não é uma ciência exata - é impossível dizer que uma determinada concentração de gases resultará num determinado aumento da temperatura -, mas os cientistas tratam a relação em termos de probabilidade. Documento publicado em 2006 pelo climatologista Malte Meinshausen sugere que, se os gases de efeito estufa atingirem a concentração de 550 partes por milhão, em equivalente a dióxido de carbono, há uma chance de 63% a 99% (com uma média de 82%) de que o aquecimento global ultrapasse os 2 graus. Com 475 partes por milhão (ppm), a probabilidade média é de 64%. Apenas se as concentrações forem estabilizadas em 400 partes por milhão (ou menos) é que diminuem muito as chances (em média de 28%) de que as temperaturas se elevem em mais de 2 graus.
A minuta do relatório do IPCC contém números parecidos. Uma concentração de 510 ppm nós dá uma chance de 33% de impedir um aquecimento de mais de 2°C. Uma concentração de 590 ppm nós dá 10% de chance. Você começa a entender a proporção do desafio quando descobre que o nível atual de gases de efeito estufa na atmosfera (usando a fórmula da IPCC) é de 459 partículas por milhão. Ou seja, já ultrapassamos o nível seguro. Para nos dar a uma alta chance de impedir alterações climáticas perigosas, precisamos o quanto antes de um programa tão drástico que os gases de efeito estufa na atmosfera fiquem abaixo das concentrações atuais.
Mas nenhum governo se propôs a essa tarefa. A União Européia e o governo sueco estabeleceram a meta mais rigorosa do mundo. É de 550 ppm, o que nós dá uma quase certeza de mais 2°C. O governo britânico lança mão de truque de magia. Seu objetivo é também “550 partes por milhão”, mas 550 partes somente de dióxido de carbono. Quando incluímos os outros gases de efeito estufa, isso se traduz por 666 ppm, em equivalente ao dióxido de carbono . Segundo o relatório Stern do último outono sobre a economia da alteração climática, com 650 ppm, há uma chance de 60% a 95% de um aquecimento de 3°C. Noutras palavras, a meta do governo nos compromete com um nível muito perigoso de mudança climática.
Faz ao menos quatro anos que o governo britânico sabe que estabeleceu a meta errada. Em 2003, seu departamento de meio ambiente concluiu que “com uma estabilização de CO2 atmosférico de 550 ppm, a expectativa é que as temperaturas se elevem entre 2°C e 5°C”. Em março do ano passado, admitiu que “um limite próximo a 450 ppm ou mesmo mais baixo talvez seja mais apropriado para atender ao limite de estabilização em 2°C”. Mesmo assim, a meta não foi alterada.
A União Européia também sabe que está usando os números errados. Em 2005, descobriu que “para se ter uma oportunidade razoável de restringir o aquecimento global a não mais de 2°C, talvez seja necessária uma estabilização das concentrações bem abaixo de 550 ppm de equivalente em CO2. Mas seu alvo não foi mudado, também.
É constrangedor para o governo e para esquerdistas como eu o fato de que a única grande entidade política no Reino Unido que parece capaz de contestar isso é o Partido Conservador britânico, de oposição. Num documento publicado no mês passado, o partido exigiu uma meta de estabilização atmosférica de 400 ppm a 450 ppm de equivalente em CO2. Será que isso se transformará numa política do governo?
No meu livro Heat (Aquecimento), calculo que, para evitar o aquecimento de 2 graus, requer-se um corte das emissões globais de 60% per capita entre agora e 2030. Isso se traduz numa redução de 87% no Reino Unido. Uma meta muito mais rigorosa que a do governo britânico, que requer redução de 60% nas emissões no Reino Unido em 2050. Porém, meus cálculos parecem ter sido subestimados. Documento da revista Climatic Change ressalta que a sensibilidade das temperaturas globais às concentrações de gás efeito estufa permanece incerta. Mas, se usarmos o número médio, para termos 50% de chance de impedir um aquecimento superior a 2°C, é preciso uma redução global de 80% em 2050.
Esse é um corte no total das emissões, e não nas emissões per capita. Se a população mundial passar de 6 bilhões para 9 bilhões entre agora e 2050, precisaremos de uma redução das emissões globais de 87% por pessoa. Se as emissões de carbono forem distribuídas igualmente, o corte maior deve ser feito pelos maiores poluidores - nações ricas como nós. Assim, as emissões per capita do Reino Unido precisariam cair 91%.
Mas nossos governos parecem ter, disfarçadamente, abandonado sua meta de prevenir alterações climáticas perigosas. Se assim for, eles condenam milhões de pessoas à morte. O que o relatório da IPCC mostra é que temos que parar de tratar as mudanças climáticas como uma questão urgente. Temos que começar a tratá-las como uma emergência internacional.
Temos que abrir imediatamente negociações com a China, que ameaça se tornar a maior emissora de gases de efeito estufa do mundo em novembro próximo, em parte porque fabrica muitos dos produtos que compramos. Precisamos calcular quanto custaria para descarbonizar sua crescente economia e ajudar a pagar por isso. Precisamos de uma grande ofensiva diplomática, muito mais premente, para convencer os Estados Unidos a fazer o que fizeram em 1941 e transformar a economia. Mas, acima de tudo, temos que mostrar que continuamos levando a sério o combate às mudanças climáticas, estabelecendo as metas exigidas pela ciência.

5 de mai. de 2007

CARTA DA XIX ASSEMBLÉIA DA CPT

Sabemos que toda a criação geme e está com dores de parto até agora.” (Romanos 8, 22)

Estamos em meio a uma profunda crise civilizatória. O modelo civilizatório ocidental capitalista, alicerçado na exploração de seres humanos por outros seres humanos e na intensa exploração da natureza por uma restrita elite mundial que se sustenta e se reproduz em sistemáticas guerras de ocupação e intervenção, na idolatria do consumo, é o responsável pelo aquecimento global e pela miséria no mundo.
O Brasil, hoje como sempre, continua assumindo um papel periférico de colônia entregando suas riquezas e vidas aos interesses do capital. O governo de FHC privatizou as empresas estatais de serviços e infra-estrutura. O governo Lula – escondendo-se atrás de concessões e parcerias - está entregando a natureza e o território brasileiro.

O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tem como objetivo principal potencializar a infra-estrutura a serviço do agro-hidro-negócio, do agrocombustível, da exportação das reservas minerais, florestais, hídricas e territoriais, sem levar em conta os protagonismos, as demandas e as lutas que nascem do campo e da cidade e que exigem a participação popular, a socialização do poder e a distribuição da riqueza.

A prova disso é que o governo considera como entraves os interesses e resistências de populações tradicionais e as ações dos movimentos sociais e do ministério público em defesa do ambiente e da vida. Do mesmo modo pouco faz para assegurar os direitos territoriais de quilombolas, indígenas e posseiros, não implementa e não amplia as metas de reforma agrária, não combate a grilagem, não atualiza os índices de produtividade da terra, não se esforça para que seja aprovada a emenda constitucional que permite o confisco das terras onde se dá trabalho escravo.

De modo especial, nesta XIX Assembléia, nos organizamos para o estudo detalhado da Lei de Concessão de Florestas Públicas, mais um instrumento que se integra ao PAC. Concluímos que esta Lei é inútil, cínica e iníqua. Inútil porque o Brasil já possui um conjunto de leis - que nunca foram levadas a sério – que combatem a grilagem e o desmatamento, regulamentam o manejo florestal e garantem os direitos territoriais das populações tradicionais. Cínica porque manipula os discursos e as práticas da defesa do meio-ambiente e dos interesses nacionais, enquanto se multiplicam as ameaças à legislação ambiental, e o governo não oferece condições ao Incra e ao Ibama e demais órgãos de fiscalização e loteia cargos públicos a ONGs interessadas na certificação florestal a serviço do mercado. Iníqua porque a única e verdadeira novidade desta lei, a concessão, é uma autêntica privatização do uso das florestas públicas atendendo interesses de grupos nacionais e internacionais motivados pelo lucro e pelo esgotamento da madeira em muitos países e nas propriedades particulares. Iníqua, também, por desobrigar o mercado madeireiro a obedecer a legislação ambiental e fundiária existente no país, contradizendo o dispositivo constitucional que considera as florestas patrimônio público inalienável. Isto, que diz respeito à Amazônia, à Mata Atlântica, à Serra do Mar, à Zona Costeira e ao Pantanal, também, deve ser aplicado ao Cerrado, à Caatinga e aos demais biomas.

