19 de abr. de 2007

As grandes incertezas na Igreja atual*

José Comblin
Teólogo, sacerdote, reside na Paraíba, Brasil

Síntese: A Igreja ainda não tomou conhecimento da grande revolução dos anos 70. Não entendeu a grande aspiração para a liberdade e os passos que foram dados. Essa revolução inclui uma crítica de todas as instituições por serem repressivas e obstáculos à liberdade. A crítica das instituições atinge também a Igreja e está na base das crises internas da Igreja desde os anos 70. Doravante a distinção entre Igreja e a instituição é inevitável. A instituição é tudo o que foi acrescentado à mensagem de Jesus. Ela varia e ainda pode e deve variar. A nova situação, provocada pela conquista do mundo pelo sistema capitalista mundial, obriga a mudar de atitude frente ao mundo. A Igreja parece estar muda e desorientada. O Papa poderá dar sinais proféticos claros neste mundo neoliberal? Continuará pensando que a função da Igreja é oferecer uma doutrina social?
Abstract: The Church still does not seem to have become aware of the great revolution that happened in the 70s. It has not understood the great aspiration for freedom and the steps that were taken then. This revolution includes a critique of all institutions as being repressive and obstacles to freedom. This critique also reaches the Church and is at the basis of its internal crisis since the 70s. From now on, the distinction between Church and institution is inevitable. The institution is everything that was added to Jesus’ message. It varies and still can and should vary. The new situation caused by the conquest of the world by the world capitalist system forces the Church to change its attitude towards the world. The Church seems to be silent and confused. Will the Pope be able to give clear prophetic signs in this neo-liberal world? Will he continue to think that the Church’s function is to offer a social doctrine?

1. O fato básico
O fato fundamental é que Igreja ainda não percebeu ou não reconheceu ou não quis aceitar a grande revolução da sociedade ocidental que se manifestou nos anos 70 do século passado e se estendeu rapidamente ao mundo inteiro. O que acontece atualmente na China e nos ”tigres asiáticos” é altamente significativo. Povos que tinham uma longa tradição de civilização adotam com entusiasmo e quase que com fúria a nova sociedade ocidental nascida da revolução dos anos 70.
A Igreja vive ainda na ilusão do mundo do tempo de Vaticano II, como se não tivesse havido uma revolução tão radical como a Revolução Francesa, logo depois do Concílio. Quem hoje em dia lê certos textos conciliares, por exemplo, da Gaudium et Spes, não pode não ficar impressionado pela ingenuidade da concepção do mundo que se fazia naquele tempo. O Vaticano II falou para um mundo que hoje já não existe mais. Entrou na história, mas não fornece orientações para o mundo de hoje.
A partir dos anos 70 começou o desmoronamento da cristandade. Nos tempos do Vaticano II alguns apressados tinham proclamado o fim da cristandade. Mas ainda não era o fim. Pelo contrário, o Concílio viveu num ambiente de neocristandade. Poucos anos depois, começou a grande revolução da sociedade ocidental que repercutiu também dentro da Igreja como um furacão. Muitos católicos separaram-se da instituição, inclusive muitos sacerdotes e muitos religiosos. Os conservadores intransigentes atribuíram esse fato ao Concílio, mas o Concílio não tinha nada a ver com isso. O que aconteceu foi a grande revolução total da sociedade ocidental: revolução na ciência, na economia, na política, na cultura; revolução total e profunda com conseqüências de uma revolução na ética e na religião.
Esta revolução abalou todas as instituições: a família, a empresa, a escola, a universidade, o Estado e, naturalmente, as instituições religiosas. Antigos poderes desapareceram e apareceram novos poderes. Agora sim, estamos chegando ao fim da cristandade. Mas ainda não é o fim da consciência de cristandade dentro da Igreja. Pelo contrário, toda a instituição continua funcionando como se nada tivesse mudado e como se a Igreja ainda tivesse o mesmo poder social de sempre. Há movimentos poderosos que acham que podem refazer de novo uma neocristandade como aconteceu depois da Revolução Francesa. Pura ilusão. Faltam os elementos sociais para recomeçar esta operação.
Porém, esta consciência de cristandade numa situação de esvaziamento dessa cristandade gera um sentimento bastante generalizado de mal-estar. Compare-se a psicologia dos católicos e mesmo do clero com a psicologia dos evangélicos! Entre os evangélicos prevalece um sentimento de euforia, de confiança, de vitória. Os evangélicos sentem-se vitoriosos e os católicos têm a consciência dos derrotados que procuram manter o passado sem muita convicção.
Ora, o fim da cristandade significa que a evangelização e a pastoral já não podem ser feitas a partir de uma posição de poder.
Desde Constantino, a pastoral se fez a partir da posição de poder dos bispos e do clero. Eles ensinam, administram os sacramentos, governam as comunidades. Cada pároco é papa na sua paróquia: ele é infalível, com plena jurisdição. Os leigos são objeto de obrigações: os leigos devem ir para a paróquia, devem obedecer e, sobretudo, sustentar financeiramente uma instituição na qual não têm poder nenhum. E o poder do clero apresenta-se como se fosse o poder de Deus. A paróquia é a imagem do poder. O pároco é enviado pelo bispo sem nenhuma consulta aos leigos. Ele manda, não porque é reconhecido pelo seu povo como a pessoa mais capacitada, mas simplesmente por imposição do bispo. De repente, chega e pode mandar em tudo. O único limite a seu poder é a resistência do povo, a indiferença da maioria e uma atitude de defesa, tão freqüente entre os católicos que faz com que somente uma pequena minoria participe da paróquia.
Quanto à evangelização do mundo, ela se fez quase sempre por imposição. A evangelização acompanhou a conquista pelos poderes da cristandade do Ocidente, por guerras de religião ou conquista de colonização. A América Latina é o exemplo mais completo dessa evangelização pela conquista e conversão forçada. Houve exceções. Houve missionários que protestaram contra a conquista. Mas eles não tiveram nenhuma influência. Os seus escritos não foram publicados antes do século XIX, quando os impérios de Espanha e Portugal já tinham desaparecido. Os povos conquistados receberam o cristianismo pela pressão do poder político e militar associado à missão.
Hoje em dia, a Igreja não tem mais poder ou somente fica com algumas ilusões de poder. Já não pode evangelizar a partir do poder. Isto deixa a Igreja desconcertada, com um sentimento de impotência. Eu mesmo ouvi um núncio dizendo que sem apoio do poder civil a Igreja não consegue evangelizar. Os que ficam apegados à tradição ficam desconcertados. Acostumados à idéia de que o padre é uma pessoa de poder, de repente ficam desorientados, quando percebem que ninguém mais aceita seu poder, salvo algumas senhoras piedosas que cuidam da igreja paroquial. Monsenhor Expedito, de São Paulo do Potengi, contava as palavras do bispo de Natal que o fez pároco. Dizia o bispo: “Expedito, nunca se esqueça de que você é autoridade. Procure ter boas relações com o prefeito, com o delegado e com o juiz. Quanto ao resto, faça o que puder”.
O problema entre todos os problemas, e que está na base de todos, é a necessidade de evangelizar sem poder, a partir de uma relação de igualdade: um ser humano com outro ser humano, como modo de relacionamento entre pessoas iguais e não num relacionamento de superior e inferior.
É o drama de muitos jovens sacerdotes que foram formados para o poder num ambiente de poder e descobrem, de repente, que não existe mais esse poder. Mas não foram preparados para um relacionamento de pessoa a pessoa, como irmãos iguais.
No linguajar do Vaticano II os leigos foram promovidos. Desde então foram publicados muitos documentos excelentes sobre os leigos na Igreja. Os documentos da CNBB são particularmente excelentes e mostram a qualidade dos assessores que assistem os bispos. Porém, na prática, nada mudou. Os leigos não têm mais poder, mais autonomia do que antes. Tudo ficou nas palavras, porque nada mudou na instituição. Durante o pontificado anterior foi publicado um Catecismo católico. Qual foi a participação do povo de Deus na preparação desse catecismo? Nenhuma. Nem se sabia quem eram as pessoas que estavam elaborando esse catecismo. Foi publicado um novo Código de Direito Canônico. Qual foi a participação do povo cristão na redação desse código? Nenhuma. Os leigos não valem nada; na prática, não têm o Espírito Santo. Eles são ignorantes e, como ignorantes, devem aceitar tudo sem reclamar. Antes disso houve reformas litúrgicas. O povo cristão foi consultado? Não. O povo é ignorante, os leigos são ignorantes. Tudo isso, como se o Espírito de Deus estivesse somente na hierarquia. O que dizem os documentos fica nas palavras. Na prática, tudo continua como sempre: um relacionamento de poder e uma pastoral de poder. É isso que deve mudar, se quisermos evangelizar este mundo novo em que ora estamos mergulhados.
Pois estamos num mundo novo. A grande maioria dos batizados já nem conhece o Pai-nosso e ignora tudo da Igreja. A vida é um corre-corre, correndo de uma atividade para outra, para sobreviver. A desorganização social é tal que as pessoas vivem como indivíduos solitários, isolados, sem confiança nos outros, sem relação humana firme: às vezes, nem sequer entre esposos. A cristandade tradicional, com seu modo de viver, sobrevive em algumas tradicionais famílias “mineiras”. Sempre haverá alguns representantes do passado. Porém, eles não exercem mais influência na sociedade e constituem refúgios eclesiásticos. Para os 5 milhões de habitantes dos condomínios de São Paulo que significa a Igreja? Para os 3 milhões de favelados, que significa a Igreja? Qual é seu poder? O que vale são os missionários que conseguiram formar pequenas comunidades vivas a partir de uma relação de irmãos, relação de igualdade, sem invocar nenhum poder eclesiástico.
Este é o desafio prático ainda não assumido coletivamente pela Igreja: reconhecer que não se pode mais evangelizar a partir de uma posição de poder, mas apenas numa relação de seres humanos com seres humanos iguais. Na teoria, ninguém contesta, mas na prática, tudo continua como se a Igreja ainda tivesse na sociedade o poder que teve até os anos 70 do século XX.

2. A grande revolução cultural
Existe uma abundante e excelente literatura sobre a revolução da economia e da política depois dos anos 70. Houve uma transferência de poderes com repercussões imensas na vida diária das pessoas como na vida social. Queria apenas aqui chamar a atenção para a revolução cultural, ou, melhor dito, para alguns de seus aspetos.
Um elemento importante dessa revolução foi, e ainda é, a crítica sistemática de todas as instituições, denunciadas como máquinas de poder e de repressão da liberdade e da personalidade individual. A primeira instituição criticada foi a família, e está claro que a família tradicional se desintegra. Mesmo nos Estados Unidos onde a ortodoxia capitalista sempre tinha postulado que as relações de competitividade e de busca da maior vantagem na vida pública[1] não afetariam a vida privada das famílias, os mais conservadores, como Francis Fukuyama, devem reconhecer que a família está em plena crise. Quem provoca a crise são os jovens que se sentem oprimidos pela cultura antiquada de seus pais, cujos valores eles já não reconhecem.
A segunda crise tem por objeto todo o sistema de educação, desde a universidade até a escola de ensino básico. O sistema foi denunciado como opressor, tanto pela maneira de impor e exercer autoridade sobre os jovens, como pelo vazio de conteúdo que quer impor, e não prepara os jovens para a vida real. Esta crítica provocou, de fato, um enfraquecimento do sistema escolar e educativo no mundo inteiro. Em todos os países se reconhece uma diminuição dos resultados do sistema escolar, cada vez mais improdutivo, de tal modo que a escola aparece como escola de analfabetismo. As estatísticas oficiais são enganosas, porque fornecem índices elevados de alfabetização, mas não referem o número de analfabetos funcionais que são incapazes de ler um texto e de entender seu conteúdo.
A crise do Estado é geral. Ela provoca um desprestígio crescente da democracia e a indiferença política dos jovens, de modo geral. A crise política é objeto de comentários permanentes, desde os anos 70. Na América Latina, a luta contra as ditaduras militares escondeu o que estava sucedendo nos paises dominantes do Ocidente: o desprestígio crescente do Estado. Quando se voltou ao regime democrático, muitos tiveram ilusões, porque não sabiam o que estava acontecendo com a democracia.
Todas as outras instituições foram vítimas da mesma crítica e ficaram desprestigiadas: decadência dos partidos políticos, dos sindicatos, das associações de bairro e de quase todos os tipos de associação. Muitas entraram no caminho da corrupção, a ponto de a corrupção atingir também os próprios clubes de futebol e todo o sistema empresarial. Falta repressão à corrupção, que se tornou a nova instituição social.
A crítica a todas as instituições abriu a porta para uma nova institucionalização. Abriu a porta para as entidades econômicas e para a prioridade da economia na sociedade. Hoje em dia, cada vez mais, o poder pertence às multinacionais, que se concentram cada vez mais e adquirem cada vez mais poder. Em nome da liberdade do mercado, vão adquirindo cada vez mais poder, constituindo uma pequena rede de megaempresas que impõem as suas leis. Conseguem colocar a seu serviço o Estado, o sistema de educação – começando pelas universidades –, o trabalho científico, e corromper, comprar ou subordinar, cada vez mais, toda a rede de instituições privadas. Dirigem todo o sistema de informação e de comunicação, todo o sistema de publicações e de transmissão de mensagens. Transformam a cultura em comércio, isto é, numa fonte de capital. Tudo isso foi muito bem analisado. Aproveitam o vazio de instituições fortes e se transformam num só poder total, que consegue dominar a vida, sem que a maioria dos habitantes possa dar-se conta. Graças à manipulação da mídia conseguem fazer com que os cidadãos se transformem em consumidores, aumentando assim seu poder.
Acontece algo semelhante ao que aconteceu com a Revolução Francesa. Esta suprimiu todos os sistemas de constrangimento do comércio e de circulação de mercadorias e abriu o caminho para o capitalismo. A revolução cultural da atualidade abriu o caminho para uma nova forma de capitalismo, muito mais poderosa, porque invade todos os setores da vida e pode contar com um imenso progresso tecnológico e científico. Como lutar contra os abusos deste novo poder? Será tarefa de um século.

