“Sabemos que toda a criação geme e está com dores de parto até agora.” (Romanos 8, 22)
Estamos em meio a uma profunda crise civilizatória. O modelo civilizatório ocidental capitalista, alicerçado na exploração de seres humanos por outros seres humanos e na intensa exploração da natureza por uma restrita elite mundial que se sustenta e se reproduz em sistemáticas guerras de ocupação e intervenção, na idolatria do consumo, é o responsável pelo aquecimento global e pela miséria no mundo.
O Brasil, hoje como sempre, continua assumindo um papel periférico de colônia entregando suas riquezas e vidas aos interesses do capital. O governo de FHC privatizou as empresas estatais de serviços e infra-estrutura. O governo Lula – escondendo-se atrás de concessões e parcerias - está entregando a natureza e o território brasileiro.
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tem como objetivo principal potencializar a infra-estrutura a serviço do agro-hidro-negócio, do agrocombustível, da exportação das reservas minerais, florestais, hídricas e territoriais, sem levar em conta os protagonismos, as demandas e as lutas que nascem do campo e da cidade e que exigem a participação popular, a socialização do poder e a distribuição da riqueza.
A prova disso é que o governo considera como entraves os interesses e resistências de populações tradicionais e as ações dos movimentos sociais e do ministério público em defesa do ambiente e da vida. Do mesmo modo pouco faz para assegurar os direitos territoriais de quilombolas, indígenas e posseiros, não implementa e não amplia as metas de reforma agrária, não combate a grilagem, não atualiza os índices de produtividade da terra, não se esforça para que seja aprovada a emenda constitucional que permite o confisco das terras onde se dá trabalho escravo.
De modo especial, nesta XIX Assembléia, nos organizamos para o estudo detalhado da Lei de Concessão de Florestas Públicas, mais um instrumento que se integra ao PAC. Concluímos que esta Lei é inútil, cínica e iníqua. Inútil porque o Brasil já possui um conjunto de leis - que nunca foram levadas a sério – que combatem a grilagem e o desmatamento, regulamentam o manejo florestal e garantem os direitos territoriais das populações tradicionais. Cínica porque manipula os discursos e as práticas da defesa do meio-ambiente e dos interesses nacionais, enquanto se multiplicam as ameaças à legislação ambiental, e o governo não oferece condições ao Incra e ao Ibama e demais órgãos de fiscalização e loteia cargos públicos a ONGs interessadas na certificação florestal a serviço do mercado. Iníqua porque a única e verdadeira novidade desta lei, a concessão, é uma autêntica privatização do uso das florestas públicas atendendo interesses de grupos nacionais e internacionais motivados pelo lucro e pelo esgotamento da madeira em muitos países e nas propriedades particulares. Iníqua, também, por desobrigar o mercado madeireiro a obedecer a legislação ambiental e fundiária existente no país, contradizendo o dispositivo constitucional que considera as florestas patrimônio público inalienável. Isto, que diz respeito à Amazônia, à Mata Atlântica, à Serra do Mar, à Zona Costeira e ao Pantanal, também, deve ser aplicado ao Cerrado, à Caatinga e aos demais biomas.
Diz a Constituição no artigo 225:
“Todos têm direito ao meio-ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”
“Porque em esperança fomos salvos. Mas, se esperamos o que não vemos, com firmeza o esperamos”. (Romanos 8, 24 e 25)
Os movimentos sociais, mesmo num momento de conflito e de contradição, continuam mantendo sua esperança militante num projeto de Brasil que garanta a soberania e segurança territorial, ambiental, energética e alimentar de modo que o trabalho, a economia e as políticas públicas priorizem a vida do povo brasileiro, em especial dos mais pobres, de modo estrutural e não compensatório.
Esta esperança se concretiza neste tempo em inúmeras ações e articulações de mulheres camponesas, juventude rural, sem-terras, pequenos agricultores, atingidos por barragens, quilombolas e indígenas, extrativistas e ribeirinhos que não se entregam à lógica do agro-hidro mercado avançando com experiências e propostas de agroecologia, produção e consumo socializados e defesa da natureza e dos modos de vida camponês. Estas experiências e propostas não são expressões isoladas, mas se movimentam na direção de alianças com os movimentos sociais da cidade e das forças vivas da sociedade. Nesta esperança compartilhamos, aprendemos e fortalecemos as experiências latino-americanas de poder popular como expressão de um caminho cultivado por nossos povos em solidariedade.
“Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nada nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Romanos 8, 38 e 39)
Fiel ao Deus dos pobres, aos pobres de Deus e à Terra de Deus para todos e todas, a CPT se afirma como espaço eclesial e se une, nas palavras de dom Pedro Casaldáliga, com brio e esperança à opção da Teologia da Libertação. Sabemos, pelo nosso povo, que a luta pela Terra e pela Água é um serviço urgente ao Reino de Deus e uma resposta agradecida e corajosa ao testemunho de homens e mulheres, mártires da Nossa América.
“O meu povo viverá muitos anos como as árvores e se deliciará com o fruto do trabalho de suas mãos.” (Isaías 65, 22)
Goiânia, 27 de abril de 2007
Estamos em meio a uma profunda crise civilizatória. O modelo civilizatório ocidental capitalista, alicerçado na exploração de seres humanos por outros seres humanos e na intensa exploração da natureza por uma restrita elite mundial que se sustenta e se reproduz em sistemáticas guerras de ocupação e intervenção, na idolatria do consumo, é o responsável pelo aquecimento global e pela miséria no mundo.
O Brasil, hoje como sempre, continua assumindo um papel periférico de colônia entregando suas riquezas e vidas aos interesses do capital. O governo de FHC privatizou as empresas estatais de serviços e infra-estrutura. O governo Lula – escondendo-se atrás de concessões e parcerias - está entregando a natureza e o território brasileiro.
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tem como objetivo principal potencializar a infra-estrutura a serviço do agro-hidro-negócio, do agrocombustível, da exportação das reservas minerais, florestais, hídricas e territoriais, sem levar em conta os protagonismos, as demandas e as lutas que nascem do campo e da cidade e que exigem a participação popular, a socialização do poder e a distribuição da riqueza.
A prova disso é que o governo considera como entraves os interesses e resistências de populações tradicionais e as ações dos movimentos sociais e do ministério público em defesa do ambiente e da vida. Do mesmo modo pouco faz para assegurar os direitos territoriais de quilombolas, indígenas e posseiros, não implementa e não amplia as metas de reforma agrária, não combate a grilagem, não atualiza os índices de produtividade da terra, não se esforça para que seja aprovada a emenda constitucional que permite o confisco das terras onde se dá trabalho escravo.
De modo especial, nesta XIX Assembléia, nos organizamos para o estudo detalhado da Lei de Concessão de Florestas Públicas, mais um instrumento que se integra ao PAC. Concluímos que esta Lei é inútil, cínica e iníqua. Inútil porque o Brasil já possui um conjunto de leis - que nunca foram levadas a sério – que combatem a grilagem e o desmatamento, regulamentam o manejo florestal e garantem os direitos territoriais das populações tradicionais. Cínica porque manipula os discursos e as práticas da defesa do meio-ambiente e dos interesses nacionais, enquanto se multiplicam as ameaças à legislação ambiental, e o governo não oferece condições ao Incra e ao Ibama e demais órgãos de fiscalização e loteia cargos públicos a ONGs interessadas na certificação florestal a serviço do mercado. Iníqua porque a única e verdadeira novidade desta lei, a concessão, é uma autêntica privatização do uso das florestas públicas atendendo interesses de grupos nacionais e internacionais motivados pelo lucro e pelo esgotamento da madeira em muitos países e nas propriedades particulares. Iníqua, também, por desobrigar o mercado madeireiro a obedecer a legislação ambiental e fundiária existente no país, contradizendo o dispositivo constitucional que considera as florestas patrimônio público inalienável. Isto, que diz respeito à Amazônia, à Mata Atlântica, à Serra do Mar, à Zona Costeira e ao Pantanal, também, deve ser aplicado ao Cerrado, à Caatinga e aos demais biomas.