Diz a Constituição no artigo 225:
Todos têm direito ao meio-ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”

Porque em esperança fomos salvos. Mas, se esperamos o que não vemos, com firmeza o esperamos”. (Romanos 8, 24 e 25)

Os movimentos sociais, mesmo num momento de conflito e de contradição, continuam mantendo sua esperança militante num projeto de Brasil que garanta a soberania e segurança territorial, ambiental, energética e alimentar de modo que o trabalho, a economia e as políticas públicas priorizem a vida do povo brasileiro, em especial dos mais pobres, de modo estrutural e não compensatório.

Esta esperança se concretiza neste tempo em inúmeras ações e articulações de mulheres camponesas, juventude rural, sem-terras, pequenos agricultores, atingidos por barragens, quilombolas e indígenas, extrativistas e ribeirinhos que não se entregam à lógica do agro-hidro mercado avançando com experiências e propostas de agroecologia, produção e consumo socializados e defesa da natureza e dos modos de vida camponês. Estas experiências e propostas não são expressões isoladas, mas se movimentam na direção de alianças com os movimentos sociais da cidade e das forças vivas da sociedade. Nesta esperança compartilhamos, aprendemos e fortalecemos as experiências latino-americanas de poder popular como expressão de um caminho cultivado por nossos povos em solidariedade.

Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nada nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Romanos 8, 38 e 39)

Fiel ao Deus dos pobres, aos pobres de Deus e à Terra de Deus para todos e todas, a CPT se afirma como espaço eclesial e se une, nas palavras de dom Pedro Casaldáliga, com brio e esperança à opção da Teologia da Libertação. Sabemos, pelo nosso povo, que a luta pela Terra e pela Água é um serviço urgente ao Reino de Deus e uma resposta agradecida e corajosa ao testemunho de homens e mulheres, mártires da Nossa América.

O meu povo viverá muitos anos como as árvores e se deliciará com o fruto do trabalho de suas mãos.” (Isaías 65, 22)

Goiânia, 27 de abril de 2007

Espiritualidade da libertação para o século XXI

Como pensar, em comunhão e liberdade de espírito, a espiritualidade da libertação para o século XXI? Como continuar dando passos concretos no seguimento a Jesus em tempos de retorno do moralismo e do tradicionalismo fundamentalista que ronda as atitudes e práticas religiosas? São questões que devemos como cristãos e cristãs buscar compreender.

Antes de tudo, precisamos entender que toda espiritualidade têm como sentido último a libertação das pessoas. A espiritualidade é uma adesão pessoal a um projeto de vida a ser vivido em comum por um grupo, ou seja, no coletivo. Os cristãos possuem sua espiritualidade. Os muçulmanos a sua. Os budistas a sua. Na tradição cristã existem muitas formas de espiritualidade nas diversas denominações. Os católicos, os anglicanos, os luteranos, os ortodoxos, enfim, cada uma vive a sua espiritualidade. E, ainda, no interior de cada denominação religiosa existem grupos que vivem diferentemente o projeto. Assim, espiritualidade é o jeito que vivemos o Evangelho. É a maneira encontrada por um determinado grupo em viver o projeto no qual acreditamos. Portanto, se toda espiritualidade é por excelência libertadora, toda espiritualidade cristã também deve ser.

Para nossa tradição cristã, espiritualidade é seguir a Jesus, em nossa história, hoje, nas alegrias e tristezas que a humanidade nos oferece. E devemos assumi-la como sendo nossa espiritualidade. Seguir a Jesus significa assumir suas causas, adotar suas atitudes, viver segundo o Espírito. Assim, percebemos que fazer a experiência da espiritualidade não é algo simplesmente “transcendental”, “metafísico”, distante das realidades humanas. A espiritualidade nos interpela a assumir o projeto de libertação proposto por Jesus. E, como seguidores, devemos encontrar a estrada para nela caminhar.

Nas primeiras comunidades cristãs, a espiritualidade cristã estava sendo vivida sob a égide da perseguição do Império Romano e da perseguição de grupos extremistas do judaísmo. Hoje, deve-se viver a espiritualidade cristã da libertação sob a égide do culto ao deus mercado impulsionado pelo avanço do Império Neoliberal. Império que ronda o planeta como única via e que amplia seu território de fixação da doutrina e estimula a escravidão das consciências, principalmente, das massas que são chamadas a se tornarem consumidoras desse mercado total.

Pensar a espiritualidade fora e distante das realidades humanas significa torna-la em ritualismo ou em falta de sinceridade com o projeto de Jesus, ou seja, torna-se um espiritualismo desencarnado, sem compromisso com a caminhada de Jesus que devia ser a nossa caminhada, em busca do Reino Definitivo, onde todos e todas “tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). Alguém poderia perguntar: Como saber qual deva ser nossa espiritualidade? Primeiro, abrir-se ao clamor dos pobres e de todo o povo que clama por libertação; e, também, ao vento do Espírito que sopra e age onde quer.

Evidentemente que de uns tempos para cá cresceu o clamor e a sede por espiritualidade nas comunidades cristãs e não-cristãs. As pessoas querem viver a experiência do sagrado. Querem beber do poço a água viva da esperança, das lutas e da busca pelo Deus da Vida. As pessoas cada vez mais se sentem atraídas pelo mistério e querem se encontrar ou se reencontrar neste Mistério. Por isso, o crescimento universal das religiões e de comunidades alternativas. Todos querendo beber da água que o mundo pós-moderno não lhes oferece. Mas até que ponto isto é espiritualidade? Até que ponto esta busca pelo sagrado não gera mais individualismo e acaba ampliando as idéias do mercado neoliberal? Até que ponto as pessoas querem mesmo assumir um compromisso com o projeto a ser seguido? A libertação é a conseqüência do compromisso assumido.

Dessa forma, espiritualidade pode ser definida como sendo as motivações, os ideais, as utopias, a paixão e a mística pela qual se vive e se luta. Espiritualidade é aquilo que nos contagia na caminhada. Os espiritualismos estão repletos de doutrinas, ritos, dogmas sem nenhuma paixão, ideais e vida. Falta-lhes o essencial da experiência com o sagrado. A espiritualidade possui a liberdade de espírito. Os espiritualismos, ao contrário, fazem com que as pessoas vejam o mundo de forma mecânica. Para os cristãos e cristãs de ontem e de hoje o importante é agir conforme o espírito do Reino tendo como eixo norteador a espiritualidade do seguimento a Jesus. Outros espíritos se afirmam na história, tais como: o espírito do romanismo, o espírito do capitalismo, o espírito da lógica de mercado neoliberal, o espírito do liberalismo, entre outros. Resta-nos servir ao espírito do Evangelho, pois “não se pode servir a dois senhores”.

A espiritualidade é patrimônio de toda a humanidade, de todos os povos da terra. Toda e qualquer pessoa é animada por uma espiritualidade que a contagia na caminhada. Alguns são contagiados pelos valores do Evangelho, outros pela sedução do mercado neoliberal, outros pela valorização da cultura perdida. Assim, espiritualidade não se refere somente às religiões. Ela é algo do próprio ser humano que é um ser fundamentalmente espiritual. Mas, toda espiritualidade é também algo religioso. Existem espiritualidades religiosas e não-religiosas. Para nós, cristãos e cristãs, a espiritualidade é, acima de tudo, religiosa. É nela que se faz a experiência com o Deus da Vida. No entanto, não basta a religiosidade. É preciso e necessário que a religião esteja profundamente arraigada pela espiritualidade, ou seja, é preciso que haja autenticidade no seguimento ao projeto de Deus, ao Reino. Fácil seria se espiritualidade fosse entendida somente como sendo práticas ritualistas ou compromisso mecânico de ir à missa ou participar de algum evento religioso. Não, espiritualidade é algo mais comprometedor que nos engaja na luta pela vida, pelo Reino.