3. A Igreja frente à revolução cultural
Globalmente, durante o pontificado de João Paulo II, podemos dizer que a Igreja tomou uma atitude negativa com relação à revolução cultural. Assim tinha acontecido também depois da Revolução Francesa. Claro está que há aspetos negativos na nova cultura: ela destrói valores que tiveram muita importância no passado, que eram parte do patrimônio da cristandade.
No entanto, há também valores positivos, e, sobretudo, valores definitivos contra os quais é em vão lutar. Sem dúvida, há, desde os anos 70, um despertar da liberdade pessoal, da vontade de conquistar mais liberdade, uma denúncia e rejeição de todas as formas de repressão. Ainda que apareçam novas formas de dependência, a consciência já não é a mesma.
Esta consciência de liberdade despertou, sobretudo, nas mulheres. O que mais mudou foi justamente a consciência das mulheres, que querem ser reconhecidas como seres humanos completos e autênticos, com o mesmo valor dos homens. Pela primeira vez foi uma revolução dirigida por mulheres para a emancipação das mulheres. Mas, há também um despertar de consciência de liberdade nos jovens. Há uma vontade de viver plenamente a vida, ainda que esta vontade possa ser contaminada pelo consumismo.
Há uma vontade de viver plenamente a vida com o desenvolvimento máximo de todas as capacidades. Para muitos, o cristianismo perdeu valor porque ensina uma maneira penitencial de viver a vida. O cristianismo tem fama de ser uma força de repressão de todos os movimentos vitais, um freio à libertação humana.
É preciso reconhecer que, na cristandade, o clero ensinava aos cristãos que a vida cristã era uma vida de sacrifícios, que era necessário não somente aceitar as mortificações que Deus mandava, mas também acrescentar outras, facultativas, para aumentar os méritos. Havia o que Jean Delumeau chamou de pastoral do medo,[2] que consistia em manter vivo um sentimento permanente de pecado, acompanhado pelo medo da condenação final e, por isso, da necessidade de obras de expiação. As mulheres andavam vestidas de preto e cobrindo o corpo inteiro. A revolução cultural libertou dessas coisas que não pertencem ao Evangelho, mas foram introduzidas na cristandade na Idade Média.
Depois da revolução cultural, milhões de homens e, sobretudo, de mulheres saíram da Igreja, não por motivos de doutrina ou de crenças, mas porque não aceitavam mais o estilo penitencial da espiritualidade que se ensinava. Deixaram de ter medo do inferno e dos castigos de Deus. O que rejeitam na Igreja não são os dogmas, menos ainda o Evangelho, mas a austeridade de vida, a preocupação constante pelo pecado e o medo que se infundia na consciência do pecador. Os jovens fogem disso como da peste. Não querem nem saber. Os movimentos integristas, como o Opus Dei e os Legionários de Cristo, devem praticar uma lavagem cerebral radical para que seus membros aceitem essa volta ao passado.
Cristo não veio criar um movimento penitencial, mas anunciar a alegria da chegada do reino de Deus. O centro do cristianismo é a proclamação da ressurreição, que é promessa de vida e de vida abundante.
Precisamos mudar o eixo fundamental da espiritualidade. Durante a cristandade ocidental o eixo foi a Sexta-feira Santa, a maior festa celebrada pelo povo. A espiritualidade estava concentrada ao redor da expiação pelos pecados. A própria eucaristia foi entendida durante toda essa época como oração de sufrágio pelas almas do purgatório. No centro da figura de Jesus estão a paixão e a cruz, então os grandes símbolos da cristandade. Isto penetrou profundamente na mente e no coração do povo católico, e ainda foi acentuado pelas Igrejas da Reforma.
Doravante, o eixo da espiritualidade deverá ser a ressurreição, ou seja, a vitória da vida, apesar da morte e do pecado. Ainda não sabemos qual será o eixo da espiritualidade do novo Papa. Não sabemos se entrará na mentalidade da nova cultura ou se procurará restaurar a espiritualidade medieval.
Por outro lado, com relação ao nascimento de um novo poder, o poder econômico das multinacionais, do sistema financeiro mundial e da formação de uma nova burguesia, o magistério mostrou-se bastante tímido e reservado. Ninguém se sentiu atingido por suas condenações muito vagas. Deu-se, e ainda se dá, a impressão de que a Igreja não quer entrar em conflito com os novos poderes e prefere uma aliança com eles, embora de modo discreto, para não escandalizar os fiéis. Acha que poderá acomodar-se à economia, embora rejeite o conjunto da nova cultura.

4. A crítica da instituição eclesiástica
A crítica das instituições não podia deixar de lado as instituições eclesiásticas. A crítica das instituições que se manifesta claramente desde os anos 70 obriga-nos a fazer uma distinção que não tinha sido feita antes dessa data. Ela ainda está ausente no Concílio Vaticano II. Quando este fala da Igreja, fala ao mesmo tempo da instituição católica romana e da Igreja como mistério de Deus, como realização presente do reino de Deus. Não faz a distinção. Fala como se todo o aparelho institucionalizado e burocratizado da instituição eclesiástica pertencesse à essência da Igreja. Ora, tanto a história, como as ciências humanas, especialmente a sociologia, mostram que todo esse aparelho é uma construção histórica, que variou bastante no decorrer dos tempos e que foi definido a partir de empréstimos feitos a outras instituições que pertenciam às culturas nas quais a cristandade tinha entrado. A instituição mudou e ainda pode mudar, inclusive deve mudar, porque já não constitui uma ajuda para a evangelização, mas, muitas vezes, um obstáculo.
Começaram a manifestar-se movimentos críticos, sobretudo a partir dos anos 70. Antes dessa data, prevaleceu a idéia de que o Concílio Vaticano II tinha trazido as respostas às preocupações do povo de Deus. A partir dos anos 70 a revista Concilium mudou sua orientação: fez-se cada vez mais crítica, sendo porta-voz do pensamento de vários movimentos e de muitas pessoas na Igreja católica em contato com a nova cultura.
A essas críticas feitas à instituição a hierarquia respondeu até agora com um silêncio completo. Ela ignora ou finge ignorar essas reivindicações.
Diante da crítica à instituição, João Paulo II respondeu voltando à grande disciplina. A resposta dele foi restaurar tradições, usos, costumes, devoções anteriores ao Vaticano II e que tinham perdido prestígio ou caído em desuso. O Papa quis restaurar o sacramento da penitência por confissão auricular ao sacerdote, embora essa disciplina tivesse sido introduzida já numa fase bem adiantada da Idade Média e tivesse sido ignorada na Igreja durante quase 12 séculos. Tudo isso, num ambiente de rigor na doutrina tradicional, na liturgia e em toda a organização institucional, declarando terminada a fase da experimentação.
Desta maneira, João Paulo II reiterou o que aconteceu no século XIX depois da Revolução Francesa. A Igreja restaurou o passado a partir da classe dos camponeses. Muitos missionários dedicaram-se a evangelizar o campo e os camponeses ainda eram a grande maioria da população. No meio rural foi possível reconstituir um fragmento de cristandade, ainda que sempre em conflito com a sociedade dominante. A atitude da instituição para com a modernidade foi sempre mais de rejeição, até atingir um ponto culminante no pontificado de Pio X.
Esta nova cristandade não podia deixar de ser frágil, ainda que não se soubesse naquele tempo. Não se podia prever a imensa migração do campo para a cidade. No entanto, era previsível que era perigoso concentrar a Igreja numa classe social que começava a diminuir, e alguns católicos avisaram, porque tinham visto o perigo que havia em rejeitar toda a modernidade. Havia nela valores positivos, que era perigoso atacar. Durante todo o século XIX a atitude dominante foi de rejeição. O preço foi a perda de toda a classe intelectual e das pessoas que tinham estudado, e a perda da classe operária. Quando, finalmente, com João XXIII a Igreja aceitou os princípios da declaração dos direitos humanos, já era tarde demais. A imensa maioria dos católicos já tinha saído.
Até os anos 50 do século XX, a América Latina viveu na dependência cultural da Europa. Foi assimilando a luta contra a modernidade nos seus diversos aspetos, e uma pequena classe operária nasceu quase sem presença da Igreja. Também na América Latina a classe letrada se afastou da Igreja. As mulheres permaneceram fiéis, porque elas não podiam estudar. Quando se lhes abriu a porta das universidades, elas reagiram como os homens. Acharam a Igreja uma instituição respeitável e poderosa entre a classe dirigente, mas sem valor para sua vida pessoal e sem relevância para seu pensamento. Embora menos profunda do que na Europa, a separação entre a Igreja e a classe letrada ainda tem repercussões fortes no mundo universitário e intelectual atual: predomina uma atitude de indiferença. Poucos e poucas acham que poderiam encontrar na Igreja algo importante para sua vida. São cristãos fiéis à mensagem evangélica, mas sem contato com a instituição.
Hoje em dia, a estratégia que consiste em condenar a nova cultura não tem mais o apoio de uma classe de camponeses, porque os camponeses foram para as cidades e os que ainda ficam estão em contato permanente com a cultura urbana mediante a TV. João Paulo II proclamou que os agentes da nova evangelização seriam os chamados movimentos, isto é: Opus Dei, Legionários de Cristo, Focolarinos, Comunhão e Libertação e outros semelhantes. Estes constituiriam uma tropa de choque, mas sem massa para seguir. É uma base muito estreita para fundar uma nova neocristandade.
Quais são as críticas que se fazem à instituição?
Em primeiro lugar, há a crítica da burocratização. Em todos os níveis, o clero ficou burocratizado. A agenda dos padres, dos bispos e da Cúria Romana está cheia de reuniões, seminários, congressos, programação, relatórios, documentos, assessoria, projetos. Naturalmente, tudo isso fica no papel. A burocracia enuncia tudo o que deveria ser feito, mas sem nunca dizer quem vai fazer. Por isso, tudo fica no papel. Isto não importa para a burocracia. Pois a burocracia procura atender e agradar a seu chefe, muito mais do que aos “clientes”. O que importa com toda essa atividade feita de palavras é que se digam coisas que agradem ao chefe. É preciso esconder os problemas, fazer demonstração de otimismo, mostrar que os problemas estão sendo resolvidos. Qual é a finalidade de qualquer burocracia? Sobreviver, crescer, garantir seu futuro e aumentar seu poder. Uma burocracia tem sua finalidade em si mesma. O que acontece lá fora, no mundo, no meio dos homens e das mulheres, não importa muito. Basta evitar que as críticas cheguem até os ouvidos do chefe. Cresce na Igreja a impressão de que tudo o que o clero faz, desde a Cúria Romana até a casa paroquial, é totalmente irrelevante e artificial, e permanece longe da realidade humana. A burocracia constituiu-se num corpo autônomo e independente. A burocracia eclesiástica tornou-se seu próprio fim.
Um publicista francês do século XX, Charles Maurras, fundador do movimento direitista chamado L’Action Française, era agnóstico. Mas um dia declarou que felicitava a Igreja romana, que tinha sido capaz de purificar o cristianismo do perigoso fermento do Evangelho. Na prática, há casos em que, de fato, a burocracia eclesiástica serve para evitar que o fermento perigoso do Evangelho possa penetrar.
Em segundo lugar, apesar da concessão feita no novo Código de Direito Canônico, a Igreja mantém nas cidades a estrutura obsoleta da paróquia. O clero está sendo preparado para atuar dentro do quadro paroquial. Os próprios religiosos estão integrados em paróquias. Ora, estruturalmente, a paróquia é feita para conservar, ajudar, promover os que participam do culto, as pessoas que pertencem à pequena minoria dos que já estão no templo. A paróquia vive em função do templo, ainda que diga o contrário. Em lugar de preparar os cristãos para evangelizar a sociedade, ela se fecha sobre a minoria fiel às instituições do passado.
A paróquia não assume as fábricas nem os supermercados, nem as escolas, nem os colégios, nem as universidades, nem os hospitais, as instituições esportivas, culturais, de diversão, nem os meios de comunicação da cidade. Ela está organizada ao redor dos sacramentos e das festas litúrgicas. Nem sequer consegue organizar a catequese dos adultos, menos ainda sua formação missionária. Ela concentra as energias dos fiéis no próprio templo, em si própria. A Igreja está claramente a serviço de si própria. Não se pode negar as excelentes intenções de muitos párocos, toda a imaginação para fazer uma paróquia missionária. O problema é estrutural. Já foi denunciado por Santo Tomás de Aquino. Depois de 8 séculos ainda não se deu a solução. A conseqüência é um povo passivo, incapaz de dar testemunho na sociedade, fechado em si mesmo, numa espiritualidade de pura interioridade.
No entanto, na América Latina, houve uma experiência básica que podia ter dado uma resposta. Foi a experiência das CEBs. A experiência continua, mas não foi adotada oficialmente pela Igreja. Não se lhe deu nenhum estatuto oficial, e as CEBs permanecem como algo estranho e frágil, porque qualquer pároco ou qualquer bispo pode desfazer um trabalho fecundo de dezenas de anos.
As CEBs que ainda subsistem permanecem subordinadas às paróquias, na dependência dos párocos. Acontece com elas o que aconteceu com a Ação Católica em muitos paises: a subordinação à paróquia é uma esterilização de fato. Os movimentos de Ação Católica, ou não se submeteram à ordem paroquial e foram condenados como no caso da JUC, ou se integraram e foram absorvidos, ou permaneceram como grupos pequenos semiclandestinos. As comunidades devem adotar o programa paroquial e acabam dedicando-se primeiramente ao culto e às festas religiosas, embora conservando o discurso das origens. O modelo inicial de comunidades inseridas no mundo popular e comprometidas com o mundo popular foi desfigurado. O novo clero não o adota. No entanto, a autonomia das pequenas comunidades integradas numa pastoral da cidade e não da paróquia é o único caminho. Não adianta determinar que doravante a paróquia seja missionária. Estruturalmente, ela não pode ser missionária, porque não está organizada em função da cidade, mas em função de seu próprio crescimento.
Em terceiro lugar, a crítica que se faz à Igreja como instituição é que ela mantém um sistema de poder obsoleto e ineficaz. É o famoso problema do clero. O clero monopoliza todos os poderes e está mandando de modo absoluto, unicamente porque foi enviado pelo bispo sem que os leigos pudessem intervir em nada. A cada 5 anos eles têm que se subordinar aos humores do novo pároco. A razão é administrativa. O bispo faz as nomeações em função dos problemas do clero e não em função de sua capacidade evangelizadora. O padre luta para conquistar uma autoridade que se vai perdendo.
O padre não foi preparado para estar no meio do mundo, dando testemunho do Evangelho. Foi preparado para administrar uma paróquia conforme as tradições religiosas. Alguns conseguem ir além da formação recebida, mas a maioria fica com o que aprendeu no seminário.
Já escrevi muito sobre o problema do clero. Não vou repetir o que já disse muitas vezes. Também não creio que o novo Papa tenha a menor disposição para mudar alguma coisa no clero e na estrutura de poder na Igreja.
Há muitos leigos e leigas, que trabalham efetivamente como missionários e missionárias, geralmente sem mandato, sem reconhecimento oficial, sem poder, e gratuitamente. São heróis que conseguem tempo e energia e se dedicam à missão com muita generosidade e gratuidade. Haveria muito mais homens e mulheres, se se lhes fizesse um apelo, oferecendo-lhes reconhecimento, confiança, autonomia, porque muitos não querem ser simplesmente auxiliares do padre. Quantos milhares de pastores evangélicos surgiram no Brasil ultimamente que se dedicam à pregação, à missão, com entusiasmo, sacrifício e dedicação! São mais de 100.000. Muitos teriam podido ser missionários na Igreja católica, se se lhes tivesse oferecido essa missão, confiando neles.
No futuro, os ministros serão reconhecidos e identificados pelas comunidades, graças às suas qualidades de profeta e a seus dons espirituais. Em cada cidade haverá um núcleo de pessoas permanentes, conhecedoras dos diversos aspetos da vida da cidade, que poderão aconselhar e organizar atividades públicas comuns, reunindo a grande comunidade.
Uma quarta crítica tem por objeto a estratégia, que consiste em educar os cristãos quando são crianças. A catequese se dirige às crianças. Desde o século XIX a pastoral da Igreja concentrou-se nas crianças. Por isso se deu prioridade absoluta às escolas católicas e à catequese infantil. Desta maneira, os adultos cristãos parecem infantilizados. Do cristianismo eles sabem o que lhes foi ensinado quando eram crianças. Nunca aprenderam o que significa ser cristão como trabalhador, cidadão, pai ou mãe de família dentro das circunstâncias e dos obstáculos reais da vida.
O resultado é que os meninos educados na catequese católica se tornam evangélicos quando ficam adultos, porque a mensagem dos evangélicos é para os adultos e não para as crianças. A pastoral concentrada nas crianças não tem eficiência na nova sociedade. Já acabou fracassando no século XX.

