5 de mai. de 2007

Seguir a Jesus: Opção e Profecia

Continua sendo um grande desafio tentar caminhar nas estradas de Jesus em nossos tempos. Constantemente, nas orações eucarísticas da Igreja Católica, o povo repete confiante nas missas: “Caminhamos na estrada de Jesus!”. Esta afirmação queima. Exige compromisso de fé. Exige rompimento com tudo aquilo que não faça parte do projeto de Jesus. De nada adianta fazer tal afirmação no rito da Eucaristia se, de fato, não sabemos qual é o caminho e a estrada de Jesus.

Seguir a Jesus hoje significa acreditar na opção de Jesus pela humanidade toda, em especial, os pobres. Portanto, as opções de Jesus devem ser as nossas opções também hoje, em nossa história, em nosso cotidiano. As atitudes e a práxis de Jesus devem ser a nossa hoje. Por isso, há o perigo de se pronunciar algo, simplesmente porque está no rito ou na celebração, uma espécie de mecanização de linguagem ou decoração sem fé do ritual eucarístico. Viver a espiritualidade cristã significa estar atento ao Cristo que se identifica com os sem voz e sem vez.

É comum ouvir pessoas dizerem que possuem uma grande fé em Jesus e pouco se escuta ou se vê na realidade pessoas terem a fé de Jesus. Como já dizia a música do Padre Zezinho: Viver como Jesus viveu historicamente situado, entre os leprosos, os paralíticos, os cegos, os coxos, órfãos e as viúvas, as prostitutas. Como é difícil ver cristãos e cristãs neste meio social em nossos tempos. As igrejas estão lotadas, as catedrais estão cheias de pessoas em busca da febre do momento: “Sentir-se em paz, com Deus”. Mas como viver em paz e com Deus sendo que há crianças chorando de fome e de frio nas ruas? Como se sentir em paz e na harmonia – como sentir-se zen – sendo que muitos e muitas não têm uma casa onde encostar a cabeça e vivem perambulando pelas ruas, debaixo dos viadutos e nas rodovias? Como se sentir em paz vendo poucos ganharem bilhões de dólares em segundos ou minutos e bilhões de seres humanos viverem com menos de 1 dólar por dia? Como viver em paz e com Deus vendo a situação de miséria e favelização dos assentamentos rurais e da falta de uma reforma agrária com desenvolvimento sustentável, formativa e que gere renda para os trabalhadores rurais? Como viver em paz dentro da segurança das igrejas e dos templos vendo a destruição da casa comum, o planeta Terra? Como viver em paz num mundo onde reina o ódio e o desamor? Como viver em paz vendo políticas do Império neoliberal sendo implantadas determinando o crescimento do Estado Mínimo? Como viver em paz vendo milhões de pais e mães de família no subemprego, na economia informal ou no real desemprego? Como viver em paz vendo nossas culturas sendo destruídas pela cultura única, pelo pensamento único, pela lógica do mercado que chegam aos mais remotos lugares deste planeta? Definitivamente, não dá para ter paz. É impossível para qualquer cristão pensar somente no seu umbigo e no seu ser individual. Caso isso ocorra, significa que não existe seguimento a Jesus, ao projeto. Não se pode confundir o seguimento a Jesus com o seguimento a religião. As religiões, entre elas, o cristianismo e suas várias denominações são mediações para caminhar no projeto de Deus para toda humanidade e não exclusivamente para meu ser individual.

Parece estarmos vivendo em tempos onde o nome de Jesus é literalmente comercializado. Cada um vendendo o seu peixe, o seu Jesus, e muitos clientes a procura da água para matar a sede. Parece estar havendo um esquecimento do Jesus histórico, aquele mesmo que deixou a mulher lavar seus pés com o cabelo, o mesmo que foi condenado pelos fariseus, o mesmo que andava entre os marginalizados de sua época. Deus, na história da humanidade, suscitou homens e mulheres que lembraram-nos o caminho do Reino. Parece que vivemos tempos de seca, de falta desses homens e mulheres. Sinto que os cristãos e cristãs de hoje vivam nas aparências religiosas com um Cristo sem Reino e sem projeto, sem cruz, sem as bem-aventuranças, sem a partilha do pão, sem o perdão, um Cristo sem opção e sem Evangelho, um Cristo sem profecia. Parece haver um esquecimento do Jesus que se identifica com o rosto dos excluídos como bem nos alerta Mateus 25.