Nossa fé é cristã e a partir dela nós descobrimos Deus presente no cosmo, na vida e na história da humanidade. Na fé cristã Deus vem morar com a gente. Deus é amor gratuito sem cobranças vazias. Portanto, nossa espiritualidade é religiosa porque o Deus vivo é revelado por meio de Jesus, seu Filho. E é cristã porque somos convidados a seguir o projeto do Reino no seguimento a Jesus. O Deus de Jesus é o nosso Deus. A causa de Jesus é a nossa causa. Já dizia Paulo: “Nosso viver é o Cristo” (Fl 1,21). Jesus é nosso “pathos” – paixão, e seu Espírito a nossa espiritualidade.

Podemos viver a espiritualidade em dois sentidos, a saber: de forma personalizada, consciente e livre que abranja todas as dimensões do ser do Homem (alma e corpo, pensamento e vontade, sexo e fantasia, palavra e ação, interioridade e comunicação, contemplação e luta, gratuidade e compromisso), pois cada pessoa a vive de forma única; e, vive-la de forma encarnada na história, hoje e aqui, em nossa América Latina e em nossas comunidades com suas dores e alegrias. Viver as duas dimensões da espiritualidade nos abre caminhos para se viver concretamente o que aqui chamamos de Espiritualidade da Libertação.

A espiritualidade não pode reprimir a realização pessoal e o vôo do Espírito. Isto seria ir contra ao Evangelho da Liberdade anunciado por Jesus. O perigo dos espiritualismos é cairmos numa formação espiritual dispersiva, mutilada, dicotômica, unilateral e mecanicista. A vida do ser humano é importante neste processo e ela pode ser entendida como problemática (mistério), como desafio (uma missão), um espaço (graça) e assumir este espaço requer atitudes, mediações com a finalidade de se atingir a opção fundamental na vida.

Espiritualidade é vida. Vida não se ensina, mas se experimenta. Logo, todos e todas são chamados a experimentar o Espírito de Jesus por meio do seguimento ao seu projeto. Assumir o seguimento significa viver uma espiritualidade. Viver a espiritualidade do seguimento a Jesus hoje significa assumir as dores e angústias, alegrias e festas do povo ao qual pertencemos. Se estivermos na América Latina, no Brasil, em Goiás, numa comunidade eclesial específica significa assumir o seguimento a Jesus aí, nesta realidade de vida. Assim, teremos a vivência concreta de uma espiritualidade religiosa, cristã, latino-americana e libertadora. Espiritualidade do “Povo Novo” para o bispo profeta Pedro Casaldáliga que possui as seguintes características: lucidez crítica, a contemplação na caminhada, a liberdade dos pobres, a solidariedade fraterna, a cruz e a conflitividade, a insurreição evangélica ou a Revolução da Boa-Nova e, por fim, a teimosa esperança pascal.

Características do Povo Novo que se apresenta a nós, hoje e aqui, em nossa América Latina mundializada para todos os povos da Terra. Tais características não sobrevivem sem o fortalecimento da Espiritualidade da Libertação interpelada por uma profundidade pessoal, pelo reinocentrismo, por uma espiritualidade do essencial e universal cristão, pela localização na realidade histórica dos pobres, pela crítica, pela práxis e pela integridade sem dicotomias e sem reducionismos.

Assim, pode-se definir a Espiritualidade da Libertação como cristológica, situada historicamente no social e nas comunidades cristãs, na cruz da profecia e do conflito, na gratuidade e na exigência do Evangelho, na contemplação libertadora e no anúncio incondicional do Reino e na denúncia do anti-Reino; espiritualidade da libertação que se enraíza nas culturas oprimidas de nossa história, herdeira do sangue de muitos e muitas que tombaram doando a vida e o sangue do martírio, profeticamente alternativa ao sistema de morte, na co-responsabilidade eclesial e, por fim, com profundo espírito ecumênico e macro-ecumênico.

Vivemos em todos os países do mundo um momento de mundialização do espírito neoliberal, do poder das trevas. É o anti-Reino crescendo e se ampliando. Como cristãos e cristãs, deveríamos viver a espiritualidade da libertação e anunciar o Kairós do Reino, Reino de Deus anunciado por Jesus. Não basta cumprir os preceitos religiosos e práticas devocionais para construir o Reino. É preciso um compromisso de fidelidade maior com o Evangelho e com a construção do projeto de Jesus. Ser discípulo e discípula de Jesus não significa dizer “Eu te amo Jesus” ou “Jesus é Dez”. Ser discípulo e discípula significa dar a vida pelos que não possuem vida. Como Igreja (comunidade de fiéis) deveríamos ser interpelados pelo testemunho do Evangelho e da Tradição e, para nós aqui da América Latina, testemunho dos mártires da caminhada e, com isso, assumir a postura do engajamento nessa luta sem perder a mística da contemplação.

A mundialização na qual vivemos se impõe como neoliberal, de mercado total, idolátrica, escatológica – pois anuncia o “fim da história”, consumista, privatizadora, narcisista e sem alternativas possíveis. Nega-se com isso a radicalidade do Evangelho, o compromisso com o “kairós do Reino”, com a utopia. Nesta lógica substitui a ética pelo estético, se ignora os pobres renegados a programas assistencialistas e compensatórios. Vivemos neste Kairós neoliberal “a noite escura dos pobres” e podemos cair em três grandes tentações, a saber: “a tentação de renunciar a memória e a história; a tentação de renunciar a cruz e a militância; a tentação de renunciar a esperança e a utopia” como diz Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia.

Precisamos urgentemente de uma outra mundialização, numa outra modernidade ou pós-modernidade. Nas Igrejas cristãs precisamos de novas primaveras como aquela protagonizada pelo Concílio Ecumênico do Vaticano II. Corre-se o risco de tornarmos nossas comunidades e igrejas cristãs numa avalanche de fundamentalismos e exotismos, num festival catolicista ou cristianista. Sendo que é hora, é tempo de profeticamente denunciar este anti-Reino neoliberal do “deus mercado” e anunciar também profeticamente o Reino de Deus, da justiça e da paz. Se as Igrejas cristãs perderem este rumo, perder-se-á o sentido do Evangelho e do próprio seguimento a Jesus. Não podemos retroceder à fase da cristandade que ronda o universo das mentes religiosas de nossa atual história o que determina colocar no esquecimento as conquistas na espiritualidade, nas liturgias, na teologia, na vida religiosa inserida na vida popular, nas pastorais sociais, na diversidade dos ministérios, no profetismo dos cristãos leigos e dos pastores e pastoras, da mulher que deve ser respeitada em seu ministério (nisso, Anglicanos e Luteranos estão muito mais avançados do que os Católicos), no ecumenismo e no diálogo inter-religioso ou macro-ecumenismo, nas Igrejas comprometidas na luta pelos direitos humanos, pela cidadania, pela ecologia, pela terra, pela saúde, pela criança e adolescente, pela juventude, pela moradia digna, pela educação, pela comunicação, pelo trabalho, pela paz, pelos povos indígenas, enfim, pela vida. Por isso, necessitamos de Igrejas cristãs mais evangélicas, simples, missionárias, comprometidas com o povo. Igrejas cristãs pascais, serviçais, livres dos acordos com as elites, desinteressadas, fiéis ao mandato de Jesus. Precisamos trocar nosso coração de pedra por um coração pascal. É chegado o momento.

Claudemiro Godoy do Nascimento

Seguir a Jesus: Opção e Profecia

Continua sendo um grande desafio tentar caminhar nas estradas de Jesus em nossos tempos. Constantemente, nas orações eucarísticas da Igreja Católica, o povo repete confiante nas missas: “Caminhamos na estrada de Jesus!”. Esta afirmação queima. Exige compromisso de fé. Exige rompimento com tudo aquilo que não faça parte do projeto de Jesus. De nada adianta fazer tal afirmação no rito da Eucaristia se, de fato, não sabemos qual é o caminho e a estrada de Jesus.

Seguir a Jesus hoje significa acreditar na opção de Jesus pela humanidade toda, em especial, os pobres. Portanto, as opções de Jesus devem ser as nossas opções também hoje, em nossa história, em nosso cotidiano. As atitudes e a práxis de Jesus devem ser a nossa hoje. Por isso, há o perigo de se pronunciar algo, simplesmente porque está no rito ou na celebração, uma espécie de mecanização de linguagem ou decoração sem fé do ritual eucarístico. Viver a espiritualidade cristã significa estar atento ao Cristo que se identifica com os sem voz e sem vez.