5. O Evangelho e a instituição
A tarefa principal da teologia vai consistir em identificar o que é do Evangelho, o que foi proposto por Jesus e em que constituiu a instituição atual, em função de desenvolvimentos históricos. Jesus nunca pensou na Igreja na sua forma atual. Isto não quer dizer que o que existe agora seja bom ou mau. Mas muitos elementos se devem à influência de movimentos culturais e de religiões não-cristãs, porque as religiões não-cristãs tiveram uma influência profunda durante toda a cristandade.
No mesmo sentido escreveu Hans Küng, quando propôs que se destacasse o núcleo básico do cristianismo. Esse núcleo somente pode ser o que nos vem do próprio Jesus.
Durante 1000 anos, sobretudo desde o século XIV, a teologia foi apologética e dedicou-se a demonstrar a identidade entre todo o aparelho institucional da Igreja, os dogmas, a moral, a liturgia, a organização eclesiástica com o Evangelho. Mostrou a continuidade. Procurou demonstrar primeiro que tudo estava no Evangelho e, quando os estudos históricos tornaram essa posição insustentável, defendeu o tema da homogeneidade, ou seja, do desenvolvimento homogêneo. A teologia oficial procurou mostrar que todo o sistema institucional tinha por finalidade e por efeito um melhor entendimento do Evangelho. Teria sido um esclarecimento do Evangelho que ainda era confuso.
Ora, todas essas explicações são puramente gratuitas. Serviram para manter a continuidade na cristandade. Mas hoje em dia devemos constatar que o Evangelho é mais claro do que todo o sistema que se construiu sobre ele com a pretensão de explicitá-lo melhor.
Esta teologia apologética esteve a serviço da hierarquia, para defender o status quo da cristandade, mas impediu que a Igreja desse uma resposta adequada aos desafios da modernidade. Essa apologética, que prevaleceu até o Concílio Vaticano II, ainda não desapareceu, sobretudo nas inumeráveis faculdades de teologia situadas em Roma. Para a evangelização do mundo e mesmo do povo cristão, essa teologia foi estéril. Mais ainda: está condenada a ser estéril. Não vai converter nenhum pagão, nem sequer os católicos. Foi a base dos catecismos, mas os catecismos não formaram cristãos adultos e maduros.
Essa apologética forneceu o material que permitiu que o magistério desse resposta negativa aos gritos que surgiram do meio da cristandade durante 1000 anos, pedindo reforma. Em cada geração houve católicos que não puderam aceitar a instituição, porque viam nela uma contradição com o Evangelho. Esse debate deu origem às chamadas “heresias”, que, no fundo, eram todas formas de contestação da instituição. Houve muitos cismas e muita repressão, mas nunca houve aceitação unânime das posições defendidas pela teologia oficial.
Uma vez que nossa tarefa será anunciar o Evangelho a todos os seres humanos sem posição de força, sem poder contar com uma imposição, essa teologia está completamente fora de foco. Não conseguiremos com ela conquistar novos membros para a instituição. Evangelizar é provocar a iluminação dos corações e das mentes, não pela força de uma instituição, mas pela revelação divina que se manifestou em Jesus.
O princípio da nova teologia é que a Igreja está subordinada ao Evangelho e não o Evangelho subordinado à Igreja. Durante a cristandade o poder eclesiástico sustentou que o sistema institucional era a interpretação fiel e a expressão atual do Evangelho. Na prática, a teologia serviu para demonstrar que a Bíblia apoiava o sistema eclesiástico católico, para subordinar o Evangelho à instituição. Agora, a tarefa é diferente. Trata-se de descobrir o que é realmente revelação divina, separando-a de todos os elementos que foram acrescentados.
Tudo o que foi acrescentado teve um papel histórico, positivo ou negativo. Muitos elementos entraram por influência de outras religiões, ou por razões políticas ou culturais do tempo. Podem ter tido em efeito positivo ou negativo e provavelmente algo de positivo e algo de negativo. O problema é que as circunstâncias mudaram e muitos acréscimos que foram úteis no passado aparecem como incompreensíveis e inassimiláveis na atualidade
Quando falamos do Evangelho, queremos pensar naquilo que vem realmente de Jesus. Há nos próprios evangelhos acréscimos que procedem das comunidades, e há dentro da cultura judaica em que Jesus se expressa vários elementos de mitologia. Não podemos conservar essas mitologias dentro do núcleo central.
Claro está que o povo cristão precisa de instituições: precisa de crenças definidas, de ritos e celebrações, de comunidades e de organização das comunidades. Precisa de ministérios organizados. Podemos inclusive pensar que precisa de mitologia. O desafio é que essas instituições ajudem efetivamente a introduzir o Evangelho na vida. Não podem ser consideradas como definitivas, irreformáveis, mas devem deixar lugar para outras expressões institucionais quando os tempos mudaram.
Da mesma maneira os cristãos precisam de sinais de identificação. Precisam realizar gestos significativos, pronunciar palavras significativas, o que lhes permite renovar a consciência de pertencer a um povo, o povo de Deus. Todos os povos têm sinais de identidade e o povo de Deus também. Ora, esses sinais devem ser compreensíveis e ter um conteúdo, não ser puramente gestos mecânicos.
Na realidade, as grandes linhas de uma reforma da instituição já foram explicitadas muitas vezes nos últimos 30 anos. O problema é a vontade de mudança. Toda burocracia tem repugnância a qualquer tipo de mudança porque poderia provocar mudanças na própria burocracia e questionar a carreira dos funcionários. Todos desejam que não mude nada. Ora, a burocracia vaticana adquiriu uma força inaudita durante o pontificado de João Paulo II que não manifestou nenhum desejo de mudar qualquer coisa, a não ser acrescentar novos serviços burocráticos.
Há no povo cristão, em todos os níveis, uma aspiração a uma descentralização do poder romano. Porém, é justamente essa reforma que a Cúria vai impedir por todos os meios à sua disposição. Porque seria para ela uma perda de poder e uma supressão de empregos.
No entanto, o desafio está aí e não vai desaparecer. O sistema burocrático atual impede a evangelização dos povos e desestimula as Igrejas locais. Provocou a saída de milhões de católicos, sobretudo na Europa e na América Latina. Somente o Evangelho de Jesus Cristo pode converter.

6. A Igreja e o mundo
O Concílio Vaticano II proclamou que a Igreja está a serviço do mundo e não é um fim em si mesma. Sua finalidade é a salvação de todos os povos, da humanidade inteira. Ele reconhece a autonomia do mundo e reconhece que já não é a Igreja que dirige o mundo, como nos tempos da cristandade. Na Gaudium et Spes se renuncia ao projeto de cristandade. No entanto, as palavras dizem uma coisa e a realidade é diferente. Na prática, grande parte da Igreja age como se ainda houvesse ou como se se pudesse refazer uma nova cristandade semelhante àquela que havia na primeira parte do século XX.
Quando se fez a separação da Igreja e do Estado no Brasil os bispos não seguiram as recomendações do padre Júlio Maria, mas elaboraram um programa de reconquista do poder perdido, aproveitando as estruturas da sociedade republicana, de tal modo que a Igreja pudesse, na prática, refazer uma cristandade. Adotaram como prioridade a estratégia de sempre: evangelizar por meio das crianças e das instituições de educação. De fato, em pouco mais de 50 anos e sob a batuta do Cardeal Leme, grande admirador da nova cristandade da Europa, a Igreja reconstituiu no Brasil um grande poder. Diziam que 80% das elites brasileiras tinham sido educadas em colégios católicos. De novo, a Igreja tinha uma fachada impressionante. Houve, de novo, um entrosamento entre a Igreja e o Estado. A classe dirigente sentia que precisava da Igreja para manter o povo na submissão, e não poupava os favores e até os privilégios, dos quais foram beneficiárias as instituições católicas.
Quase todos os países latino-americanos tiveram uma evolução semelhante. O modelo era o Estado de Bem-estar da Europa Ocidental, ou seja, um capitalismo limitado por uma legislação social protetora dos trabalhadores e a conservação dos valores éticos tradicionais, sobretudo na família. É verdade que havia uma diferença no campo. Essa nova cristandade não questionou a estrutura do campo e os camponeses permaneceram ignorados e sem influência na vida das nações. O plano da CEPAL combinava com esse modelo porque impedia que o grande capital mundial tomasse conta da economia nacional, embora já tivesse realizado algumas entradas. Tudo parecia estar em paz. Os acordos entre os bispos e Juscelino Kubitschek eram o símbolo das harmoniosas relações dentro de uma neocristandade de fato, em que oficialmente a Igreja não tinha poder político, mas o tinha na realidade, graças a relações cordiais entre o poder religioso e o poder civil, nacional, estadual ou municipal.
Vieram os regimes militares. Salvo no Chile, onde Pinochet introduziu o novo modelo de globalização neoliberal desde os anos 70, os outros governos militares não mudaram basicamente a estrutura da sociedade. No Brasil, a Igreja assumiu a defesa das liberdades civis e dos direitos dos cidadãos, com um certo êxito. Pois, se comparamos os países, a repressão foi muito menor do que na Argentina ou no Chile ou nos países da América Central. Mas não houve muito conflito com relação à estrutura social e econômica. Na prática, os governos militares, salvo no Chile, permaneciam de alguma maneira fieis à concepção social da doutrina social da Igreja, prolongando a fase anterior. Praticavam um nacionalismo que os protegia contra a contaminação pelo modelo neoliberal. Os governos militares concordavam com a doutrina social da Igreja globalmente tomada. Por isso, os episcopados que colaboraram com os governos militares invocavam esse argumento.
Depois dos regimes militares, muitos, entre eles o clero e o episcopado, pensaram que se ia voltar ao sistema anterior, tão harmonioso, de relações pacíficas em que a doutrina social poderia fornecer a ideologia de regimes de Bem-estar social. Como novidade, o Estado de Bem-estar poderia inclusive integrar outros setores da população, por exemplo, os camponeses. Achavam que tinha chegado o tempo da reforma agrária. Um olhar sobre o Chile podia ter despertado mais desconfiança. Pois, no Chile, a democratização manteve o modelo neoliberal sem questionamento real, e a Igreja ficou calada: o partido democrata cristão era o governo e ficou responsável pela continuidade do modelo neoliberal.
Entrou o novo modelo de sociedade que se chama globalização, ou neoliberalismo – não importam os nomes. Tudo isso aconteceu na década dos 90, a “década vergonhosa” depois da “década perdida” dos 80. Os países latino-americanos abriram-se para o modelo neoliberal e integraram-se no império do neocapitalismo das grandes multinacionais. Tudo isso é bem conhecido.
O que tinha acontecido no Primeiro Mundo desde os anos 70 e, sobretudo, nos anos 80, entrou na América Latina nos anos 90 (no Chile nos anos 70), sem efeitos sensíveis sobre a relação Igreja-mundo.
Sob as aparências democráticas, o poder foi transferido dos Estados para os grandes complexos financeiros e as multinacionais. Os governos ainda se proclamam fiéis à doutrina social da Igreja, mas o novo poder econômico mundial ignora completamente essa doutrina. Seus critérios são diferentes. Entre o projeto da Igreja e o projeto do grande capital não há mais contato. O modelo econômico invoca a autoridade da ciência. E contra a ciência não se pode fazer nada.
Isto significa que a doutrina social da Igreja perdeu toda sua força. Ela se tornou irrelevante, porque ineficaz, sem efeito real na sociedade. É como se não existisse.
Por isso, estamos numa situação nova: uma Igreja do silêncio no meio de uma sociedade guiada pelo valor supremo do dinheiro em que as normas são a competitividade e o aumento do poder. Ninguém lê a doutrina social da Igreja, porque todos sabem consciente ou inconscientemente que ela perdeu toda a vigência. A Gaudium et Spes tornou-se irrelevante, sem conteúdo real, porque não tem aplicação.
Então a Igreja deve expressar seu testemunho de outra maneira. Hoje em dia, publicar documentos ou fazer discursos é irrelevante. Ninguém lê esses documentos, proclamações, apelos e assim por diante. Para o FMI, isso é irrelevante. O mundo atual precisa receber mensagens mais concretas, mas fortes, que consigam mobilizar a mídia e despertar a atenção e a emoção das massas.
O que faz um testemunho hoje em dia não são as palavras, mas os gestos. O gesto de Daniel que se nega a adorar a estátua de ouro. Onde está a estátua de ouro? Está em Davos, no clube de Paris, no FMI, na OMC. Está nas multinacionais. Os efeitos são inumeráveis: mercantilização do trabalho, redução do trabalhador a escravo da empresa, exclusão social da metade da população, favelização das grandes cidades e assim por diante. Não são pequenos escândalos isolados, mas fatos imensos. No entanto, esses fatos dizem respeito a seres humanos.
O que se espera são ações proféticas de grande visibilidade que manifestem a palavra de Deus na humanidade, de modo que ela possa, de fato, atingir multidões. Um exemplo pode iluminar essa necessidade. Quando o bispo de Barra, Dom Luís Flávio Cáppio, faz a greve de fome para chamar a atenção sobre as mentiras e as injustiças do projeto de transferência das águas do Rio São Francisco, toda a mídia comunicou a notícia e essa simples ação conseguiu provocar um debate na opinião pública nacional, suspender, e possivelmente para sempre, o projeto. Se a CNBB tivesse publicado um documento ninguém teria tomado conhecimento.
Nos tempos dos regimes militares houve muitos atos proféticos semelhantes, por exemplo, por parte de bispos de grande personalidade, no Brasil, no Chile e em muitos países. A morte de Dom Oscar Romero foi um sinal extraordinário. Naquele tempo os sinais destinavam-se aos povos dominados por ditadores militares.
Hoje em dia, o problema não são mais os militares. Pelo contrário, há militares que podem voltar à tradição nacionalista muito forte na história latino-americana. O inimigo é o sistema econômico ditatorial mundial centrado nos países do Primeiro Mundo.
Desde a entrada do novo sistema de comunicação na Igreja, toda a atenção da mídia foi orientada para a pessoa do Papa João Paulo II, que monopolizou o poder das imagens, porque era o único católico conhecido pela mídia. O Papa tinha o dom da comunicação e consciente ou inconscientemente queria ser a única estrela. O Papa conseguiu dar à Igreja uma visibilidade muito expressiva. Porém, globalmente, sua mensagem estava orientada e de modo bastante unilateral. Não era possível que uma só pessoa concentrasse em si mesma toda a missão de testemunho da Igreja.
A neocristandade criada depois da Revolução Francesa suscitou a criação de muitas obras católicas. Estas conseguiram manter no seio da Igreja os antigos camponeses de cultura rural tradicional. Não conseguiram integrar os operários, nem os intelectuais. Hoje em dia, também aparecem muitas obras “católicas”. Elas têm suas vantagens e seus efeitos positivos.
As obras católicas já não são sinais fortes no mundo de hoje. Antes, parecem ser ilhas, refúgios, entidades que permanecem desconhecidas ao resto do mundo. Servem para os cristãos tradicionais, mas não constituem um anúncio do Evangelho para a grande massa. Não existe mais nem sequer uma massa de camponeses de cultura tradicional. Não faltam casos em que a mensagem difundida por essas obras é que “a Igreja é rica”.
Além disso, elas fazem com que não haja presença católica nas instituições e na sociedade civil. Elas consomem as energias dos católicos mais preparados. Quem vai dar testemunho no meio do mundo? Em lugar de serem enviados como missionários, os católicos vivem juntos numa sociedade paralela sem contato com a grande sociedade. Se a Igreja continuar reservando para si mesma as melhores forças dos religiosos e dos leigos, quem estará presente e quem dará testemunho nas empresas, nos conjuntos habitacionais, nas favelas, nas universidades, nos colégios e assim por diante?
Hoje em dia existem milhares de associações e organizações de luta contra a sociedade neoliberal. Há espaço para os católicos. Pois em todos esses movimentos há necessidade de uma ideologia, de projetos concretos e de dirigentes honestos. Há espaço para que os católicos se manifestem como os servidores mais desinteressados, mais dedicados, mais honestos. Podem ser o sal da terra, a luz que na montanha atrai os olhares.
As exortações oficiais dizem que os leigos devem dar testemunho no mundo, mas como podem fazê-lo, se são mobilizados a serviço das instituições católicas? A Igreja prende muitas pessoas que poderiam estar no mundo. Há uma contradição entre o discurso oficial sobre os leigos e a prática institucional que não se interessa pelo mundo. A hierarquia deveria tomar uma atitude mais clara e dar orientações não contraditórias.
O desafio dos cristãos no mundo é hoje muito mais difícil do que antes. Pois o sistema é muito forte, muito autoritário. Dentro das empresas a vigilância é total. Ninguém pode contestar, ninguém pode protestar, ninguém pode criticar. Quem não se submete como escravo fica suspeito e pode ser eliminado. Por isso, dar testemunho cristão supõe heroísmo. Ao mesmo tempo é preciso ser prudente como as serpentes. Não existe liberdade de expressão. Ao mesmo tempo há uma campanha de lavagem cerebral para manipular as mentes e conseguir que todos se convençam que é preciso obedecer, que não há alternativa e que são muito felizes por estar na empresa. Todas as ciências humanas concorrem para submeter as mentes. A mídia, as instituições, o ambiente global da sociedade: tudo serve para desencorajar qualquer tentativa de mudança. Por isso, somente personalidades fortes, com convicção muito forte, poderão dar testemunho. A maioria ficará calada. A economia neoliberal tem a mesma força dos imperadores romanos. A pressão psicológica é forte. Na prática e de fato, a maioria cede e perde sua própria convicção.
Daí a necessidade de uma preparação e de um apoio muito forte. Sem formação muito profunda ninguém poderá abrir a boca na sociedade e todos repetirão as mentiras divulgadas pela mídia.
A paróquia não dá essa formação. Se quisermos evangelizar o mundo, precisamos tomar como prioridade a formação de leigos em todos os ambientes. Os melhores sacerdotes, os melhores religiosos e as melhores religiosas devem ser reservados para essa formação. Basta de formação para crianças. É melhor deixar paróquias sem pároco, pois leigos podem assumir quase todas as tarefas. Também uma primeira geração de leigos formados pode ser formadora. Mas isto exige 10 anos. Se não se tem a coragem de formar leigos que vão ter que lutar contra uma estrutura mais dura do que o Império Romano, porque submete as mentes, não haverá presença da Igreja no mundo, apesar de todos os textos e de todos os discursos bonitos.
Para tomar somente um exemplo, a corrupção existe em todos os níveis em todas as empresas. Este é um fato mundial e não tipicamente brasileiro. A mídia fala dos casos de corrupção na vida política, porque pode fazê-lo sem temer a repressão. Mas ninguém se atreve a denunciar os casos de corrupção nas empresas, na indústria, no comércio, no transporte, nas prisões, nas escolas, nos hospitais, nas administrações públicas, e até no futebol que agora é uma grande empresa. A regra é que todo mundo pratica corrupção. Como mudar isso? As leis não se aplicam porque todo mundo dá cobertura. Ninguém sabe de nada, ninguém viu nada nem ouviu falar de nada. Quem vai poder ser honesto e negar-se a entrar na corrupção? Precisa ser de uma energia sem par.
A vida atual é uma preocupação permanente para não perder o emprego, para quem já tem, ou para buscar um emprego para quem não tem, ou para achar biscates para sobreviver para quem já desistiu de buscar emprego. Entre todos existe uma competição. Para ter emprego é preciso agradar, bajular, e, sobretudo, ter boas relações. Nesse ambiente como manter o equilíbrio? Como viver serenamente com tais ameaças? Somente heróis.
A pressão social é tão forte que sem uma profunda mística não há maneira de se salvar. O clero não participa de tudo o que acontece na sociedade; está morando num lugar privilegiado e, por isso, não sabe o que acontece. A hierarquia não está consciente dos desafios da sociedade atual. Não adianta pensar que com o desenvolvimento essas coisas vão melhorar por si mesmas, pois no mundo desenvolvido esses problemas são mais fortes ainda.
Por isso, sem mística não se pode agir como cristão no mundo. Rahner já dizia que no século XXI a Igreja será mística ou não será. A formação paroquial não basta. Por sinal, quem vai ao culto, são justamente as pessoas que não vivem nessa pressão permanente.
Não há uma forma única de mística. Há uma grande variedade de místicas que vão surgindo. Sem uma vida em permanente presença de Deus, ninguém agüenta. Hoje em dia a mística não pode ser vivida num refúgio longe do mundo, se não quiser ser um privilégio e salvo algumas vocações muito excepcionais. Deve ser vivida na sociedade, como nos primeiros tempos, isto é, numa sociedade contrária ao Evangelho, alheia aos valores morais, numa sociedade sem amor e em que todos são rivais e todos podem ser machucados, despedidos, abandonados.
A economia neoliberal, a forma como se faz a globalização, não é inevitável. A superação deste sistema é a grande meta do século XXI. Não se fará em poucos anos. Há um despertar, mas ainda falta a participação dos cristãos nesse despertar. Os homens e as mulheres que ali estão já praticam vida evangélica. São da Igreja, mas precisam reconhecer-se, conhecer-se e mutuamente solidarizar-se em vista de mútuo apoio. Este será o papel das pequenas comunidades. Sem pequenas comunidades os heróis irão se cansar e desanimar. Com uma Igreja viva, os heróis podem multiplicar-se e mudar este mundo.
Há uma terrível contradição entre a aspiração à liberdade que nasce na revolução cultural dos anos 70 e o sistema de economia mundial que exerce uma ditadura nos corpos e nas mentes. Quem estiver na frente da luta para superar essa contradição dará um sinal. A mensagem de Jesus não será difundida a partir do poder, mas a partir de pessoas heróicas que se põem à frente do combate somente com a força e Deus.