Diz a Constituição no artigo 225:
“Todos têm direito ao meio-ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”
“Porque em esperança fomos salvos. Mas, se esperamos o que não vemos, com firmeza o esperamos”. (Romanos 8, 24 e 25)
Os movimentos sociais, mesmo num momento de conflito e de contradição, continuam mantendo sua esperança militante num projeto de Brasil que garanta a soberania e segurança territorial, ambiental, energética e alimentar de modo que o trabalho, a economia e as políticas públicas priorizem a vida do povo brasileiro, em especial dos mais pobres, de modo estrutural e não compensatório.
Esta esperança se concretiza neste tempo em inúmeras ações e articulações de mulheres camponesas, juventude rural, sem-terras, pequenos agricultores, atingidos por barragens, quilombolas e indígenas, extrativistas e ribeirinhos que não se entregam à lógica do agro-hidro mercado avançando com experiências e propostas de agroecologia, produção e consumo socializados e defesa da natureza e dos modos de vida camponês. Estas experiências e propostas não são expressões isoladas, mas se movimentam na direção de alianças com os movimentos sociais da cidade e das forças vivas da sociedade. Nesta esperança compartilhamos, aprendemos e fortalecemos as experiências latino-americanas de poder popular como expressão de um caminho cultivado por nossos povos em solidariedade.
“Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nada nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Romanos 8, 38 e 39)
Fiel ao Deus dos pobres, aos pobres de Deus e à Terra de Deus para todos e todas, a CPT se afirma como espaço eclesial e se une, nas palavras de dom Pedro Casaldáliga, com brio e esperança à opção da Teologia da Libertação. Sabemos, pelo nosso povo, que a luta pela Terra e pela Água é um serviço urgente ao Reino de Deus e uma resposta agradecida e corajosa ao testemunho de homens e mulheres, mártires da Nossa América.
“O meu povo viverá muitos anos como as árvores e se deliciará com o fruto do trabalho de suas mãos.” (Isaías 65, 22)
Goiânia, 27 de abril de 2007
Um comentário:
Casaldaliga, À direita, à esquerda e ao centro da CNBB e do clero católico brasileiro
por Percival Puggina em 28 de abril de 2007
Resumo: Sim, senhores, o professor Felipe Aquino pegou pesado. Expressou ira. Mas tem razão naquilo a que se opõe.
© 2007 MidiaSemMascara.org
Desde há muitos anos a América Latina se converteu em palco de conflitos ideológicos que noutras partes do planeta perderam todo significado prático. O senso comum reconheceu, nos fatos da história, que as liberdades públicas, as liberdades políticas, as liberdades econômicas e os bons sistemas de governo, andam juntos e concorrem para a realização da dignidade da pessoa humana e para a justiça em todas as suas dimensões. Não há perfeições, é claro, nas realizações humanas, mas é incomparável o resultado obtido nas sociedades que fizeram opções corretas em relação àquelas que adotaram receitas alinhadas com as utopias esquerdistas.
Quando se relacionam as nações segundo seus indicadores de liberdade econômica, qualidade da gestão pública, estabilidade institucional, PIB per capita, liberdade de imprensa e Índices de Desenvolvimento Humano, salta aos olhos que o topo da lista é ocupado pelos mesmos países, ou seja, por aqueles que fizeram escolhas certas. Se bons indicadores de desenvolvimento humano estão entre os objetivos que os cristãos devem perseguir porque colocam a pessoa no lugar exigido por sua dignidade, não cabem dúvidas sobre as escolhas a fazer. Há sociedades que resolveram o problema da pobreza e outras que se empenham em aprofundá-la mediante mecanismos cujo fracasso já está para lá de comprovado.
Não se diga que são colonialistas ou imperialistas as nações que se desenvolveram. Não se afirme, com a fraudulenta análise marxista, que elas enriqueceram às custas da pobreza das demais. Isso não se aplica aos países do Leste Asiático, nem à Irlanda, nem à Suíça, nem ao Canadá, nem à Austrália, nem à Nova Zelândia, nem aos países nórdicos. Tampouco é válido para os próprios países Ibéricos que há quatro décadas em nada diferiam de suas antigas colônias americanas. Menos ainda para Itália e Alemanha, arrasadas, famélicas e empobrecidas até a metade do século passado. Será preciso, recordar o ensinamento que nos forneceram as duas Alemanhas?