É comum ouvir pessoas dizerem que possuem uma grande fé em Jesus e pouco se escuta ou se vê na realidade pessoas terem a fé de Jesus. Como já dizia a música do Padre Zezinho: Viver como Jesus viveu historicamente situado, entre os leprosos, os paralíticos, os cegos, os coxos, órfãos e as viúvas, as prostitutas. Como é difícil ver cristãos e cristãs neste meio social em nossos tempos. As igrejas estão lotadas, as catedrais estão cheias de pessoas em busca da febre do momento: “Sentir-se em paz, com Deus”. Mas como viver em paz e com Deus sendo que há crianças chorando de fome e de frio nas ruas? Como se sentir em paz e na harmonia – como sentir-se zen – sendo que muitos e muitas não têm uma casa onde encostar a cabeça e vivem perambulando pelas ruas, debaixo dos viadutos e nas rodovias? Como se sentir em paz vendo poucos ganharem bilhões de dólares em segundos ou minutos e bilhões de seres humanos viverem com menos de 1 dólar por dia? Como viver em paz e com Deus vendo a situação de miséria e favelização dos assentamentos rurais e da falta de uma reforma agrária com desenvolvimento sustentável, formativa e que gere renda para os trabalhadores rurais? Como viver em paz dentro da segurança das igrejas e dos templos vendo a destruição da casa comum, o planeta Terra? Como viver em paz num mundo onde reina o ódio e o desamor? Como viver em paz vendo políticas do Império neoliberal sendo implantadas determinando o crescimento do Estado Mínimo? Como viver em paz vendo milhões de pais e mães de família no subemprego, na economia informal ou no real desemprego? Como viver em paz vendo nossas culturas sendo destruídas pela cultura única, pelo pensamento único, pela lógica do mercado que chegam aos mais remotos lugares deste planeta? Definitivamente, não dá para ter paz. É impossível para qualquer cristão pensar somente no seu umbigo e no seu ser individual. Caso isso ocorra, significa que não existe seguimento a Jesus, ao projeto. Não se pode confundir o seguimento a Jesus com o seguimento a religião. As religiões, entre elas, o cristianismo e suas várias denominações são mediações para caminhar no projeto de Deus para toda humanidade e não exclusivamente para meu ser individual.

Parece estarmos vivendo em tempos onde o nome de Jesus é literalmente comercializado. Cada um vendendo o seu peixe, o seu Jesus, e muitos clientes a procura da água para matar a sede. Parece estar havendo um esquecimento do Jesus histórico, aquele mesmo que deixou a mulher lavar seus pés com o cabelo, o mesmo que foi condenado pelos fariseus, o mesmo que andava entre os marginalizados de sua época. Deus, na história da humanidade, suscitou homens e mulheres que lembraram-nos o caminho do Reino. Parece que vivemos tempos de seca, de falta desses homens e mulheres. Sinto que os cristãos e cristãs de hoje vivam nas aparências religiosas com um Cristo sem Reino e sem projeto, sem cruz, sem as bem-aventuranças, sem a partilha do pão, sem o perdão, um Cristo sem opção e sem Evangelho, um Cristo sem profecia. Parece haver um esquecimento do Jesus que se identifica com o rosto dos excluídos como bem nos alerta Mateus 25.

O cristianismo e os cristãos e cristãs não podem deixar no esquecimento que a fé cristã consiste em viver a memória perigosa de Jesus e a profecia histórica que foi a sua própria vida. Memória perigosa do sacramento da eucaristia, subversivo por natureza, terno e fraterno que deveria interpelar homens e mulheres a construir um novo ethos para a humanidade, pois o ethos neoliberal, capitalista, de mercado total possui um projeto contrário ao projeto de Jesus. Bem lembrava Jesus: Não se pode servir a dois senhores. De fato, não se pode seguir o Evangelho e a Jesus sendo capitalista e fazendo parte do Império neoliberal. Por isso, pode-se chegar à conclusão de que o seguimento a Jesus se dá em comunhão e não individualmente. Assim, ninguém salva ninguém, ninguém se salva sozinho, nós nos salvamos em comunhão.

Jesus continua fazendo a encarnação na humanidade, em cada cultura, em cada povo, em cada momento histórico onde um irmão, um menor, um marginalizado esteja sobrevivendo. Como já disse nosso irmão bispo-profeta Dom Pedro Casaldaliga: “Há muito Cristo roto por aí, muito Jesus pela metade, muito meu Jesus reducionista”.

Jesus continua ousando perguntar aos apóstolos de hoje, aos discípulos de hoje a mesma pergunta feita aos doze companheiros da caminhada: E vocês, quem dizem que eu sou? (Mc 8, 27-33). As respostas serão muitas. Algumas com doutrinações e sistemas filosóficos e teológicos pré-determinados. Outras com declarações de fé repetidas mecanicamente pela decoração de palavras. Poucos dirão que Jesus é o pobre, o fraco, o órfão, a viúva, a menina prostituída, o trombadinha ladrão, o sem terra em marcha, o índio transculturado, o sem-teto, o morador de rua, o idoso discriminado, o jovem sem sonhos e sem causas etc. Este é o Jesus encarnado, vivo em nosso meio e que passamos pela rua e fingimos que não vemos. Porque fomos literalmente catequizados para compreender e acreditar na presença viva de Jesus somente na transubstanciação do pão, a eucaristia. E continua sendo negado saber que Jesus se faz presente no rosto daqueles e daquelas que se encontram nas senzalas da vida.

Segundo Dom Pedro Casaldaliga o “Deus de Jesus é o Deus do Reino, e a opção de Jesus é o Reino de Deus”. Este deve ser o nosso Deus e a nossa opção fundamental como cristãos. Este é o nosso paradigma. No Evangelho de João 6, 67 há um alerta para aqueles e aquelas que queiram desistir do caminho, ou seja, deixar de lado a opção de Jesus, “lightizar” a Boa-Nova de Jesus. O objetivo central da opção que se faz pela estrada de Jesus é o Reino de Deus. As Igrejas são mediações para se alcançar este objetivo, mas podem ser também descaminhos do Reino. A espiritualidade cristã nos ajuda no caminho e é possível vive-la de muitas formas e jeitos. Aproximar de Deus só pode ser possível se conseguirmos no caminho aproximarmo-nos do irmão sofredor que é a causa máxima de Jesus. Por isso, nestes tempos, corre-se o sério perigo de apequenar o projeto de Deus, de seqüestrar Deus como objeto individual dos nossos desejos mais mesquinhos, de proibir a ação de Deus por meio de homens e mulheres que lutam em defesa da vida.

Como praticar Deus em nossas vidas? Como corrigir Deus em nossas vidas? Como deixar Deus ser Deus em nossas vidas, em nossas comunidades cristãs? São questões sérias que nos apontam para um caminho da conversão pessoal e comunitária. No livro Espiritualidade da Libertação, nossos irmãos José Maria Vígil e Dom Pedro Casaldaliga questionam nossa fé nesse Deus:

A pergunta pelo Deus cristão é a pergunta mais radical que a própria Igreja pode se fazer. Trata-se de saber se o Deus que adoramos é realmente o Deus de Jesus ou um ídolo mascarado. E esta pergunta abrange também a análise da função que a fé cristã desempenha na sociedade e na história. Porque, podendo parecer um Deus cristão no âmbito reduzido da referência bíblica ou do mundo pessoal, pode estar, de fato, exercendo funções sociais, de legitimação de práticas e estruturas, inteiramente contrárias ao plano de Deus, ao Reino pregado por Jesus (p. 101).

Temos uma só certeza nisso tudo: Nosso Deus é o Deus da Vida. Podemos realizar todas as práticas religiosas obrigatórias ou não, clamar pelo nome de Jesus, chorar, emocionalizar-se, exercer ministérios na hierarquia de qualquer igreja cristã, manipular a imagem de Deus a nosso bel-prazer e realizar o anti-Reino como se fosse o Reino. De nada adianta se não acreditarmos nesse Deus da Vida, que ama e se doa por uma sociedade mais justa, fraterna e realmente humana. Corremos o sério risco de platonizar o Deus dos cristãos e com isso negar a essência do cristianismo: amar o Homem todo e todo Homem. Se o Deus de Jesus é o Deus do Reino, outros deuses são ídolos. Ídolos não são imagens somente, mas sistemas que massacram o ser humano, tornando-o em um não-humano, desumano ou desumanizado. A idolatria pode estar dentro das próprias igrejas ao adorarem mais o dinheiro, o capital, o sistema neoliberal, o projeto político de uns poucos da elite que teimam em retornar à hegemonia do poder, enfim, idolatria é tudo aquilo que se caracteriza como anti-Reino de Deus. Usam o nome de Deus para se promover econômica ou politicamente, para promover guerras, para fazer acordos políticos ou para se ganhar eleições.