*Este artigo foi originariamente publicado na REB-Revista Eclesiástica Brasileira 265 (Janeiro 2007) 36-58, e gentilmente cedido por seu Redator, Fr. Elói Dionísio Piva, a quem expressamos nossa gratidão.

Energia renovável em processo sujo


Nós, da Comissão Pastoral da Terra/MS, temos acompanhado com grande preocupação a expansão da indústria canavieria no Mato Grosso do Sul, estimulada pelos governos federal e estadual.
No Brasil, historicamente a indústra da cana se baseou na ocupação de grandes extensões de terra e na super exploração do trabalho. Este modelo colonial é resumido pelos estudiosos em latifúndio/escravidão/monocultura/exportação (as famosas plantations!) .
Na chamada “Era Moderna” a indústria da cana começa a se instalar no Mato Grosso do Sul a partir dos anos de 1970, com a criação do Proálcool. No final dos anos de 1980 até a presente data, a indústria canavieira passa a ser manchete nos jornais em vista também das denúncias de trabalho escravo e de superexploração dos trabalhadores indígenas e não-indígenas. No mês de março último a Delegacia Regional do Trabalho/MS fechou a indústria de Iguatemi e obrigou a usina a fazer acerto de contas de 409 trabalhadores, dos quais 150 indígenas, que se encontravam em situação degradante. No estado de São Paulo foi confirmada a 18ª morte de trabalhador da cana por exaustão em pouco mais de um ano.
Em contrapartida há uma psicose mundial e nacional quanto à produção de biocombustíveis, ou seja, de energia renovável. Esta paranóia contaminou o nosso Estado agravada pelo estímulo que o Governo Estadual oferece às mais de 30 indústrias que nesta terra querem se instalar, o que significa que as terras ocupadas com o plantio de cana saltarão dos aproximadamente 150 mil hectares para mais de 800 mil hectares até 2009, explorando aproximadamente 40 mil trabalhadores.
No sentido de fazer o contraponto a esta política do agronegócio da cana, baseada na ideologia da energia renovável que é míope porque não considera que no outro extremo do processo, onde estão os trabalhadores e o meio ambiente, ela não tem nada de limpa, é suja porque superexplora os trabalhadores e envenena o ambiente, a Comissão Pastoral da Terra afirma:
o agronegócio da cana gera degradações ambientas, maior concentração fundiária e super exploração da mão- de- obra, levando trabalhadores a morte por exaustão;
coloca em risco as demarcações das terras indígenas e de comunidades tradicionais;
afronta a soberania alimentar estimulando a utilização de terras de assentamentos da reforma agrária e de pequenos agricultores para produzir biocombustíveis;
estimula a ocupação do território brasileiro por empresas estrangeiras, tornando vulnerável a soberania nacional.

Em vista disso assumimos publicamente como nosso o compromisso assumido pelos participantes do seminário sobre a expansão da indústria da cana na América Latina de:

“denunciar e combater o modelo agrícola baseado no monocultivo, concentrador de terra e renda, destruidor do meio ambiente, responsável pelo trabalho escravo e a superexploração da mão de obra. Fortalecer as organizações de trabalhadores rurais, assalariados e camponeses para construir um novo modelo alicerçado na agricultura camponesa e na agroecologia, com produção diversificada, priorizando o consumo interno”.

SOMOS FAVORÁVEIS EM PRODUZIR ENERGIA RENOVÁVEL, MAS NUM PROCESSO LIMPO!

COORDENAÇÃO COLEGIADA
COMISSÃO PASTORAL DA TERRA/MS

Entrevista de João Pedro Stedile ao Jornal Matriz

1- Há muito tempo o MST luta pela Reforma Agrária e ela nunca aconteceu de forma ampla. O que de fato é necessário para se implantar uma Reforma Agrária aqui no Brasil?

A luta pela reforma agrária no país não começou com o MST. Desde os trabalhadores escravizados, nos tempos de Brasil Colônia, quando foram construídos os quilombos, existe luta pela terra e pela reforma agrária no Brasil. O MST é apenas a versão atual da luta social do povo do campo. A reforma agrária não foi realizada até agora porque as classes dominantes são muito poderosas, e burras. Usam o domínio do Estado e das leis para acumular riqueza às custas dos trabalhadores e do futuro de toda a sociedade.

O país precisa de um programa de desenvolvimento nacional, que priorize a solução dos problemas do povo, por meio da distribuição da terra, criação de empregos, geração de renda, produção e fornecimento de alimentos e acesso a educação e saúde. A reforma agrária é apenas uma forma de dar uma resposta a esses problemas no interior do país. O Brasil precisa de um governo que se apóie nas forças populares e no povo organizado e mobilizado para fazer as mudanças necessárias.

2- Outros países já fizeram Reforma Agrária há muito tempo. O que significou isso para o desenvolvimento social e econômico destes países?

Todos os países considerados desenvolvidos atualmente fizeram reforma agrária. Em geral, por iniciativa das classes dominantes industriais, que perceberam que a distribuição de terras garantia renda aos camponeses pobres, que poderiam se transformar em consumidores de seus produtos. Assim, as primeiras reformas agrárias aconteceram nos Estados Unidos, a partir de 1862, e depois em toda a Europa ocidental, até a 1ª Guerra Mundial. No período entre guerras, foram realizadas reformas agrárias em todos os países da Europa oriental.

Depois da 2ª Guerra Mundial, Coréia, Japão e as Filipinas também passaram por processos de democratização do acesso a terra. A reforma agrária distribuiu terra, renda e trabalho, o que formou um mercado nacional nesses países, criando condições para o salto do desenvolvimento. No final do século 19, a economia dos Estados Unidos era do mesmo tamanho que a do Brasil. Em 50 anos depois da reforma agrária, houve um salto na indústria, qualidade de vida e poder de compra do povo dos Estados Unidos.

3- O presidente Lula sempre foi muito criticado por alguns setores da sociedade, antes de se tornar presidente, porque tinha relações com o MST. Como o senhor avalia a atuação do presidente no que diz respeito a este tema? O movimento se sente traído?

O MST é um movimento social autônomo de partidos, igrejas, sindicatos, governos e do Estado. Ao mesmo tempo, temos muitos amigos em toda a sociedade, como dirigentes das igrejas, partidos e sindicatos. O Lula sempre foi amigo do MST e defensor da reforma agrária. Isso é o Lula enquanto sindicalista e dirigente partidário. Por outro lado, o governo Lula é formado por uma composição de classes e ideologias.

A agricultura, por exemplo, é dominada pelos interesses dos latifundiários, do agronegócio e das empresas transnacionais. Os grupos políticos mais fortes, que compõem o governo Lula, são contra a reforma agrária. Também temos amigos em meio às forças dentro do governo que apóiam a democratização do acesso a terra, mas são minoritários. Nesse contexto, não adianta nem nos iludir nem ficar xingando o governo. Precisamos mesmo é organizar o povo, conscientizá-lo e estimular lutas para a conquistar da reforma agrária.

4- O Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária é comemorado neste mês por causa do Massacre dos Eldorados dos Carajás há 11 anos. O que aconteceu com aqueles que fizeram o massacre?

Infelizmente até hoje nenhum dos responsáveis pelo massacre foi condenado ou ficou pelo menos um dia na cadeia. Nós recorremos para anular os julgamentos, que estão há mais de quatro anos parados no STJ. Assim funciona o Poder Judiciário quando é para julgar e condenar os latifundiários e os mandatários de massacres contra o povo brasileiro.

O que é mais grave é que a impunidade não se restringe ao caso de Carajás. Segundo a CPT (Comissão Pastoral da Terra), que acompanha os casos de conflitos e assassinatos no campo, nos últimos 20 anos foram assassinados mais de 1.500 trabalhadores rurais, lideranças sindicais e ativistas. Do total, somente 80 foram a julgamento, sendo que mais ou menos 15 foram condenados. Dos condenados, cerca de cinco estão mesmo presos. Todos os demais casos ficaram impunes. No estado de Goiás mesmo foram raros os casos que foram julgados.

5- Por que, na sua avaliação, alguns setores da sociedade e da mídia têm um certo preconceito com os sem-terra?

Há um preconceito pregado pelos meios de comunicação, dos quais 80% está sob controle de sete grupos econômicos, que tem muito dinheiro, terra e vínculos com o agronegócio e os interesses da classe dominante. Todo dia a mídia publica matérias e apresenta programas contra os sem-terra. O pior é que não condenam só os sem-terra, mas todos os pobres que resolvem se organizar e lutar por seus direitos.

Os meios de comunicação demonizam também aqueles que apóiam os pobres, como intelectuais, políticos, padres, freiras e religiosos que se dedicam a ajudar na organização dos pobres. A Revista Veja, por exemplo, não pára de publicar matérias contra a CNBB. Com isso, os leitores desse panfleto têm uma visão deturpada do papel e da importância da entidade.

Apesar de tanta propaganda preconceituosa, o povo sabe quem está ao lado dele e quem não está. O MST só existe ainda porque o povo das cidades e do interior apóia a nossa luta. A mentira pode enganar durante algum tempo, mas não engana sempre, especialmente quando a causa é justa.

6- Mas também não existem alguns oportunistas no movimento?