Opor-se, por cegueira ideológica, ou extraordinária teimosia, às soluções que resolvem o problema da pobreza não é uma opção pelos pobres. É uma opção pela pobreza eterna. E amor aos pobres não é amor à pobreza nem ódio aos ricos.
O professor Felipe Aquino pegou pesado, para usar uma expressão popular. Mas pegou muito menos pesado do que pegam os adeptos da Teologia da Libertação quando se alinham com seus parceiros ideológicos dos movimentos sociais, não para defender as bases da fé cristã, mas para atacar pessoas concretas que nada têm a ver com suas motivações e interesses.
O professor Felipe Aquino usou palavras duras, é verdade. Mas é espantosa a sensibilidade que pude perceber em algumas manifestações que o recriminaram, principalmente quando não levam em qualquer consideração a sensibilidade daqueles que têm suas propriedades invadidas, seus bens destruídos, sua paciência exaurida, seus ouvidos agredidos por gritos de guerra ou por sermões que mantêm distância astronômica da mensagem evangélica.
É estranha essa sensibilidade. Veste couro de jacaré quando se trata de estabelecer alianças com defensores de ideologias totalitárias, assassinas e sanguinárias. Veste couro de jacaré quando se une a notórios adversários da Igreja e a utopias assassinas de seus irmãos de fé. Mas exige ser tratada com luvas de pelica por quem lhes aponta os desvios nos quais incorrem.
Esse desvio é mais do que evidente. Aliás, não é capaz de apresentar uma única prova de ser o caminho certo. Falo de prova provada. Falo de coisa fora do discurso. Falo de experiência concreta, aproveitável, que tenha gerado uma democracia, uma economia que se sustente, um estado com mínimo nível de bem estar. E vamos lá, mais um pequenino desafio: qual estadista já nos deram a conhecer?
Não se atribua a pobreza das nações pobres à riqueza das nações ricas. As nações pobres não são empobrecidas por ação exterior. A principal causa da pobreza não está nas ações externas, mas na cultura, nos valores assumidos e nas opções internas a que conduzem. Nem se diga que a abertura econômica gera concentração de riqueza porque nunca a riqueza esteve tão concentrada quanto nos grandes impérios da antiguidade clássica, ou nos absolutismos monárquicos, ou no mercantilismo, ou como ainda hoje se vê nos estados totalitários, nos quais o poder político e o econômico se concentram nas mesmas mãos.
Bem ao contrário do que muitos afirmam, é a economia de mercado que melhor gera e melhor distribui a riqueza produzida pelas sociedades que a adotam. Portanto, se resolver o problema dos pobres é a missão eclesial reconhecida como única ou como a mais importante pela Teologia da Libertação, reflitam seus inspiradores sobre os sistemas econômicos que funcionam. Em vez de invadir e destruir o que não lhes pertence, que peçam educação de qualidade, instituições políticas modernas e joguem na lata do lixo os paralisantes ensinamentos de viés marxista que ministram em suas escolas. Desse mato é que não sairá o coelho da prosperidade material. Do culto a Che Guevara, que ensinava “ódio como fator de luta, que impulsiona para além das limitações naturais do ser humano e o converte numa efetiva violência, seletiva e fria máquina de matar”, dessa escola, dessa dureza sem qualquer ternura, é que nada de evangélico haverá de brotar.
Sim, senhores, o professor Felipe Aquino pegou pesado. Expressou ira. Mas tem razão naquilo a que se opõe. A Teologia da Libertação, infiltrada nos seminários, nas CEBs, na CNBB, responde em grande parte pelo atraso nacional, pela perda de fiéis e pelo avanço das seitas evangélicas. Estas últimas, seja com qual motivação for, estão levando Jesus aos mesmos pobres para os quais a TL leva inveja, revolta, ideologia e política. E é compreensível que diante de tantos e tão graves erros, reiterados contra toda a evidência dos fatos, turbando a própria luz do Evangelho e contrariando a insistente orientação de Roma, alguém perca a paciência.
Que o Senhor Deus dos cristãos nos preserve em sua verdade.
Porto Alegre, 23 de abril de 2007.
Percival Puggina
Sábado, 05 Maio, 2007
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