É momento propício para que os ídolos sejam desmascarados. Para isso, é necessária a força profética, tão em falta na nossa história. A profecia exige militância, discernimento e fidelidade ao projeto de Jesus e seu Reino. O Reino de Deus anunciado por Jesus deve ser o nosso anúncio hoje. Já dizia Paulo VI na Evangelii Nuntiandi (n.08) “Só o Reino é absoluto. Todo o resto é relativo”. Então que o Reino de Deus possa vir realmente por meio do engajamento e do compromisso de cada um e de cada uma, homem e mulher, que queira ver a justiça, a concórdia, a ternura, a fraternidade e o amor acontecer.

Lembro-me da música que não se canta mais em nossas comunidades: Eu quero ver, eu quero ver acontecer... um sonho bom, sonho de muitos acontecer. Este sonho ainda existe, castrado pelas instituições, acorrentado pelos espiritualismos e fundamentalismos, mas vivo e que ousa de tempos em tempos se libertar fazendo renascer a esperança, a militância e a promoção do Reino de Deus em nossas comunidades cristãs tão mecanizadas hoje pelo espírito do senso comum, da alienação, do emocionalismo e por um moralismo anti-libertador. Isso requer de nós hoje um exame de consciência: Que tipo de seguimento a Jesus fazemos? Que opção temos e queremos? É a opção de Jesus realmente? Estamos sendo realmente profetas que anunciam a Boa-Nova e denunciam, à luz do Reino, os interesses, as traições ao Evangelho e ao Reino, as infidelidades, as idolatrias?

Claudemiro Godoy do Nascimento

O seguimento a Jesus hoje

Recebi a palavra de Javé que me dizia: “Antes de formar você no ventre de sua mãe, eu o conhecia; antes que você fosse dado à luz, eu o consagrei, para fazer de você profeta das nações”. Mas eu respondi: “Ah, Senhor Javé, eu não sei falar, porque sou jovem”. Mas disse Javé: “(...) Hoje eu estabeleço você sobre as nações e reinos, para arrancar e arrasar, para demolir e destruir, para construir e plantar”. (Jr 1, 4-6a.10).

Em nossa sociedade muitos e muitas procuram seguir alguém ou algo. Seguir é uma dimensão humana que mostra o quanto necessitamos de paradigmas que se tornaram na pós-modernidade uma forma de adesão ao grupo social, ao pensamento hegemônico em vigor ou a modismos e tribos sociais desde “punks” a “jovens espiritualistas”, do movimento hip-hop a grupos de esquerda ligados a movimentos revolucionários, de apolíticos a fanáticos de um neonazismo e muitos outros. Todos se encontram nessa sociedade plural na qual vivemos e tentamos conviver. A vivência é inevitável, já a convivialidade se torna conflituosa numa sociedade com tantos grupos, ideologias e tribos de pensamentos e ações que são opostas e diferentes. Por outro lado, apesar de tantas diferenças somos tentados por um novo momento na história que tenta implantar o pensamento único, principalmente, na cultura e na economia. Um pensamento único com diferentes grupos, esta é a nova geografia mundial.

Quando alguém diz que segue a si mesmo quer mostrar (ou pelo menos tenta) que não se encontra ligado a nenhuma forma de doutrina, seita, religião, ideologia ou posição. Muitos filósofos no decorrer da história afirmaram que somos condicionados pela história, pela sociedade na qual vivemos e pela cultura donde nascemos. Neste ambiente construímo-nos enquanto seres humanos e como Pessoa Humana com valores, moral, códigos e signos.

Por isso, seguir é uma atitude humana. Pode-se seguir uma religião como o budismo ou islamismo. Outros seguem doutrinas agnósticas ou ideologias filosóficas. O que nos identifica é o seguimento. A forma de estar seguindo um projeto compreende o ato em si do seguimento. O que se torna diferente é o conteúdo do seguimento. O seguimento, mesmo sendo uma atitude humana, possui sua essência na transcendência. Só se torna seguidor aquele que transcendeu, logo, seguir é uma experiência espiritual.

E hoje, como cristãos e cristãs, como seguir a Jesus? A nossa espiritualidade se define como o seguimento a Jesus e ao Projeto do Pai. Seguir é ter uma espiritualidade. Para os cristãos e cristãs, é nossa espiritualidade. Seguir a Jesus hoje continua desafiando a milhões de pessoas que acreditam no plano da fé em seu projeto. Mas, seguir a Jesus supera o simples ato de fé. Seguir a Jesus significa assumirmos sua causa, suas atitudes, vivendo segundo o Espírito.

Seguir a Jesus hoje significa estarmos conscientes da História que nos cerca e dos desafios que nos atingem em nossas realidades. Antes, no tempo de Jesus, o seguimento se dava sob a realidade do Império Romano; hoje, seguir a Jesus significa estar sob a realidade do Império neoliberal. Viver o seguimento num contexto do neoliberalismo e globalização nesta América Latina e no Brasil, ainda na marginalização social.

O Império neoliberal está conseguindo alastrar e demarcar seu território. Hoje, o neoliberalismo se encontra em setores estratégicos da sociedade como política, cultura, economia e nas religiões. Até mesmo as religiões se curvam ao deus do império. Alguns buscam ser caminho alternativo ao projeto neoliberal, mas já podemos vislumbrar sementes do império penetrados no cristianismo e no islamismo. Por isso, seguir a Jesus hoje se torna um grande desafio para todos nós. Corre-se o perigo de cairmos na tentação do poder, do deus dinheiro, do orgulho, do individualismo, da competição e do consumismo desenfreado. Muitos escolhem a religião como suplemento de suas necessidades subjetivas. Necessitam da religião como suporte ao deus do império neoliberal. Estes, esqueceram-se do seguimento fiel a Jesus de Nazaré. Deixaram para trás a Utopia do Reino e o Evangelho (Boa Nova) que nos ensina uma espiritualidade no seguimento ao projeto de Jesus baseado no serviço, no amor, na “communitas fidelium” (comunidade de fiéis), no testemunho, na paz, na justiça e num novo céu e nova terra. Corre-se o sério risco das religiões tornarem-se redutos de “eus” (primeira pessoa do singular) e se engavetar o “nós” (primeira pessoa do plural). O eu está no nós. O princípio do seguimento a Jesus é a comunidade cristã que caminha unida. Na comunidade cristã o eu está contido no nós e o nós é o princípio da mensagem do Evangelho que destina-se a todos e todas.

Como descobrir nossa espiritualidade no seguimento a Jesus hoje? Para responder a esta indagação devemos estar abertos na sinceridade de coração ao clamor do povo e ao vento do Espírito. É a partir dessa dimensão que todo cristão e cristã encontrar-se-á enquanto discípulo e discípula do projeto de Jesus. Este projeto nos interpela, nos queima e nos chama a rompermos com as barreiras de nosso tempo e voltarmos ao verdadeiro sentido da nossa espiritualidade, espiritualidade no seguimento ao Reino de Deus anunciado por Jesus.

Claudemiro Godoy do Nascimento

Retratação do Prof. Felipe Aquino

Senhores Bispos,

Desejo mais uma vez pedir desculpas e perdão pelas palavras infelizes e ofensivas que usei em minha carta, particular e pessoal, dirigida a D. Pedro Casaldáliga, em relação aos Bispos nela citados. Esta carta não foi divulgada por mim em nenhum veículo de comunicação, mas infelizmente foi por alguém amplamente divulgada na Internet e causou dor e revolta.
Asseguro que não foi minha intenção ofender os senhores Bispos citados, e nem mesmo teve outra intenção, ou provocar agitação no seio da Igreja; quis apenas – por zelo e amor à Santa Igreja de Deus - protestar junto a D.Pedro por sua Carta Aberta que considerei ofensiva `a Santa Sé e ao Papa.
Em relação aos senhores Bispos citados quis apenas manifestar a minha discordância com o apoio que eles sempre deram, como outros, à teologia da libertação. Infelizmente no calor do momento, minhas palavras extrapolaram minhas reais intenções, pelo que peço mais uma vez desculpas pela dor causada em muitos. Asseguro que tal fato não se repetirá.
Lamentando o ocorrido peço-Vos o perdão e a Bênção!