A condição humana gera comportamentos pessoais de todo tipo. Existem oportunistas nos meios de comunicação, nas empresas, na Igreja e no Congresso. Há pessoas má intencionadas em todas as classes sociais. Por que apenas fazem um escândalo quando aparecem no meio dos pobres? E quantos malandros oportunistas estão entre os fazendeiros, os usineiros, políticos e juízes?

7- O que os cristãos e membros das comunidades católicas podem fazer para ajudar na luta pela Reforma Agrária?

A Igreja Católica no Brasil sempre teve um papel muito importante na conscientização e organização dos pobres do campo. Também teve um papel importante ao interpretar a realidade e denunciar a injustiça das desigualdades sociais a partir do Evangelho e da Bíblia.

As reflexões produzidas pela CNBB são uma referência para toda a sociedade, como o documento “Igreja e problemas da terra”, aprovado pela CNBB desde 1980. O que pedimos é que vocês continuem conscientizando os pobres sobre as causas da pobreza e as formas de libertação. Mostrem que a solução só vira de forma coletiva, por meio da organização e luta para que se resolva os problemas do país, como a concentração da terra. A terra, que é de todos, precisa ser dividida e, como diz um preceito do documento da confederação, a terra deve ser apenas de quem nela trabalha.

Desenvolvimento: explorar ou emancipar?

O presidente Luis Inácio Lula da Silva iniciou este segundo mandato colocando ênfase no esforço pelo desenvolvimento econômico. Esta seria a marca de seu atual governo. Para tanto, deu ordens para que ministros, particularmente a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, se dedicassem integralmente à concretização de um pacote desenvolvimentista, que veio a ser chamado de PAC – Plano de Aceleração do Crescimento.
Depois de anunciado tal Plano, ainda no mês de janeiro de 2007, o presidente se dedicou à montagem do seu Ministério. Nele, coube uma boa fatia ao PMDB, partido tradicionalmente vinculado às oligarquias regionais e correia de transmissão de grandes interesses econômicos, particularmente de empreiteiras e outras empresas de grande porte.
O perfil do Ministério, tal como ficou definido, tornou-se uma espécie de contra-face política da decisão de cunho econômico consubstanciada no PAC e na ênfase no discurso desenvolvimentista.
A questão central que se coloca aqui é: qual desenvolvimento se busca? Para quem? Com quais objetivos? Com quais métodos? Com participação de quem? Com benefícios para quem?
O PAC já nasceu revelando a radicalidade da sua matriz ideológica: sem nenhuma participação da área social do governo federal, ou mesmo da área ambiental, o que seria óbvio numa perspectiva de uma visão de desenvolvimento com mera responsabilidade social e ambiental. Não teve também participação de uma área estratégica – do ministério do Desenvolvimento Agrário – que seria fundamental numa perspectiva de aceleração da Reforma Agrária como alavanca para a inclusão de milhões de famílias e de todo o campo brasileiro ao processo de desenvolvimento do país. Por último, mas não menos importante, o PAC não teve ouvidos para as implicações dos seus impactos nos territórios indígenas e quilombolas nem para os “efeitos colaterais” na vida de comunidades inteiras que neles vivem. Ou seja, o PAC obedece a um modelo de desenvolvimento de corte eminentemente econômico, onde estão refletidos direta e exclusivamente os interesses do grande poder econômico.
As análises do PAC, feitas por especialistas, vão desde enaltecer sua importância e futuras vantagens, passam por valorizar tal plano como uma carta de boas intenções bem arrumada, mas ainda sem substância, e vão até negar qualquer importância, qualificando-o como apenas um ajuntamento de projetos já existentes, tanto da iniciativa privada como da esfera governamental.

A crítica necessária

Com qual tipo de postura devemos construir nossa análise crítica desta iniciativa do governo Lula?
Em primeiro lugar, a partir do compromisso com os setores populares e com os povos indígenas. Em segundo lugar, a partir de uma visão de conjunto do PAC e da busca de compreensão de sua essência econômica.
Economia é política concentrada, segundo uma máxima marxista. Ou seja, o processo econômico a ser desenvolvido em eventual PAC será revelador de toda uma visão política sobre a sociedade brasileira s sobre seu destino. O PAC, tal como foi apresentado, revela a visão de um capitalismo concentrador e dependente, de nenhum modo se propõe democratizante e, muito menos, transformador. È um plano que tem como meta apenas reproduzir a sociedade brasileira atual, em suas imensas desigualdades sociais, projetando no futuro o mesmo país injusto e excludente, que conhecemos há mais de 500 anos.
Neste “plano estratégico” estão reservados 11 bilhões de reais para a Transposição do Rio São Francisco, projeto que tem sido repudiado pelos trabalhadores rurais, comunidades ribeirinhas, quilombolas e povos indígenas a serem atingidos e com os quais não houve um debate acerca dos seus impactos negativos e sobre alternativas viáveis, social e ambientalmente sustentáveis. O governo Lula havia se comprometido a realizar “um grande debate” com a sociedade brasileira e com aqueles diretamente afetados pela transposição, mas tal debate foi absolutamente esquecido, sendo mantido o projeto original, de cunho autoritário, elitista e tecnocrático.
Neste “plano estratégico” estão também reservados 275 bilhões de reais para obras de energia, vinculadas a petróleo e hidrelétricas. Entre as hidrelétricas, as usinas de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará; Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, em Rondônia. Prazos previstos para o licenciamento destas três usinas já foram revistos diversas vezes, em função de falhas nos Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e questionamentos judiciais protagonizados pelo Ministério Público. Tais hidrelétricas atingem diretamente comunidades tradicionais, ribeirinhos e povos indígenas, mas estes não são levados em consideração pelos projetos, mas vistos apenas como “entraves”, como discursou o presidente Lula diante de representantes do agronegócio.
Fora da órbita direta do PAC, mas como parte da mesma concepção capitalista e mercantil de “desenvolvimento”, temos o empenho do atual governo em aprovar um projeto de lei sobre mineração em terras indígenas, separado do Estatuto dos Povos Indígenas. Tal empenho revela, uma vez mais, o interesse do governo federal e das grandes empresas de mineração em saquear as riquezas existentes nos territórios indígenas e não em respeitar os direitos históricos dos povos indígenas sobre seu patrimônio.

Modelo alternativo de desenvolvimento

Qual seria o modelo alternativo de desenvolvimento que poderíamos propor e defender, a partir do compromisso com os setores populares e com os povos indígenas?
No fundamental, teria que ser um modelo que;
1. levasse em consideração as experiências históricas e as propostas dos setores populares e dos povos indígenas, no que diz respeito à melhoria de suas condições concretas de existência;
2. partisse da premissa básica do respeito integral aos direitos dos povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e ribeirinhos aos seus territórios, ao seu patrimônio e a suas formas de produção e de relacionamento com a natureza;
3. tivesse como pressuposto a participação organizada destes setores na própria concepção do modelo de desenvolvimento, na sua implementação, acompanhamento, avaliação sistemática, possíveis mudanças e eventual redirecionamento e
4. contemplasse, em sua matriz ideológica, a junção do saber tradicional dos setores populares e dos povos indígenas com o saber científico, na busca por um desenvolvimento centrado na integralidade das pessoas, das comunidades e da natureza , projetando um país politicamente democrático, economicamente justo, socialmente eqüitativo e solidário, culturalmente plural e ambientalmente sustentável.
Aos setores populares e aos povos indígenas interessa um modelo de desenvolvimento que signifique sua real emancipação econômica, social e política, alicerçada em seu próprio protagonismo e numa concepção radicalmente democrática de sociedade e de seu controle sobre o Estado e suas instituições.
Paulo Maldo
Assessor Político do Cimi

20 de mar. de 2007

Mundo: Perguntas a Bento XVI

Sua Santidade ressuscitou o que o concílio Vaticano II havia enterrado: a missa em latim. Uma exigência do Monsenhor Lefebvre, arcebispo suíço excomungado em 1988, por negar-se a aceitar as reformas conciliares.

Quando criança, assisti a muitas missas em latim, com o celebrante de costas aos fiéis, segundo o rito tridentino de meu co-irmão, o papa Pio V, que foi dominicano. Por que permitir a volta ao latim? Quantos fiéis dominam este idioma? Jesus não falava latim. Falava aramaico. Talvez algo de hebraico. E por viver em uma região dominada por Roma, é certo que conhecia alguns vocábulos latinos, como a saudação romana ‘Ave!’, que foi introduzida na oração mais popular do catolicismo, a Ave Maria.

Assim como o grego se universalizou através do Mediterrâneo, graças às campanhas de Alexandre, o Grande, o latim se propagou através das conquistas do Império Romano. Segundo esta lógica, não seria mais adequado adotar hoje em dia o inglês?

Pois bem, a grande maioria dos fiéis católicos encontra-se atualmente na América Latina. E não entende grego, nem latim, nem inglês. Não seria aconselhável que participassem da missa em sua língua natal?

Considerando o empenho de inculturação da Igreja, não é contraditório voltar a missa em latim? Tenho um amigo, ateu até a medula, que gosta muito de assistir a missas em latim. Para ele a liturgia se reduz a um espetáculo, quanto mais glamoroso, melhor. É uam questão de estética, não de uma ponte comunitária entre o nosso coração sedento e o Transcendente. Me inquieta sua (do Papa) afirmação de é "uma praga" casar-se pela segunda vez e proibir aos católicos o acesso à eucaristia. Os evangelhos ensinam que Jesus comungou com pessoas que, vistas daqui e agora, estavam longe da moral vaticana. E defendeu uma mulher adúltera que ia ser apedrejada pelos moralistas da época. Curou a hemorragia de uma mulher da Cananéia sem exigir previamente a adesão dela à fé que pregava. Curou também um servo de um centurião romano sem lhe impor antes a obrigação de repudiar aos deuses pagãos. Jesus fez o bem, sem olhar a quem.

Tenho amigos e amigas que casaram pela segunda vez. Todos por razões muito sérias, que seriam melhor compreendidas por sacerdotes e bispos se estes, como acontecia na Igreja primitiva, tivessem mulher e filhos. (Convém lembrar que Jesus escolheu homens casados para apóstolos, posto que curou a sogra de Pedro).

Contrair matrimônio é algo tão importante que a Igreja fez dele um sacramento. Acontece que, antes de ser uma instituição, o matrimônio é um ato de amor. E há uniões que fracassam, pois todos somos frágeis e pecadores, e nossas opções, sujeitas a chuvas e tempestades, deveriam merecer a misericordiosa compreensão da Igreja.

Tenho amigos e amigas divorciados que reconstruíram suas relações afetivas e se negam a acatar a proibição de comungar.Minha amiga D., três meses depois do matrimônio sufreu com seu marido um grave acidente de trânsito. Ele ficou tetraplégico. Dois anos depois, com a concordância dele, ela contraiu uma nova relação, uma vez que escutou o homem com quem se havia casado na Igreja dizer: "Porque te amo, quero ver-te plenamente realizada como mulher e mãe". Ela e seu novo esposo visitavam periódicamente o homem acidentado, que sobreviveu sete anos e foi o padrinho do primeiro filho do casal. Devo dizer a essa amiga que Deus, que é Amor, não está em comunhão com ela e que, portanto, trate de ficar distante da mesa eucarística, pois a Igreja a considera "uma praga"?

Certa noite, me encontrava na Boca do Acre, em plena selva amazônica, numa celebração em uma comunidade eclesial de base. Dona Raimunda, mãe de seis filhos, cujo marido havia ido para a Transamazônica em busca de trabalho e onde ficou quatro anos sem dar sinais de vida (e ela soube que ele havia constituído outra família lá) - disse na missa, no momento da oração dos fiéis: "Quero agradecer a Deus por haver me dado outro marido, que é um pai bondoso para meus filhos". Dona Raimunda se uniu a outro homem que a ajudava na sobrevivência e na educação dos filhos em uma situação de extrema penúria. Deveria dizer a ela que não se aproximasse da mesa eucarística? Naquele mesmo momento, o Papa Paulo VI, em visita ao Chile, dava a comunhão ao general Pinochet.

Querido papa: leio na primeira Carta de João que "Deus é Amor. Quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus permanece nele" (4,16). Essas pessoas que citei, e tantas outras que conheço, amam e portanto Deus permanece nelas. Devo advertí-las que não são amadas pela Igreja e que, por isso mesmo, estão proibidas de receber o pão e o vinho transubstanciados no corpo e no sangue de Jesus, o Senhor da compaixão e da misericórdia?

* Frei Betto, frade dominicano. Escritor.

Mundo: Sombras da Inquisição

Hoje é um dia triste para mim. Dói no fundo do meu coração, no âmago de minha fé cristã. O papa Bento XVI, às vésperas de sua primeira viagem à América Latina, faz um gesto que imprime um gosto amargo às boas-vindas: condena o teólogo jesuíta Jon Sobrino, de El Salvador.
Conheço Sobrino de longa data. Estivemos assessorando os bispos latino-americanos em Puebla, em 1979, por ocasião da primeira visita do papa João Paulo II ao nosso Continente. Participamos juntos de muitos eventos, empenhados em nutrir a fé das Comunidades Eclesiais de Base que, hoje, fazem da América Latina a região com o maior número de católicos no mundo.

Sobrino é acusado de, em suas obras teológicas, não dar suficiente ênfase à consciência divina do Jesus histórico. Fica, pois, proibido de dar aulas de teologia, e todos os seus futuros escritos devem ser submetidos à censura vaticana.

O parecer condenatório da comissão da Congregação da Doutrina da Fé, ex-Santo Ofício, parte, sem dúvida, de preconceitos. A leitura atenta das obras de Sobrino revela que, em nenhum momento, ele nega a divindade de Jesus. Nega é o docetismo, heresia já condenada pela Igreja nos primeiros séculos da era cristã, baseada na idéia de que Jesus, de humano, só tinha a aparência, em tudo mais era divino. O que faria da encarnação um embuste e daria asas à fantasia de que, ali na Palestina do século I, o homem Jesus, dotado de onisciência, poderia muito bem ter a antevisão do atual conflito entre palestinos e judeus…

Os evangelhos mostram claramente que Jesus tinha consciência de sua filiação divina. Ao contrário de seus contemporâneos, tratava Javé de modo muito íntimo, carinhoso: Abba, ‘meu pai querido’, uma das raras expressões aramaicas - a língua que Jesus falava - a constar do texto bíblico. Contudo, esses mesmos evangelhos mostram que Jesus, como todos nós, sofreu tentações, teve medo da morte, chorou, experimentou a solidão, pediu ao Pai para, se possível, afastá-lo do cálice de sangue. Ou seja, em tudo foi igual a nós, como afirma Paulo na Carta aos Filipenses, exceto no pecado, pois amava assim como só Deus ama.

Roma, sem dúvida, ainda padece do platonismo impregnado na teologia liberal desde Santo Agostinho. Fala da divindade como se fosse contrária à humanidade. A Criação divina é indivisível. Como diz Paulo, "nele (Deus) vivemos, nos movemos e existimos" (Atos dos Apóstolos 17, 28).

Bem diz Leonardo Boff ao referir-se a Jesus: "Humano assim como ele foi, só podia ser Deus mesmo". A nossa humanidade não é a negação da divindade, assim como não o era a de Jesus. A divindade é a plenitude da humanidade e esta, o prenúncio daquela. "Somos da raça divina", afirmou Paulo aos atenienses (Atos dos Apóstolos 17, 28).