O cristianismo e os cristãos e cristãs não podem deixar no esquecimento que a fé cristã consiste em viver a memória perigosa de Jesus e a profecia histórica que foi a sua própria vida. Memória perigosa do sacramento da eucaristia, subversivo por natureza, terno e fraterno que deveria interpelar homens e mulheres a construir um novo ethos para a humanidade, pois o ethos neoliberal, capitalista, de mercado total possui um projeto contrário ao projeto de Jesus. Bem lembrava Jesus: Não se pode servir a dois senhores. De fato, não se pode seguir o Evangelho e a Jesus sendo capitalista e fazendo parte do Império neoliberal. Por isso, pode-se chegar à conclusão de que o seguimento a Jesus se dá em comunhão e não individualmente. Assim, ninguém salva ninguém, ninguém se salva sozinho, nós nos salvamos em comunhão.

Jesus continua fazendo a encarnação na humanidade, em cada cultura, em cada povo, em cada momento histórico onde um irmão, um menor, um marginalizado esteja sobrevivendo. Como já disse nosso irmão bispo-profeta Dom Pedro Casaldaliga: “Há muito Cristo roto por aí, muito Jesus pela metade, muito meu Jesus reducionista”.

Jesus continua ousando perguntar aos apóstolos de hoje, aos discípulos de hoje a mesma pergunta feita aos doze companheiros da caminhada: E vocês, quem dizem que eu sou? (Mc 8, 27-33). As respostas serão muitas. Algumas com doutrinações e sistemas filosóficos e teológicos pré-determinados. Outras com declarações de fé repetidas mecanicamente pela decoração de palavras. Poucos dirão que Jesus é o pobre, o fraco, o órfão, a viúva, a menina prostituída, o trombadinha ladrão, o sem terra em marcha, o índio transculturado, o sem-teto, o morador de rua, o idoso discriminado, o jovem sem sonhos e sem causas etc. Este é o Jesus encarnado, vivo em nosso meio e que passamos pela rua e fingimos que não vemos. Porque fomos literalmente catequizados para compreender e acreditar na presença viva de Jesus somente na transubstanciação do pão, a eucaristia. E continua sendo negado saber que Jesus se faz presente no rosto daqueles e daquelas que se encontram nas senzalas da vida.

Segundo Dom Pedro Casaldaliga o “Deus de Jesus é o Deus do Reino, e a opção de Jesus é o Reino de Deus”. Este deve ser o nosso Deus e a nossa opção fundamental como cristãos. Este é o nosso paradigma. No Evangelho de João 6, 67 há um alerta para aqueles e aquelas que queiram desistir do caminho, ou seja, deixar de lado a opção de Jesus, “lightizar” a Boa-Nova de Jesus. O objetivo central da opção que se faz pela estrada de Jesus é o Reino de Deus. As Igrejas são mediações para se alcançar este objetivo, mas podem ser também descaminhos do Reino. A espiritualidade cristã nos ajuda no caminho e é possível vive-la de muitas formas e jeitos. Aproximar de Deus só pode ser possível se conseguirmos no caminho aproximarmo-nos do irmão sofredor que é a causa máxima de Jesus. Por isso, nestes tempos, corre-se o sério perigo de apequenar o projeto de Deus, de seqüestrar Deus como objeto individual dos nossos desejos mais mesquinhos, de proibir a ação de Deus por meio de homens e mulheres que lutam em defesa da vida.