Prof. Felipe Aquino

1 de mai. de 2007

O papa e a Teologia da Libertação

Frei Betto

João Paulo II ficará na história como o papa contemporâneo da Teologia da Libertação, que ele jamais condenou, malgrado as suspeitas da Cúria Romana e a repressão a Leonardo Boff.

Surgida na América Latina há cerca de 25 anos, sobretudo através das obras de Gustavo Gutierrez e Leonardo Boff, o que caracteriza a Teologia da Libertação não é a sua análise crítica da sociedade capitalista. É o seu método de refletir a fé dos pobres e a partir dos pobres, considerados sujeito histórico e referência evangélica por excelência.

Supor o Vaticano que a Teologia da Libertação é mero modismo político de teólogos de esquerda é, no mínimo, ignorar o que é fazer teologia a partir de uma situação de opressão, na qual a pobreza predomina como fenômeno coletivo, como ocorre no Brasil e na América Latina. O que significa falar de Deus nessa situação? Ou deve-se mentir que Deus aceita tanta miséria? O papa conheceu na pele as dominações soviética e nazista. Nunca experimentou a miséria coletiva.

A Teologia da Libertação não nasce em estufas eclesiásticas, como universidades ou seminários, mas em comunidades eclesiais de base (CEBs) e nos movimentos pastorais que agrupam fiéis das classes populares. Diante de tantas dificuldades na vida, eles indagam: o que Deus quer? Na busca dos "sinais dos tempos", atam elos entre fé e política, valores evangélicos e desafios da realidade, liturgia e festa, suscitando a metodologia teológica que é recolhida e sistematizada por teólogos.

O que Roma custa a entender é que a Teologia da Libertação poderia estar em crise se as condições sociais que lhe servem de matriz geradora estivessem - felizmente - superadas. Então, ela teria que redimensionar seu discurso, sem sofrer contudo solução de continuidade, na medida em que não identifica libertação com mera resolução dos problemas sociais crônicos. Para ela, o processo libertador implica, sem dualidade, o "pão nosso" e o "Pai nosso". Fosse a Teologia da Libertação uma mera exaltação do socialismo real, possivelmente sim ela estaria em crise, como ocorre à teologia neoliberal européia que, tendo perdido sua referência ao mundo dos pobres, volta a encarar a modernidade pela ótica de Nietzsche, e já não sabe a quem dirigir seu discurso. E tudo indica que, em breve, entrará em crise a teologia que - inspirada em João Paulo II - fez da crítica ao socialismo uma apologia da liberdade nos países capitalistas. Agora, a onda de consumismo, trazendo em seu bojo a reintrodução de disparidades sociais e de permissividade, já começa a assustar aqueles que sempre acreditaram que o Ocidente é cristão…

Se é verdade que o socialismo ruiu no Leste europeu, é preciso não esquecer também que o capitalismo sofre de insuficiência crônica por sua incapacidade de responder às demandas sociais. Ele é, por natureza, desigual, concentrador e excludente. Porém, o papa, que sempre criticou os abusos do capitalismo, não chegou a denunciar as suas causas e natureza perversa.

Carta a CNBB

Vitória da Conquista-Bahia, 26 de abril de 2007.


Á
Confederação Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB
Att. Todos os Bispos e Comunidades católicas do Brasil
NESTA


Caríssimos Irmãos em Cristo,


A Rede Globo já alguns dias vem apresentando, no Jornal Nacional, um quadro com o título: VOU VER O PAPA, onde algumas pessoas apresentam “suas peripécias” para chegarem em São Paulo, tanto individuais como em caravanas, e assim, de algum modo, poderem ver o Papa, sendo algumas muito mirabolantes para “este sacrifício”. De outro lado vemos a grande manifestação das redes de hotelarias e de turismos vibrarem pelo grande fluxo de movimentação em seus negócios com a vinda do Papa ao Brasil, como, também, o “grande empenho” da Igreja e das autoridades civis para acolher bem o Papa.
Só que eu, católico apostólico romano atuante em movimentos e pastorais da Igreja, gostaria de afirmar para os senhores bispos, como autoridades máximas da Igreja, da qual eu comungo na fé, que não vejo motivo em tanta empolgação para ver o Papa, e, assim, portanto afirmo NÃO IREI VER O PAPA. Poderia muito bem conseguir licença do trabalho, não me sufocar tanto financeiramente por causa da viagem, enfim, poderia possibilitar-me totalmente para chegar a São Paulo na data em que Bento XVI estará no Brasil, só que não “farei este sacrifício” unicamente por causa da própria condução que a Igreja esta dando com a chegada de Bento XVI.
Desculpem a minha franqueza, mais quem esta chegando ao Brasil é simplesmente um Chefe de Estado e não a representação real do Cristo no meio do seu povo. Para tanto, basta vermos o grande aparato que os poderes constituídos (os quais terão mais acesso à autoridade, do que o Povo de Deus) estão se virando para acolher Bento XVI, não só pelo anseio do marketing político (lembrando que em 2008 haverá eleições municipais e como lá estará grande multidão, aqueles que correrão atrás dos eleitores, não deixarão “passar” esta oportunidade, a qual servirá como trampolim eleitoreiro), como, também, no sentido de deixar tudo limpo, belo e encantador para que Bento XVI veja com bons olhos a “vibração e a acolhida do povo brasileiro”, começando, principalmente, por “limpar” das ruas de São Paulo (marcadamente na Praça da Sé, local onde fica o Mosteiro de São Bento, onde Bento XVI ficará mais tempo hospedado) os sem tetos, mendigos e maltrapilhos, ou seja, tudo o que venha a lembrar a miserabilidade do povo brasileiro, bem como as Igrejas, por onde o Papa passará, terão que fazer reluzirem mais fortes ainda os seus “andores de riquezas”, como, também, fazendo com que os organizadores da visita, venham somente a darem permissão para chegarem junto ao Papa somente os que estiverem “vestidos a caráter”, ou que estejam na linha dos preparativos, conforme devidamente orientados... Outro fato a ser destacado, e que motiva mais ainda o meu desejo de não querer ir ver o Papa, é o fato, já devidamente registrado pela mídia (não somente a laica, mas também a religiosa), de, em tese, todo o conteúdo “das falas” de Bento XVI aqui no Brasil, onde será focado muito mais um “lado espiritual” da Igreja hoje no mundo, do que “o lado espiritual” de como ser Igreja hoje no mundo, embasada no cerne do Ser de Jesus. E assim de antemão, pergunto: onde estará, nesta visita (como na realização da V CELAM), o espírito, que deveria nortear a Igreja, de trazer o Cristo Ressuscitado para o meio do seu povo? por que a Igreja, marcadamente a sua oficialidade, deixará passar em branco este evento, para ficar calada (deixando de lado o seu profetismo) em relação aos sofrimentos e as mazelas que os povos da América e do Caribe estão a viverem hoje em dia? por que a Igreja “não se junta”, ao lado do seu Chefe para mostrar e denunciar, para o mundo, como anda a realidade dos pastores que servem, na ação concreta do ser de Cristo, junto ao povo, principalmente quando atentamos para “o calvário de Dom Erwim”, bispo do Xingu (realidade esta que a própria Igreja do Brasil “fecha os olhos”); as realidades dos missionários que trabalham juntos aos sem tetos, índios, sem terras, presos e excluídos, enfim com os parias da sociedade, como, também, o achincalhamento às pessoas de Dom Pedro Casaldaliga e Dom Paulo Evaristo Arns (e por extensão às memórias de Dom Luciano Mendes, Dom Ivo Lorscheider...), manifestada por um baluarte(?) de uma grande força da Igreja, notadamente no campo perigoso da mídia? será que deveremos esperar que surjam novos mártires (assim como Irmã Doroty a mais recente) para que a Igreja volte a ser a voz de Deus para o povo? será que o Papa, concretamente, virá somente para institucionalizar mais ainda a Igreja, fazendo com que Ela fique mais ainda distanciada do enraizar o Cristo no meio do povo? será que, mesmo após a partida do Papa, o trovejar da Igreja será somente os momentos de adoração e a vontade de atingir os 100% (muito mais no intuito de “se vender” uma espiritualidade), para continuar a encher os templos, deixando o Cristo a continuar desfigurado no seio do povo sofrido? será que não poderemos ver, de fato, o Cristo Ressuscitado, vir a se manifestar no seio da própria Igreja, fazendo, suas autoridades, voltarem a descerem dos púlpitos e virem para o meio do povo, assim como o Cristo viveu? será que a santificação do Frei Galvão, poderá fazer com que a Igreja, também, venha a ser santa, principalmente no saber servir ao povo? será que as nossas autoridades eclesiais poderão voltar a conviver, sem o lado romano, como Igreja junto ao povo? será, será, será...???????????
Não irei ver o Papa! Mas, daqui, desde já, mesmo sendo um misero servo desta Igreja, o qual muitas vezes não é ouvido (também qual a autoridade tenho para tanto?), nem entendido, mas, usando um direito democrático e universal(?), de poder se expressar, faço, por meio das autoridades espirituais de nossa Igreja, os bispos, tentar chegar estas minhas reflexões tanto aos mesmos, como, por imaginação e vontade, as “outras excelências” e principalmente ao Papa Bento XVI (quanta presunção!) , somente como pressupostos (vivenciados) para reflexões e bom andamento para esta nossa missão de sermos discípulos e discípulas do Senhor.
Não irei ver o Papa! Mas rezarei para que a sua missão “entre nós” venha a ser muito mais de um Pai Espiritual, do que de um estadista.
Não irei ver o Papa! Mas continuarei sempre em comunhão, mesmo que as vezes destoante, com sua Igreja, a qual foi balizada no Cristo Ressuscitado e assim é a minha crença! Amém!
Saudações fraternas do irmão em Cristo,