Roma, que tanto lida com símbolos, parece desprezar a América Latina ao ignorar que Jon Sobrino vive em El Salvador, cujo arcebispo, dom Oscar Romero, foi assassinado pelas forças de direita ao celebrar missa na catedral, em 1980. No próximo dia 24 comemoram-se 27 anos de seu martírio. Sobrino mora en San Salvador, na mesma casa na qual, em 1989, quatro padres jesuítas, mais a cozinheira e sua filha de 15 anos, foram assassinados pelo Esquadrão da Morte.

Como renovar a Igreja Católica se suas melhores cabeças estão sob a guilhotina de quem enxerga heresia onde há fidelidade do Espírito Santo?: Hans Kung em 1975 e 1980; Jacques Pohier em 1979; Schillebeeckx em 1980, 1984 e 1986; Leonardo Boff em 1985; Charles Curran em 1986; Tissa Balasuriya, em 1997; Anthony de Mello, em 1998; Reinhard Messner, em 2000; Jacques Dupuis e Marciano Vidal, em 2001; Roger Haight, em 2004. Nenhum deles, porém, foi excomungado como apregoam os fundamentalistas católicos.

O que está por trás da censura a Sobrino é a visão latino-americana de um Jesus que não é branco nem tem olhos azuis. Um Jesus indígena, negro, moreno, migrante; Jesus mulher, marginalizado, excluído. Aquele Jesus descrito no capítulo 25 de Mateus: faminto, sedento, maltrapilho, enfermo, peregrino. Jesus que se identifica com os condenados da Terra e dirá a todos que, frente a tanta miséria, se portam como o bom samaritano: "O que vocês fizeram a um dos menores de meus irmãos, a mim o fizeram" (Mateus 25, 40).

* Frei Betto, frade dominicano. Escritor.

7 de mar. de 2007

Posição da Via Campesina sobre o agro-combustível


Caros amigos e amigas do MST,

O MST esteve em Mali, na África, como parte de uma delegação de 12 representantes de movimentos camponeses e entidades ambientalistas brasileiras, somando-se aos mais de 600 dirigentes de todos os continentes, além de cientistas, ambientalistas, militantes do movimento de mulheres e de diversas outras organizações e entidades, para debater os problemas relacionados à defesa da soberania alimentar em cada país.

Aprofundou-se no Fórum Mundial Pela Soberania Alimentar o debate sobre a necessidade de os movimentos sociais em todo o mundo priorizarem a luta em defesa da produção de alimentos e da soberania alimentar de cada povo. Essa luta envolve também um combate amplo à ofensiva do capital internacional sobre o campo, principalmente na questão do controle dos agro-combustíveis.

Isso porque há uma aliança que unificou os interesses de três grandes setores do capital internacional: a) as empresas petroleiras; b) as corporações transnacionais que controlam o comércio agrícola e as sementes transgênicas c) e as empresas automobilísticas. O único objetivo é manter o atual padrão de consumo do primeiro mundo e as altas taxas de lucro de suas empresas transnacionais.

1. Objetivo das transnacionais e do presidente Bush:

Convencer os governos do hemisfério sul a utilizarem seu território na produção de energia, a partir de produtos agrícolas, com o objetivo de manter o padrão de consumo do “american way of life” no primeiro mundo. A energia vegetal que está dentro dos grãos, na forma de óleo, ou de árvores, é na verdade uma metamorfose agro-química da energia solar. Depois, através do óleo vegetal ou do álcool, se transforma em combustível.

Por isso eles precisam dos países do sul, de maior incidência anual da energia solar e que ainda possuem áreas de terra agricultáveis disponíveis para produção de vegetais oleaginosos como girassol, milho, soja, amendoim, feijão-manso, palma africana ou dendê, ou para produção de álcool a partir da cana-de-açúcar, do milho e de árvores.

Por outro lado, querem impor a produção em monocultivo e, no caso da soja e milho, combinar com sementes transgênicas, o que lhes garantiria um mercado de sementes, de agrotóxicos e ainda a cobrança de royalties para suas empresas transnacionais.

Eles querem apenas lucro e não se importam com a situação do meio ambiente, o aquecimento global e com a vida dos trabalhadores rurais. Resolveram fazer essa ofensiva na produção de energia renovável, para se livrar da dependência de importar petróleo de países agora com governos nacionalistas, como Venezuela e Irã.

Além disso, existe hoje uma enorme instabilidade política na Nigéria, Angola e Arábia Saudita que também são fornecedores dos Estados Unidos e da Europa. Sem falar do fracasso da invasão do Iraque, que também é fornecedor desse combustível.

2. Posição dos movimentos camponeses em todo mundo:

Não podemos chamar esse programa de biocombustível e muito menos de biodiesel. A expressão “bio” que relaciona energia à vida, de forma genérica, é uma clara manipulação de um conceito que não existe. Devemos adotar sim, em todos os idiomas, o conceito de agro-combustíveis. Ou seja, energia gerada a partir de produtos vegetais oriundos da produção agrícola. Embora reconheçamos que o prefixo agro, ainda é muito genérico, e nossos cientistas estão estudando um novo conceito mais preciso.

Concordamos que o uso de agro-combustível é mais adequado para o meio ambiente do que o petróleo. No entanto, ele não afeta a essência do problema da humanidade, que é a atual matriz energética e de transporte, baseado no uso de veículos individuais. Defendemos a substituição radical da atual forma consumista e poluente de transporte individual, pelo transporte coletivo, através de trens, metros, bicicletas, etc.

Não aceitamos que esse plano use produtos agrícolas destinados atualmente à alimentação humana, como milho, soja, girassol, etc., para transformá-los em energia para automóvel.

Mesmo no caso da produção necessário do agro-combustível, devemos produzi-lo de uma forma sustentável. Ou seja, combatemos o atual modelo neoliberal de produção em grandes fazendas e na forma de monocultivo desses produtos. O monocultivo em grande escala é prejudicial ao meio ambiente e expulsa mão-de-obra do campo.

A monocultura afeta o aquecimento do planeta, pois destrói a biodiversidade e impede que a água e a umidade das chuvas se mantenham em equilíbrio com a produção agrícola. Além disso, faz uso intenso de agrotóxicos e máquinas.

Podemos produzir energia, combustível, a partir de produtos agrícolas, porém cultivados de forma sustentável, em pequenas e médias dimensões, que não desequilibrem o meio ambiente e que representem uma maior autonomia dos camponeses no controle da energia e no abastecimento das cidades.

Condenamos veementemente a iniciativa do governo de George W. Bush, que nos próximos dias visita os governos do Brasil, Colômbia, Guatemala para cooptá-los e seduzi-los a multiplicarem a produção de álcool para exportarem aos Estados Unidos.

Em troca, os capitalistas estadunidenses dos três grandes setores do capital exigem o direito de comprar e/ou instalar dezenas de novas usinas de álcool em todo o continente, sendo que propuseram a construção de 100 novas usinas apenas no Brasil.

Para viabilizar esse plano, o governo Bush propõe que se crie uma nova mercadoria internacional, uma “commoditie energética” do álcool, que não seria considerada agrícola para fugir das atuais normas da Organização Mundial do Comercio (OMC).

A Casa Branca propõe também que Brasil, Índia e África do Sul, entre outros, negociem um novo padrão tecnológico comum, para o etanol, seja de milho, de cana ou de árvores. Assim, haveria uma fórmula aceita internacionalmente, formando uma nova Opep de energia agrícola para controlar o comércio mundial.

Um possível sucesso desse plano estadunidense seria uma tragédia para agricultura tropical, transformaria grandes extensões de nossas melhores terras em imensos monocultivos, eliminaria ainda mais a biodiversidade e a produção de alimentos, apenas para abastecer seus carros. Expulsaria milhões de trabalhadores do campo em todo mundo, que se amontoariam ainda mais nas favelas das metrópoles.

O debate e a luta estão apenas iniciando. Esperamos que as organizações sociais possam reagir e que os meios de comunicação possam informar sobre essas questões, que são fundamentais para o futuro de nossos povos.

Por isso, durante as atividades do dia 08 de Março, as mulheres trabalhadoras do campo e da cidade levantam a bandeira da “Luta por Soberania Alimentar, Contra o Agronegócio”, contra as transnacionais que atuam no campo e em defesa dos trabalhadores e da biodiversidade. Soma-se a pauta, o fato de o representante maior do imperialismo, o senhor George W. Bush, desembarcar em território brasileiro nos próximos dias, fomentando ainda mais a luta contra o neoliberalismo.

Secretaria Nacional do MST.

6 de mar. de 2007

As dores do parto da humanidade


Em vários países dos cinco continentes, os povos vivem um ambiente de ressaca pós-eleitoral. Para nós, brasileiros, que dispomos apenas notícias geradas por agências internacionais do Ocidente, é difícil avaliar o resultado das eleições do domingo passado no Afeganistão, nas regionais da Venezuela e no Uruguai que, pela primeira vez na história, terá um presidente, até aqui considerado de esquerda.

A derrota do PT em São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e Goiânia permite reações divergentes, de acordo com a ótica ideológica de quem faz a análise. Os iraquianos nem tiveram tempo de viver a ressaca dos norte-americanos, sofridos com o mecanismo autoritário e pouco democrático do império. Menos de uma semana depois de reeleito, Bush já ordenou novos bombardeios sobre Faluja (Iraque) e declarou aos cubanos yankees de Miami que o próximo passo é "libertar" Cuba. Isso provocou reações dos presidentes latino-americanos reunidos no Rio de Janeiro e do presidente Chirac, eleito na França como homem de "direita". Com a mesma discrepância de visões, o mundo assiste ao que parece ser a partida definitiva de Iasser Arafat. Este homem, desde jovem, obteve o respeito da ONU e de personalidades tão diferentes como o presidente Carter, o papa João Paulo II e a comissão internacional que o considerou digno de receber o prêmio Nobel da Paz, por sua vida totalmente dedicada à sobrevivência do seu povo e pela coragem com que, durante anos, arriscou a vida até conseguir o mínimo reconhecimento do Estado Palestino. Até hoje, sem terra e sem ver respeitados os justos direitos de autonomia política e liberdade, o Estado Palestino ainda é um sonho a ser conquistado pela humanidade.

Um jovem leitor do "O Popular" escreveu perguntando: "Diante da permanente vitória do dinheiro e da discreta ou indiscreta corrupção e aliciamento do povo mais pobre e menos informado, como manter a esperança de transformar este mundo injusto?".

Neste espaço, procuro, semanalmente, conversar com os leitores como irmão em humanidade, e não a partir de algum título religioso que não seria compreensível a todos. Não acredito que a nossa esperança de transformação da história possa se basear em uma mera análise objetiva da realidade do mundo. Este estudo sociológico e político é importante e tem de ser permanentemente refeito para evitar ilusões vazias e decepções terríveis. Mas não basta para fortalecer a esperança. A Bíblia diz, sobre o patriarca Abraão, que ele "esperou contra toda esperança". Creio que a confiança que podemos sempre acalentar de um mundo melhor e mais justo nasce da certeza da força do amor, presente em cada ser humano. Apesar de tudo, esta capacidade humana de amar nunca está totalmente ausente das estruturas do mundo. Em meio a muita gente que perdeu sua humanidade ou a vende por um bom dinheiro, há sempre pessoas que se mantêm fiéis ao que o livro do Apocalipse chama de "primeiro amor da sua juventude"; ou seja, a sua coerência fundamental. É a experiência que sempre tenho, por exemplo, cada vez que encontro o professor Pedro Wilson, desde que o - atual prefeito de Goiânia, pelo PT e derrotado nestas eleições pelo "coronel" Íris Rezende do PMDB - conheci e tive o privilégio de ser seu professor de Bíblia, nos idos de 70, no curso de teologia para leigos da arquidiocese de Goiânia. Atrevo-me a dar aqui este testemunho porque nem sou eleitor de Goiânia. Nesta caminhada que ele e tantos de nós fazemos em comum por "uma terra nova e um céu novo", aprendemos que o "Reino de Deus" da Bíblia, é o que a maioria da humanidade aprendeu a reconhecer como "utopia".

Em um conto de Eduardo Galeano, li o diálogo:

- Você está sempre no horizonte, disse Fernando Birri. Quando eu consigo me aproximar de você, dando dois passos à frente, você parece que também dá dois passos à frente e se mantém longe. Faço um esforço enorme e caminho dez passos, mas o horizonte se desloca, ao mesmo tempo, dez passos. Parece que, por mais que eu caminhe, nunca chegarei onde você está. Para que serve, então, a utopia?

- Serve, justamente, para isso: estimular você a caminhar.

Esta força que chamamos de "utopia", no plano da fé, pode-se denominar "mística do Reino de Deus": o alimento para as nossas mais radicais esperanças de transformação do mundo e de nós mesmos.

Em sua época, o filósofo judeu Emanuel Levinas se perguntava: "Como sair deste grande Auschwitz cultural no qual o mundo tem se transformado?" (Auschwitz foi um dos piores campos de extermínio, perpretado pelos nazistas contra judeus, comunistas e homossexuais). Se o mestre Levinas tivesse vivido na América Latina, na Palestina ou na África, teria sabido que, infelizmente, este permanente Auschwitz não é só cultural, mas se traduz no apartheid econômico e social. É humano.

Todo mundo lamenta que exista tanta gente vivendo abaixo da linha da pobreza, mas, no fundo, muitos consideram isso "natural"? A própria ONU faz planos para erradicar a miséria, mas prometem apenas reduzir a pobreza 50% (como se bastasse) e isso mesmo a partir de 2.015. A intuição fundamental de Levinas é que só se encontrará saída para esta desorganização estrutural do mundo se para nós a prioridade for a humanidade e a dignidade do outro. Muitos poderosos e líderes da sociedade civil aceitam que a extrema pobreza continue existindo. No fundo, pensam em si mesmos e não no outro como prioridade de sua vida.

Muitos católicos e evangélicos não percebem que o desrespeito aos diretos humanos, sofrido por uma única pessoa, atenta mais contra o plano de Deus do que todas as regras moralistas que eles, em nome de Jesus, inventam para suas Igrejas.

Tanto para o mundo como para cada um de nós, só existe salvação a partir do encontro com o rosto e a realidade do outro. Esta utopia podemos viver desde já. Ela faz com que, ainda se sofremos as mais duras derrotas, elas não nos provocarão ressaca de lutar, porque as receberemos, não como frutos do acaso, e sim como dores de parto de uma humanidade nova.

Irmão Marcelo Barros, Monge beneditino e autor de 26 livros.

5 de mar. de 2007

Superar o machismo e protagonizar a mulher


No dia 08 de março o mundo comemora o Dia Internacional da Mulher. Muitos e muitas também estarão refletindo este evento tão necessário, tão sublime nesta data que considero ser um momento especial para relembrarmos do valor e da resistência ativa e profética das mulheres em nossa sociedade. Esta reflexão quer ser mais uma das tantas que foram escritas para identificar o papel importante das mulheres na sociedade que ainda buscam os espaços necessários para uma real efetivação enquanto protagonistas de uma história marcada por dores e cruzes.