Como praticar Deus em nossas vidas? Como corrigir Deus em nossas vidas? Como deixar Deus ser Deus em nossas vidas, em nossas comunidades cristãs? São questões sérias que nos apontam para um caminho da conversão pessoal e comunitária. No livro Espiritualidade da Libertação, nossos irmãos José Maria Vígil e Dom Pedro Casaldaliga questionam nossa fé nesse Deus:

A pergunta pelo Deus cristão é a pergunta mais radical que a própria Igreja pode se fazer. Trata-se de saber se o Deus que adoramos é realmente o Deus de Jesus ou um ídolo mascarado. E esta pergunta abrange também a análise da função que a fé cristã desempenha na sociedade e na história. Porque, podendo parecer um Deus cristão no âmbito reduzido da referência bíblica ou do mundo pessoal, pode estar, de fato, exercendo funções sociais, de legitimação de práticas e estruturas, inteiramente contrárias ao plano de Deus, ao Reino pregado por Jesus (p. 101).

Temos uma só certeza nisso tudo: Nosso Deus é o Deus da Vida. Podemos realizar todas as práticas religiosas obrigatórias ou não, clamar pelo nome de Jesus, chorar, emocionalizar-se, exercer ministérios na hierarquia de qualquer igreja cristã, manipular a imagem de Deus a nosso bel-prazer e realizar o anti-Reino como se fosse o Reino. De nada adianta se não acreditarmos nesse Deus da Vida, que ama e se doa por uma sociedade mais justa, fraterna e realmente humana. Corremos o sério risco de platonizar o Deus dos cristãos e com isso negar a essência do cristianismo: amar o Homem todo e todo Homem. Se o Deus de Jesus é o Deus do Reino, outros deuses são ídolos. Ídolos não são imagens somente, mas sistemas que massacram o ser humano, tornando-o em um não-humano, desumano ou desumanizado. A idolatria pode estar dentro das próprias igrejas ao adorarem mais o dinheiro, o capital, o sistema neoliberal, o projeto político de uns poucos da elite que teimam em retornar à hegemonia do poder, enfim, idolatria é tudo aquilo que se caracteriza como anti-Reino de Deus. Usam o nome de Deus para se promover econômica ou politicamente, para promover guerras, para fazer acordos políticos ou para se ganhar eleições.

É momento propício para que os ídolos sejam desmascarados. Para isso, é necessária a força profética, tão em falta na nossa história. A profecia exige militância, discernimento e fidelidade ao projeto de Jesus e seu Reino. O Reino de Deus anunciado por Jesus deve ser o nosso anúncio hoje. Já dizia Paulo VI na Evangelii Nuntiandi (n.08) “Só o Reino é absoluto. Todo o resto é relativo”. Então que o Reino de Deus possa vir realmente por meio do engajamento e do compromisso de cada um e de cada uma, homem e mulher, que queira ver a justiça, a concórdia, a ternura, a fraternidade e o amor acontecer.

Lembro-me da música que não se canta mais em nossas comunidades: Eu quero ver, eu quero ver acontecer... um sonho bom, sonho de muitos acontecer. Este sonho ainda existe, castrado pelas instituições, acorrentado pelos espiritualismos e fundamentalismos, mas vivo e que ousa de tempos em tempos se libertar fazendo renascer a esperança, a militância e a promoção do Reino de Deus em nossas comunidades cristãs tão mecanizadas hoje pelo espírito do senso comum, da alienação, do emocionalismo e por um moralismo anti-libertador. Isso requer de nós hoje um exame de consciência: Que tipo de seguimento a Jesus fazemos? Que opção temos e queremos? É a opção de Jesus realmente? Estamos sendo realmente profetas que anunciam a Boa-Nova e denunciam, à luz do Reino, os interesses, as traições ao Evangelho e ao Reino, as infidelidades, as idolatrias?

Claudemiro Godoy do Nascimento

Um comentário:

Anônimo disse...

Para quem ainda tem dúvidas sobre quem é D.Pedro Casaldáliga, vejam em:

http://www.brasilparatodos.org/