HELIO DA SILVA GUSMÃO FILHO
Paróquia das Candeias
Arquidiocese de Vitória da Conquista

Alerta às vésperas da V Conferência de Aparecida

Talvez esteja enganado, mas penso que muita gente já entendeu a verdadeira intenção do professor Felipe Aquino: ser fator de desencadeamento de retomada de consciência.
Com sua carta a Dom Pedro Casaldáliga ele tinha o escopo bem claro: a V Conferência de Aparecida está às portas e eu preciso fazer minha parte. Parabéns professor. Conseguiu.
Confesso que não o conhecia, na verdade, continuo a não conhecê-lo. Mas recebi uma bateria de artigos, e é bom registrar, um melhor que outro, em resposta à sua carta enviada ao Bispo, Emérito e Benemérito, de São Félix do Araguaia. Evidente que a maioria dos artigos traz alguns estrepes mais ou menos pontiagudos. A primeira vista tem-se a impressão de uma celeuma. Porém, todos os artigos, curtos ou longos, são excelentes. Acabava de degustar um artigo e outra já ia entrando na telinha. Alguém deveria fazer uma compilação, vai resultar num volume de muita boa qualidade.
Esta carta do professor Aquino dirigida ao nosso amado pastor, poeta e profeta, Dom Pedro Casaldáliga foi o vetor do alerta.
Confesso que também tive vontade de escrever ao professor. Não o fiz e considero esta atitude uma graça.
Dentre os mortais, pude perceber que o professor não prestou um desserviço à Igreja como escreveu um dos articulistas. Ao contrário, está prestando um serviço de primeira grandeza à Igreja. Sua simples cartinha continua despertando tantas pessoas queridas, cheias de dons, a sair de suas tocas.
Por todos os lados “pipocam” manifestações escritas e faladas de uma beleza ímpar. Confesso que ao ler, reler e treler, como escreveu um teólogo, tive verdadeiros êxtases. Quanta produção de qualidade incomparável continua sendo realizada às vésperas da V Conferência de Aparecida. Os nossos eleitos para a Conferência dispõem de farto e rico conteúdo, antigo e novo, para bem abrir e encerrar o documento final do encontro.
O professor Aquino, sabendo que alguns dos nossos baluartes, de saudosa e santa memória, não estariam mais presentes à Conferência, por serem eméritos ou mesmo por já terem partido para a pátria definitiva, outra coisa não fez senão atiçar nossos teólogos, bispos, padres, leigos(as), consagrados(as) para em nome dos que foram “tirados do campo”, como ele disse, trouxessem à tona a memória deles e, consequentemente, seus testemunhos eloqüentes de amor à Igreja e, de maneira especial, aos pobres, preferidos de Deus. Pena que o professor e quase todos os que escreveram não mencionaram o nome de um importante baluarte da Igreja: o nosso saudoso e santo bispo conhecido como o “DOM”, sim, o Dom Helder, que o Papa João XXIII chamava de “cardenaleto mio” e João Paulo II o chamava de Pai dos Pobres, apesar de ter agido sempre como pai de todos. Sempre tratou todas as pessoas com respeito fraterno e em especial os pobres.
Professor Aquino, quero parabenizá-lo pelo êxito alcançado. Seu alerta está sendo ouvido e respondido à altura.
Não posso pensar de outro modo. Creio que nem Pe. Jonas iria permitir que o senhor pudesse fazer parte do quadro da Canção Nova se não percebesse que o senhor tem respeito pelos grandes e santos pastores desta Igreja. Valeu o alerta.
Parabenizo-o por vários motivos:
-Porque o senhor realmente teve esta inspiração, ou seja, de acordar muita gente para resgatar a memória de nossos santos pastores e profetas. Destarte, “estarão conosco” na 45ª Assembléia Geral da CNBB e dali “partirão”, também, para a V Conferência de Aparecida, para continuarem, em nome do Deus da Vida, a inspirar nossos delegados a não deixarem cair a profecia, como nos pediu Dom Helder; para não nos separarmos da maior riqueza da Igreja, os pobres, como pediu Dom Luciano; para a Igreja continuar sendo missionária, profética, coerente com o Evangelho, a exemplo de Dom Casaldáliga e todos os pastores citados na sua carta e daqueles que não foram citados também.
-Porque com a sua cutucada, creio que a V Conferência será verdadeiramente um novo Pentecostes, com a presença espiritual e inspiradora dos santos pastores grafados pelo senhor e de todos os que já gozam da visão beatífica e os corações e mentes abertos dos nossos delegados que serão fiéis a Jesus Cristo e ao tema que o Papa Bento XVI nos deu: “Discípulos e missionários de Jesus Cristo para que nele nossos povos tenham vida”. Como o Papa está por dentro da nossa realidade, ele sabe que a maioria dos nossos povos da América Latina e do Caribe são excluídos da vida. Portanto, está de acordo com o próprio Jesus que disse: “Vim para que todos tenham vida”. Todos, disse Jesus, e não somente algumas pessoas privilegiadas; e o Papa diz todos os povos e não somente alguns. Realmente, o tema é muito envolvente porque trata da vida e não apenas de dogmas. Claro que os dogmas são importantes, mas devem estar sempre abertos ao sopro contínuo e amoroso, próprio do Espírito Santo, Eterna novidade...
-Porque, pelo seu alerta, pude perceber e sentir que a Igreja no Brasil tem gente capaz, corajosa, sábia, generosa e santa, apesar de pecadora, assim como o senhor que atirou pedra somente para confirmar que estas árvores foram e continuam sendo frutíferas, e acertadamente um dos Bispos disse no seu artigo: “Professor Aquino, as pedras que o senhor atirou para o alto serão transformadas em estrelas brilhantes”. É poético, é verdadeiro! Realmente, professor, o senhor fez justiça à memória de nossos pastores que estava caindo no esquecimento da nossa Igreja.
Verdadeiramente a leitura de toda a produção dos nossos hábeis e perspicazes articulistas, provocada pelo senhor, me fez exultar. Estou degustando, através dela, o Reino Definitivo por antecipação.
E, por último, porque sei que muito mais se escreverá sobre nossos santos bispos, alguns deles entre nós e outros que já partiram, mencionados e não mencionados pelo senhor, para que a memória e a prática deles se perpetuem entre nós.
Desde já estou feliz em poder ler e buscar viver o caminho percorrido pelos nossos santos pastores no seguimento do Pastor Eterno Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida.
Normalmente não escrevo porque não sou escritor. Não sou teólogo. Sou apenas um bispo matuto que busca reconhecer a presença de Deus na vida e na realidade do nosso povo e daqueles que estão a serviço do povo, especialmente do que não têm vez e voz.
De todos os mencionados, o que mais conheci foi Dom Luciano. Luz de Deus. Ah, que falta sinto dele, meu irmão professor. Você fez tanto bem para a minha alma saudosa e creio para muita gente, fazendo tantas pessoas escreverem sobre ele. Até para dar uma ajuda, para qualquer pessoa, ele pedia licença antes, com toda a humildade que lhe era peculiar.
Não escrevo, mas rezo um pouco. E, todos os dias, peço a intercessão dos que o senhor mencionou e de outros não mencionados, que já estão na casa do Pai e mais do que Pai é Mãe, como disse João Paulo I.
João Paulo II, Dom Helder, Dom Luciano, Dom Ivo, Dom Hipólito, Dom Romero, Ir.Dorothy,Pe. Burnier, Margarida Alves, Chico Mendes...intercedei pela V Conferência de Aparecida , por todo Povo de Deus e especialmente pelos mais sofridos. Amém.