Desde que as sociedades humanas passaram do período neolítico para o paleolítico, as mulheres tornaram-se uma espécie de extensão dos homens. Nisso muito contribuiu a formulação de doutrinas religiosas que exterminaram os direitos básicos de toda e qualquer mulher. A mulher nem sempre foi tratada na história da humanidade como submissa do homem. Em algumas sociedades, a mulher exercia o caráter matriarcal de defender a comunidade e a tribo, o que nos faz refletir que existiram momentos onde a mulher exercia a chefia da comunidade. Mas, com o tempo e, principalmente, com o início das religiões monoteístas, as sociedades passaram a identificar a semelhança entre Deus (Ser Divino) com o homem-masculino (Ser humano). O papel da mulher é então reduzido ao ato da procriação. Podemos perceber este dado histórico a partir de duas características fundamentais, a saber: a visão da mulher na religião judaica (principalmente, com a criação do Código das Leis) e depois no cristianismo, bem como a visão da mulher nos escritos gregos antigos, onde filósofos como Platão e Aristóteles, entendem que a mulher, o escravo e as crianças são como extensões do senhor (pai), sendo o senhor o único considerado cidadão da polis pela sociedade.

São essas duas visões que permanecem na história e que se tornaram presentes no inconsciente popular. Por um lado, a religião que sempre viu a mulher como símbolo da tentação (a Eva que tenta Adão a comer o fruto do paraíso), associada à serpente que tenta o homem em seus mais íntimos desejos. A mulher, bem antes da era cristã, durante toda a Idade Média, até metade do século XX, não havia conquistado seu espaço de direito na sociedade. O Dia Internacional da Mulher foi promulgado diante das atrocidades cometidas contras as operárias nos Estados Unidos e na Europa e com a morte de algumas centenas. Penso que outros e outras já tenham escrito sobre a história do porquê dessa data.

Durante este período histórico onde o papel da mulher era o de formar uma família para seu senhor e de ser procriadora de filhos (as) o homem exercia o seu poder de mandatário na sociedade, na família e nas instituições religiosas. Ainda temos situações onde a Mulher não conseguiu seu espaço, não conseguiu penetrar para ser também protagonista e sujeita da história. Mas todas se calaram? Não, sempre surgiram vozes no deserto. De Maria a Joana D’Arc, de Edith Stein a Rigoberta Menchú, de Margarida Alves a Irmã Dorothy Stang entre muitas outras que na história ousaram enfrentar o poder absolutista de homens caídos na cegueira e na paralisia de um mundo machista.

Hoje, ainda temos muito a conquistar. Ontem, dia 07 de março, o MST ocupou o INCRA em Goiânia. Muitas mulheres estão ali. Algumas conhecemos dos acampamentos e assentamentos nos quais desenvolvemos atividades da Comissão Pastoral da Terra. Uma das ocupações realizadas no dia de hoje no estado de Goiás foi realizado por uma frente de Mulheres Camponesas que estão reivindicando terra e mais dignidade nos assentamentos já estabelecidos.

Recentemente conheci muitas companheiras mulheres de luta, de fibra, de garra. A Dalva, mãe de Patrícia e do Paulo e de mais dois meninos pequenos (sementes de um novo tempo), uma potiguar que luta para criar seus quatro filhos sozinhos, sem ajuda de ninguém, a não ser dos companheiros (as) de acampamento. A Cida, militante, guerreira, coordenadora do Setor Educação no Pré-Assentamento “Gustavo Martins” em São Miguel do Araguaia, que mesmo nas dificuldades do dia-a-dia consegue encontrar forças para ajudar a todos e todas sem distinção e hoje está no INCRA nesta profética ocupação do MST. Irmã Socorro, religiosa, humilde, educadora a partir dos saberes populares, líder e mestra da Pastoral da Criança, exemplo de vida e dedicação para com os excluídos (as), uma semente viva do jeito de ser das nossas Comunidades Eclesiais de Base. Seu sorriso nos cativa e seu choro nos emociona, sua alegria nos dá esperança e sua tristeza nos faz pensar sempre nos pequenos e desprotegidos da sociedade. Dona Ana, que conheci há uma semana do P.A. (Projeto de Assentamento) Campo Alegre, católica, mãe, assentada, rezadeira, uma flor da esperança aos mais jovens. Seu acolhimento de mulher nos ensina sempre. Enfim, muitas outras, que também passam pela vida da gente e deixa o seu olhar, a esperança de um mundo diferente. E como não falar de uma jovem bela mulher chamada Sulamita, filha de mãe sem-terra, recém-chegada em terras do Araguaia, cantora, tocadora de violão, alegre, sorriso jovial, com um rosto de menina já sofreu fortes depressões diante da perda da visão que a cada dia vai aos poucos a deixando uma “deficiente visual”, mas, jamais incapacitada de exercer aquilo que mais gosta, cantar, cantar e cantar a beleza da vida. Tornou-se uma companheira de vida nas andanças missionárias pelos Assentamentos e comunidades rurais. Um símbolo de resistência que nos diz e ensina que a vida se enxerga em atos concretos do cotidiano como bem afirma a CF 2006.

Sabemos que o Dia Internacional das Mulheres não esgota a comemoração e a importância da Mulher num único dia. Todos os dias são dias dedicados às mulheres e também aos homens. Em 1989, a Campanha da Fraternidade refletia acerca da Mulher e do Homem como imagens vivas de Deus, o Deus da Vida. O Dia 08 de março representa ainda a busca por respeito, dignidade e igualdade de relações humanas entre o homem e a mulher. Ainda não conseguimos superar o espírito do machismo presente em muitos setores da sociedade e que parecem não querer ver e enxergar que os tempos são outros, os tempos mudaram.

Na família, deve-se superar o espírito patriarcal e estimular a relação fraterna entre o pai e a mãe, o homem e a mulher, o filho e a filha. Na sociedade, a mulher deve ser respeitada enquanto cidadã que também se encontra excluída de um sistema que promove relações machistas de poder. Isso pode ser verificado na baixa quantidade de mulheres no exercício do poder e no tratamento às mulheres como sendo objetos descartáveis de prazer sexual para os homens o que aumenta consideravelmente a prostituição infantil, juvenil e feminina tornando a mulher marginalizada neste sistema. E, também, na Igreja, onde ainda se mantêm relações ambíguas entre homens e mulheres onde o exercício dos ministérios se afirma na figura do religioso homem. Pierre Bordieu, sociólogo francês, já alertava na década de 70 acerca dessas relações que acabam construindo imaginários simbólicos na mentalidade popular que passa a ver a mulher como não-sagrado e que o homem, por exercer o ofício sagrado, torna-se o único e legítimo representante de Deus Pai, pois até mesmo Ele é identificado enquanto ser masculino. Evidentemente, temos avanços, mas outros se tornam necessários diante do tempo histórico em que vivemos. Na verdade, precisamos reencontrar o equilíbrio dialógico entre o ser masculino e o ser feminino.

O Dia da Mulher quer ser o dia de repensar a caminhada social, política, cultural, econômica e religiosa dessa sociedade que apresenta algumas pequenas mudanças no cenário das questões de gênero, mas que continua sacralizando o Macho enquanto expressão de um Poder Totalitário o que contribui para a formação de uma sociedade desigual. A mulher não pode ser vista somente como símbolo de desejo, de procriação e uma submissa ao poder do homem. As mulheres continuam sendo chamadas a romperem com todas as formas de correntes que as aprisionam e as tornam objetos de prazer, de escravas do lar, do trabalho sem dignidade etc. Sem dúvida, a meta continua sendo superar o machismo em todas as esferas da sociedade e protagonizar as mulheres enquanto sujeitas de uma história escrita há muito tempo por elas, mas que não é contada, pois se trata de um conto a partir das dominadas. Que o conto se torne canto, encanto e profecia.

Claudemiro Godoy do Nascimento

4 de mar. de 2007

Teologia da Libertação: sempre ativa


O 4º. encontro nacional do Movimento Fé e Política ocorrerá em Londrina (PR), no primeiro fim de semana de dezembro, dias 4 e 5. O tema, "Utopias da fé, realidades da política". Entre os palestrantes estarão Leonardo Boff, dom Tomás Balduíno, Patrus Ananias, João Pedro Stédile e Gilberto Carvalho.

O primeiro encontro, em dezembro de 2000, reuniu em Santo André (SP) 3 mil participantes. O segundo, em março de 2002, atraiu a Poços de Caldas (MG) 4,5 mil militantes. O terceiro, ano passado, contou com a presença de 7 mil pessoas em Goiânia.

O Movimento Nacional Fé e Política visa propiciar aos cristãos engajados na política, como detentores de mandatos ou não, um espaço de reflexão de suas atividades à luz da fé, dos valores evangélicos e dos desafios dessa realidade marcada pela crescente pobreza. Mais informações e inscrições: mov.fepolitica@uol.com.br ou feepolitica@feepolitica.com.br tel: (43) 3356-0033.

Outro evento importante será o Fórum Mundial de Teologia e Libertação, que se reunirá em Porto Alegre (RS) de 21 a 25 de janeiro de 2005, semana anterior ao Fórum Social Mundial. Mais de 200 teólogos dos cinco continentes estarão debatendo a proposta de "outro mundo possível" a partir da experiência da fé e da reflexão teológica. Apesar de vozes em contrário, a Teologia da Libertação permanece viva, pois infelizmente seu pólo de sustentação se dilata: a pobreza que ameaça 2/3 da população mundial. Temas que apenas os teólogos da libertação abordavam há vinte anos - como caráter da globalização, dívida externa, neocolonialismo etc. - hoje são freqüentes nos pronunciamentos do papa sobre questões sociais.

O evento de Porto Alegre terá como objetivo revelar que, em todo o mundo, comunidades pobres, fortalecidas pela fé, prosseguem lutando por libertação, suscitando novos desafios à teologia e à política. Nessa época em que o Planeta se transformou numa pequena aldeia, graças aos meios de comunicação, já não se esperam parciais libertações geográficas. Agora estamos todos num único sistema, o capitalismo neoliberal, sob a hegemonia de uma única potência, os EUA. Ou nos salvamos todos ou ficamos todos submetidos ao jogo cruel da acumulação privada do capital.

Se a libertação tem que ser mundial, a teologia também precisa estar internacionalmente articulada. Até porque a fé dos povos se expressa em categorias distintas e, muitas vezes, antagônicas em seus significados, o que permite fazer da religião também um meio de opressão. Não se trata, porém, de pretender uma única visão religiosa globalizada, e sim de intensificar o diálogo inter-religioso, de modo a explicitar o potencial libertador das diferentes matrizes religiosas. Por isso, o Fórum Mundial de Teologia e Libertação será macroecumênico.

O evento terá dois momentos distintos. O primeiro, uma apresentação de como andam os movimentos libertadores e a Teologia da Libertação nas diferentes regiões dos cinco continentes. Isso implica teologias feministas, indígenas, afro-americanas, ecológicas etc. Assim, os participantes deverão apresentar breve balanço dos movimentos de libertação e da reflexão teológica em suas respectivas regiões; os diferentes enfoques teológicos (gênero, etnia, cultura, político-econômico, diálogo inter-religioso etc.); implicações das práticas teológicas (sujeitos, crises, dificuldades etc); informações sobre as comunidades que produzem teologia; e as perspectivas globais apontadas pelas variadas óticas teológicas.

O segundo momento será de adequação do tema geral do FSM, "outro mundo é possível", à esfera teológica, centrada em quatro temas: 1) Outro mundo é possível (análise da conjuntura global); desafios do mundo atual à teologia; o lugar e a possibilidade da utopia hoje; 2) Deus para outro mundo possível (linguagens e imagens sobre Deus; Deus e gênero; Deus, tradições etnoculturais e universalização); 3) Religião para outro mundo possível (crises das religiões, busca de fundamento e fundamentalismo); religião e mercado; religião e poder político; Teologia para outro mundo possível (o Deus de todos os nomes e o diálogo inter-religioso); por uma ética mundial; o lugar da teologia em outro mundo possível.

Informações e inscrições: www.pucrs.br/pastoral/fmtl ; e-mail: fmtl@pucrs.br
E de 19 a 23 de julho de 2005, teremos em Ipatinga (MG) o 11º. Encontro nacional (intereclesial) das Comunidades Eclesiais de Base. O tema é "Espiritualidade libertadora" e o lema "Seguir Jesus no compromisso com os excluídos". Toda essa agenda demonstra que a Teologia da Libertação permanece viva e ativa.

Frei Betto, dominicano. Escritor.

3 de mar. de 2007

Ressuscitamos na luta


Brasil - Lutar por direitos é defender a vida!

"Nem o tempo, amigo,
Nem a força bruta
Pode um sonho apagar...
Quem perdeu o trem
Da história por querer,
Saiu do juízo sem saber...
Foi mais um covarde
A se esconder, oh!
Minha estrela amiga,
Porque você não fez a
Bala parar...?"

A Pastoral Operária em nível nacional iniciou em 1º de maio, uma jornada de luta de um ano.
Ela terá como sintonia o eixo articulador Uma Nova Cultura do Trabalho e realizará várias atividades conjuntamente com as dioceses do Brasil. Uma dessas atividades será no dia 30 de outubro de 2004, em que estaremos celebrando os 25 anos do martírio do operário Santo Dias da Silva.

Santo foi assassinado em frente a Fábrica SYLVANIA, numa tarde de 1979. Para todos/as aqueles/as que lutam de forma incondicional em defesa da vida, Santo representa toda a mística e o compromisso para com o sofrimento dos/as trabalhadores/as urbanos.

Neste momento histórico da atualidade brasileira, ao celebrarmos a memória do companheiro Santo Dias, possibilitará também, desafiar o conjunto das organizações dos/as trabalhadores/as a refletir sobre suas estratégias de ações na conjuntura atual, a partir de três aspectos fundamentais da militância de Santo Dias e do período em que foi assassinado:

1. Santo foi assassinado porque estava defendendo os direitos e melhores condições de trabalho.

2. Santo Dias não trabalhava na fábrica SYLVANIA, mas naquela tarde de 1979, movido pela paixão e o amor à luta e principalmente pela solidariedade classista, estava lá, o operário, estava lá presente até as últimas conseqüências doando a própria vida.

3. Em 1979, quando Santo foi assassinado, o sindicalismo brasileiro estava ressurgindo, com avanços e vitórias, apesar das perseguições e ausências de democracia, em plena ditadura militar, um novo sindicalismo começava a retomar o seu caminho.

Na conjuntura nacional, diante da crise, a classe dominante tenta de todas as formas recuperar suas margens de lucro. Para isso, buscam retornar ao início do capitalismo em que os patrões faziam o que queriam com os/as trabalhadores/as, a exemplo da reforma sindical e trabalhista, que estará tramitando no Congresso Nacional no próximo ano. Essas reformas têm como objetivo central, flexibilizar os direitos trabalhistas, esvaziar e enfraquecer os sindicatos como interlocutores na relação capital e trabalho.

A exemplo de Santo Dias, as organizações dos/as trabalhadores/as precisam estar preparadas para o enfrentamento destes desafios com uma nova pedagogia das lutas. O movimento sindical e as centrais sindicais precisam sair do imobilismo e da burocratização. Entender que a grande maioria dos/as trabalhadores/as estão fora das fábricas e vivem aguçando o seu sofrimento nos bairros da periferia. Assim como Santo foi presença ativa, o movimento sindical também precisa estar inserido nessa nova civilização de trabalhadores/as, para acolher, escutar e criar espaços em que os mesmos possam também interpretar a realidade e serem protagonistas. O movimento sindical precisa tomar consciência dessa nova realidade ou correrá o risco de se tornar desnecessário para a história.