Dom Luiz C. Eccel
Bispo Diocesano de Caçador

Transposição do Rio São Francisco: um crime ambiental e social

Frei Gilvander Moreira[1]

De tortura em tortura, abrem em seu corpo as chagas, com obras e ambição e crucificam o Velho Chico na cruz da Transposição.” Nancy Cardoso
Sobre o projeto de transposição das águas do rio São Francisco há um projeto de fantasia, mentiroso, e outro projeto real. O projeto de fantasia da transposição diz que 12 milhões de pessoas serão beneficiadas, 300 mil hectares serão irrigados, 1 milhão de empregos serão criados, tudo isso a “solução definitiva para o problema da seca”. Divulgado em cartilhas, rádio e TVs, o projeto criou uma expectativa que praticamente impede o debate sobre os problemas reais do Semi-árido e suas reais soluções.
O Projeto real de transposição, se não for sepultado, atingirá apenas 5% do território semi-árido brasileiro e 0,3 % da população. Apenas 4% da água será destinada à chamada população difusa, 26% serão para uso urbano e industrial e 70% serão para irrigação (carcinicultura – criação de camarão -, floricultura e hortifrutigranjeiros) de produtos para exportação. Serão beneficiadas cidades fora do Semi-árido como Recife e Fortaleza, além de Caruaru (agreste de Pernambuco).
Impactos relevantes: modificação da composição das comunidades biológicas aquáticas nativas nas bacias receptoras; risco de redução da biodiversidade nas bacias receptoras; risco de tensões durante a fase de obra; interferências nas comunidades indígenas; interferências no patrimônio cultural (sítios históricos); risco de introdução de espécies de peixes daninhos; custo da água na bacia receptora: R$ 0,11/m3, no eixo leste, e R$ 0,14/m3 no eixo norte. O custo do transporte da água será dividido com o consumidor urbano (na conta de água). A CHESF estima que a operação e manutenção do sistema custará de 80 a 100 milhões de reais por ano. Serão construídas 7 usinas hidroelétricas com capacidade para produzir 175 MW de forma a manter o sistema funcionando.
Dados oficiais dos próprios Planos de Recursos Hídricos dos Estados beneficiados revelam um quadro atual bastante favorável em termos de disponibilidade de água. O Ceará, por exemplo, tem potencial para atender com segurança até quatro vezes as demandas atuais por água para todos os usos. Não existe déficit hídrico nos Estados beneficiados. Custo da transposição: R$ 4,5 bilhões apenas nos primeiros anos.
O que o Nordeste precisa não é de importação de água, mas de uma reforma hídrica eficiente. Os impactos ambientais e sócio-econômicos da captação da água no rio São Francisco, na própria bacia, estão sendo minorados, conforme previsão no projeto, sem a devida precaução.
Toda a água da bacia já se encontra comprometida. Da vazão disponível, 80% encontravam-se reservados para a produção de energia para todo o Nordeste e, dos 360 m³/s alocáveis para os outros usos, 335 m³/s encontravam-se comprometidos. Paira a questão da inviabilidade das vazões maiores a serem retiradas para o Projeto completo (até 127 m³/s, 65 m³/s em média) a depender da disponibilidade sobrante do reservatório do Sobradinho, o que tem acontecido raramente, entre sete e dez anos. 98% da energia consumida no Nordeste vêm das águas sanfranciscanas.
As águas desviadas vão passar distante da grande maioria da população rural do sertão atingida pela seca, e, em contrapartida, vão irrigar, em condições economicamente desfavoráveis, regiões onde já se encontram os maiores reservatórios. Com a transposição, ao contrário, vai se pagar muito caro pelo uso da água transposta. O custo da água será, no mínimo, cinco vezes maior do que os valores atualmente praticados na Região. Um verdadeiro “presente de grego” para a população dos Estados receptores. Está previsto o subsídio cruzado: 85% da receita do projeto será gerada pelos consumidores de água situados no meio urbano das grandes cidades do Nordeste Setentrional, que na atualidade não precisam desta água e já subsidiam o abastecimento hídrico humano do interior dos municípios. A construção de adutoras, a partir das grandes barragens da região, tem se mostrado como a solução mais viável para o abastecimento das cidades e comunidades rurais nos períodos secos. O abastecimento rural nos anos de chuvas normais deve, preferencialmente, sustentar-se nas soluções locais de baixo custo - açudes, poços, cisternas. Construção de barragens subterrâneas para culturas de vazantes; Modernização das tecnologias de irrigação.
Há milhões de pessoas que vivem na bacia do São Francisco e que dizem, a partir da sabedoria popular, que o rio está morrendo. Por exemplo, dia 01/08/2004, na IX Romaria da Terra e das Águas de Minas Gerais, em Pirapora e Buritizeiro, ouvimos os relatos de pescadores que pescam há 15, 20, 30 ou 35 anos no rio São Francisco. Todos dizem: o rio São Francisco está morrendo. Nos últimos 40 anos, já perdeu cerca de 40% do seu volume de água. Está cada vez mais raso, estreito e assoreado. Uma infinidade de ilhas existentes hoje não existia no passado. O assoreamento é o resultado dos 18 milhões de toneladas de areia e terra que o rio está recebendo todos os anos. O rio está sendo sepultado vivo. As matas ciliares acabaram. Os vazanteiros tiveram que migrar para as favelas, pois as cheias quase não existem mais e, por isso, a pesca e a agricultura nas várzeas estão ficando inviáveis.
O Tribunal de Contas da União diz que o projeto não beneficiará o número de pessoas que se alardeia. A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) observou que pelo menos 30% da água se perderia por evaporação. A Cáritas mostrou que a solução para comunidades isoladas está na implantação de 1 milhão cisternas de placa para captação da água da chuva (das quais já há 160 mil), não na transposição, que não chegaria a esses lugares.
Vários especialistas (professor Aldo Rebouças, da USP, professor João Abner Guimarães, da UFRN, professor João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco, Roberto Malvezzi, da CPT, entre muitos) demonstraram a desnecessidade da transposição: o problema no semi-árido é de gestão, não de escassez.
A Agência Nacional de Águas (ANA), entidade estatal criada para a gestão estratégica do uso da água no Brasil, propõe 530 obras para solucionar os problemas de abastecimento hídrico até 2015 em todos os núcleos urbanos acima de 5.000 (cinco mil) habitantes do semi-árido brasileiro. Essas obras beneficiariam as populações mais necessitadas e custariam 3,6 bilhões de reais, portanto, mais baratas, mais abrangentes, mais eficientes que qualquer obra de transposição hídrica.
Por tudo isso, concluímos, seguindo as opiniões mais abalizadas no tocante ao tema exposto, que o projeto falacioso de transposição do Rio São Francisco é um crime não apenas ambiental, mas sobretudo social, já que aventureiro, despropositado e contrário ao interesse público.
Frei Gilvander Luís Moreira, e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br

[1] Mestre em Exegese Bíblica, professor de Teologia Bíblica, assessor de CEBs, CEBI, CPT, MST e SAB. E-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br