Outro aspecto, Santo não viveu suficiente para ver o partido dos/as trabalhadores/as, mas se estivesse vivo, com certeza estaria bastante triste com a dinâmica de ação do partido, que vive preso ao calendário eleitoral deixando as lutas populares dispersas e sem nenhuma perspectiva política, resumindo a democracia meramente pelo simples fato das pessoas participarem de um processo eleitoral. Assim como Santo Dias que foi até as últimas conseqüências na luta pela democracia em plena ditadura, os partidos também precisam radicalizar a democracia, afinal, em pleno desenvolvimento técnico científico com imensa produção de bens socialmente produzidos na sociedade, pensar a democracia nessa realidade é possibilitar também que as pessoas possam participar e usufruir desta riqueza. Para isso, será necessário uma nova reengenharia partidária com uma nova cultura política.

Por último, Santo Dias movido pela solidariedade, sempre estava presente na luta. A solidariedade é um valor fundamental, porém, cada vez mais é distanciada do cotidiano das organizações dos/as trabalhadores/as que se fecham e departamentalizam suas ações e não se dão conta que perder a solidariedade é perder o rumo da história, afinal, a solidariedade é um valor fundamental na vida de homens e mulheres que assumem o compromisso de estar presente na dor e no sofrimento do povo.

A Pastoral Operária Nacional, nesta jornada de um ano, ao lembrar a militância de Santo Dias da Silva, em que completa seus 25 anos de martírio, quer convocar homens e mulheres da PO das Dioceses do Brasil, para termos ousadia no enfrentamento da realidade brasileira, desenferrujar as nossas ações, fugir da mesmice, oxigenar as mentes e apaixonar os corações da militância, resgatar o trabalho de base e construir novos caminhos.

Onde está Santo Dias?

À pergunta que merece profunda reflexão, ousamos responder que o exemplo e a presença de Santo Dias da Silva estão por todos os cantos do Brasil, simbolizado nas mais diversas homenagens, nos locais que abrigam lutas e serviços aos trabalhadores e trabalhadoras:

- A nossa Pastoral Operária do Brasil é o Instituto Nacional Santo Dias.

- A PO Estadual de Minas Gerais é o Instituto Estadual Santo Dias. Em Uberlância/MG, está a Farmacinha de remédios naturais Santo Dias e, numa atitude bem ousada, há uma comunidade de Paróquia em Ipatinga/MG que tem como padroeiro, Santo Dias.

- Em Fortaleza/CE temos a Associação Santo Dias e a Praça Santo Dias

- Em Curitiba/PR, existe o Centro de Formação Santo Dias.

- Em Campina Grande/PB ocorre a grande romaria para Santo Dias.

- Em São Paulo, encontramos Santo Dias em caminhadas e celebrações. Tem o Centro Santo Dias de Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo, a comunidade Santo Dias e a Creche Santo Dias (Jardim Ângela), o Centro de Referência do Idoso Santo Dias e a Praça Santo Dias (Vila Remo), o Parque Municipal Santo Dias (Cohab Adventista), a Escola Municipal Santo Dias (Cidade Dutra), o Conjunto Habitacional Santo Dias (Campinas) e o Comitê Santo Dias.

- Em muitos outros lugares encontramos Santo Dias. Mais que em todas estas instituições, Santo Dias da Silva está presente na esperança dos romeiros trabalhadores, na perseverança dos excluídos que gritam e na animação dos que refletem a fé e a política. Na coragem dos que lutam por direitos e na confiança de quem constrói a sociedade nova.

- Está presente na figura de seus filhos e netos. Está gravado na presença simpática de Ana Dias, sua companheira por vários anos.

- Ele está em nossa memória e construindo conosco, a história.

Santo Dias está conosco todos os dias!

Manoel Rodrigues Júnior, Coordenador Nacional da Pastoral Operária.

2 de mar. de 2007

Convite, Caminho e Inclusão


Neste ano, a Campanha da Fraternidade nos provoca uma reflexão inclusiva. Seguindo o chamado de Jesus que nos convida “Levanta-te, vem para o meio” (Mc 3, 3) acaba nos mostrando um projeto de amor e acolhimento para com os excluídos e excluídas dessa sociedade de consumo na qual vivemos. Neste sentido, a Igreja do Brasil, por meio da CNBB, nos convoca a refletirmos na CF 2006 acerca da Fraternidade e Pessoas com Deficiência.

O acolhimento e a valorização desses irmãos e irmãs na comunidade eclesial e na sociedade como um todo é o objetivo central da CF. É um momento propício para que possamos tomar consciência das diversas realidades de exclusão e das alternativas inclusivas que são fomentadas a partir das pessoas com deficiências. O certo e verdadeiro é que Deus se encontra nas alegrias e esperanças, nas tristezas e angústias desses irmãos e irmãs, que são chamados e chamadas a serem protagonistas da história. A CF também é um convite para que todo cristão e cristã deixe sua postura de espectador e passe a assumir uma atitude de acolhimento com estas pessoas que devem ser respeitadas em sua dignidade humana. É um convite para construirmos uma cultura da solidariedade frente ao avanço de culturas de morte e desrespeito que são implantadas em nossa sociedade.

Numa sociedade desumana baseada na lógica do capital as pessoas com deficiências são mais um grupo humano excluído e discriminado, vítimas de uma cultura do preconceito e da competição. Muitos sociólogos já afirmam há mais de uma década, só sobrevive nesta sociedade neoliberal os que estão aptos a competir entre si. Estes outros são seres descartáveis, conforme já anunciava a CF de 1995 sobre exclusão. Mas, neste caso específico, quem são os atores e atoras do processo? Segundo o Texto-Base da CF são todos e todas com algum tipo de deficiência natural ou não, ou seja, cegos, surdos, os que estão com lesão física ou cerebral ou mental. Numa perspectiva do seguimento a Jesus, somos chamados e chamadas a incluir, a romper com a lógica de excluir e de descartar seres humanos. “Levante-te, vem para o meio” é o sinal claro da proposta de acolhimento realizada por Jesus. O meio é o local da participação, da roda, da comunidade. O meio é o espaço onde existe a dignidade humana e onde os direitos são respeitados e se valoriza a pessoa humana por mais deficiente que seja.

As comunidades cristãs terão o período da Quaresma, tempo de penitência e de escuta, para refletir acerca da temática da CF que não deve se esgotar na Páscoa, mas se prolongar por todo este ano. Tal reflexão não pode se restringir as dioceses e paróquias, mas a toda sociedade. Por isso, o objetivo central da CF 2006 é o de “conhecer melhor a realidade das pessoas com deficiência e refletir sobre sua situação, à luz da Palavra de Deus e da ética cristã, para suscitar maior fraternidade e solidariedade em relação às pessoas com deficiência, promovendo sua dignidade e seus direitos” (CF 2006: 10).

Uma constatação é que as pessoas com deficiência incomodam aqueles e aquelas que sentem repulsa e outra compaixão paternalista. A pessoa com deficiência tira o não deficiente de sua comodidade e de sua tranqüilidade. A CF quer mostrar que é preciso acolher e não gerar um sentimento de repulsa e rejeição para com estes que se encontram com uma debilidade física ou motora, sensorial ou mental, mas gerar um sentimento de compaixão. Compadecer-se não significa ter pena, ter um sentimento de “dó”, pelo contrário, compadecer-se pelo outro em suas virtudes e denunciar assim a formação de uma cultura do eugenismo.

Muitas famílias acabam dando um significado de peso, de cruz que se carrega diante de uma pessoa que se encontra numa situação de deficiência. Outros associam o cuidado para com eles como se fosse um castigo ou uma missão dada por Deus. Uma constatação é que as pessoas com deficiências, por meio da via dolorosa assumida, nos ensinam reconhecer e aceitar o próximo em suas diferenças e peculiaridades.

A deficiência, qualquer que seja, não significa uma associação de incapacidade. Pelo contrário, todos somos capazes, mesmo que tenhamos jeito e formas diferenciadas de ser e agir na sociedade. Diante de um mundo baseado na lógica perversa do ter, ser diferente com uma deficiência, significa estar sempre em luta pela inclusão e por um mundo possível para todos e todas, dizendo um “basta” aos contravalores assumido por essa sociedade de consumo e individualista.

Para entendermos a dinâmica da CF é necessário retomar a prática de uma pastoral encarnada e inserida na realidade do povo. Muitos e muitas, pessoas com deficiência, estão à margem da sociedade e da própria comunidade cristã. A visita, o ver, o escutar, o sentir a realidade desses nossos irmãos e irmãs torna-se ponto crucial na dinâmica apontada pela CF. Com isso, deixaremos de lado o imobilismo e o fatalismo, passando assim, a conhecer e reconhecer nestes irmãos sinais claros da presença de Deus que é sempre Amor. Também, suscitar-se-á mais solidariedade e fraternidade entre a comunidade que deve assumir a inclusão como objetivo pastoral e ajudando a identificar nossas próprias deficiências que passam desapercebidas e que não notamos, pois temos olhos e ouvidos somente quando se trata do outro.

A CF quer nos proporcionar um momento de escuta de Deus na vida do povo, em especial, na vida de nossos irmãos e irmãs com deficiência. Significa que somos chamados a ver a pessoa humana com deficiência enquanto ser humano e não como objeto descartável, inválido, imprestável etc. Devemos ver a pessoa na deficiência e não como deficiente incapaz. Este novo olhar nos dá a condição de rompermos com determinados termos incorporados pela cultura que nos apresenta um conceito sobre e, por detrás, um preconceito que nega a humanidade desses irmãos e irmãs.

Outro fator importante dessa CF é a valorização integral desses seres humanos com deficiência. Para que haja maior valorização torna-se necessário e urgente a clara efetivação de políticas públicas de inclusão social. Por isso, no decorrer desta CF, estaremos refletindo com mais afinco acerca dessas questões emergentes que a Igreja do Brasil, por meio da CNBB, que nos faz refletir sempre com o desejo pedagógico de estarmos nos comovendo, conhecendo e lutando para a construção de uma sociedade justa e solidária para todos e todas, neste ano em especial, as pessoas com deficiência. Por isso, a Igreja nos faz um convite para refletirmos essa temática, alicerçada pelo caminho do Evangelho de Marcos para que nossas comunidades possam estar fomentando a inclusão daqueles e daquelas que se encontram a margem.

Claudemiro Godoy do Nascimento

1 de mar. de 2007

Fome Zero Mundial


O velho Marx tinha razão: ainda não saímos da pré-história da humanidade. Somos 6,1 bilhões de habitantes nesta nave espacial chamada Terra, dos quais 4 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza. Vivem com menos de US$ 30 por mês. Desses, 1,2 bilhão estão abaixo da linha da miséria, dos quais 841 milhões estão ameaçados pela desnutrição crônica.


A cada 24 horas morrem de fome no mundo 100 mil pessoas, entre as quais 30 mil crianças com menos de 5 anos de idade. No dia 11 de setembro, a derrubada das torres gêmeas de Nova York completou três anos. Houve imensa comoção internacional. A cada dia a fome faz desabar 10 torres gêmeas repletas de crianças. Ninguém chora nem se comove. Por quê?

Dias 20 e 21 de setembro, por ocasião da abertura da Assembléia Geral da ONU, o presidente Lula lançará em Nova York o Fome Zero Mundial. Estará respaldado por cerca de 55 chefes de Estado, inclusive o papa João Paulo II.

Se a fome é o principal fator de morte precoce e vergonha para a civilização do século XXI, por que não provoca mobilização? Por uma razão cínica: ao contrário do terrorismo e da guerra, do câncer e de outras doenças, a fome faz distinção de classe. Só atinge os miseráveis. E, em geral, apoiamos campanhas em benefício próprio. Nem sempre demonstramos sensibilidade quando se trata de direitos alheios.

Lula aprendeu, com a história da escravidão no Brasil, que um problema social só encontra solução quando se transforma numa questão política. Durante mais de 300 anos a escravidão foi considerada legítima e legal. Mas pouco antes de 1888 ela passou a ser tratada como uma questão política. Veio, então, a sua abolição oficial (pois todos sabemos que ainda há, em nosso país, fazendeiros que mantêm trabalhadores em regime de escravidão).

O Fome Zero beneficia, hoje, milhões de brasileiros(as), entre os quais 5 milhões de famílias que recebem renda mensal do programa Bolsa Família. Por ser uma política pública não-assistencialista, e sim de inclusão social, atrai a atenção de outros países. Em função desse interesse já estive no Paraguai, na Argentina, no Peru, na Guatemala, na Itália, na Espanha e na ONU.

Há iniciativas semelhantes no Chile, na Argentina, no México e na Guatemala. Cresce a consciência de que a fome é um flagelo a ser imediatamente combatido. Devemos nos empenhar para que a pobreza, à semelhança da escravidão e da tortura, seja considerada crime hediondo, grave violação dos direitos humanos.

O presidente Lula quer evitar no exterior o que logrou no Brasil: que se pretenda combater a fome apenas com distribuição de alimentos. Se um país rico envia toneladas de comida às regiões mais pobres do mundo ele incorre em quatro erros: justifica seus subsídios agrícolas; destrói as culturas locais; aumenta a dependência dos beneficiários; e favorece os políticos corruptos que distribuirão os donativos. Já bastam o fracasso da Aliança para o Progresso, nos anos 60, e da Revolução Verde, na década seguinte, para sabermos por onde não ir.

A proposta é mobilizar recursos mundiais, dos quais o Brasil não será beneficiário, para não levantar suspeitas de advogar em causa própria. Esses recursos, supervisionados pela ONU, financiariam projetos de empreendedorismo, cooperativismo e desenvolvimento sustentável nas regiões mais pobres. Pois fome não se combate com donativos, nem apenas com transferência de renda. Precisa ser complementada por políticas efetivas de mudanças estruturais, com as reformas agrária e tributária, capazes de desconcentrar as rendas fundiária e financeira. Tudo isso amparado por uma política ousada de insumos e créditos às famílias beneficiárias, que devem ser alvo de um intenso trabalho educativo na linha de Paulo Freire, de modo a se tornarem protagonistas socioeconômicas e sujeitos políticos e históricos.

"Eu tive fome e me deste de comer", disse Jesus encarnado na figura do pobre. Combater a fome é uma exigência evangélica, um imperativo ético, um dever de cidadania e solidariedade, para que possamos tirar a humanidade dessa pré-história em que bilhões de pessoas ainda não têm assegurado o direito animal mais elementar - comer.

* Organizador, em parceria com outros autores, de "Fome Zero" (Garamond).

* Frei Betto, dominicano. Escritor.

28 de fev. de 2007

Tempos de Anticristo

Quando são confrontados com a suprema iniquidade, quando se ultrapassa aquele ponto de perversidade face ao qual até a razão cessa e o sentido de humanidade some totalmente, os cristãos recorrem a duas expressões bíblicas: a "abominação da desolação" e a "parusia do Anticristo". É o que sentimos face ao massacre dos inocentes em Beslan.

"Abominação da desolação" traduz uma situação onde o mal irrompe com tal virulência, que deixa os olhos esbugalhados, secas as lágrimas e mortas as palavras na garganta. Pois assim foi com as pessoas em Beslan. Depois, ao se enterrarem as vítimas, pareceu-nos ouvir as palavras de São Mateus por ocasião da matança dos inocentes por Herodes:"Em Ramá (Beslan) se ouviu uma voz, muito choro e grande gemido: são as mães que choram seus filhos e suas filhas e não querem ser consoladas porque os perderam e eles nunca mais voltarão". É a dor infinita e o luto sem fim.

"Anticristo" configura outra situação de extrema maldade, situação que pode ganhar corpo em pessoas e movimentos. Ele é o reverso do Cristo. Cristo não é originalmente um pessoa, no caso Jesus de Nazaré. Cristo é uma dimensão, um modo de ser e um título para designar a história do amor, da bondade, da doação, da compaixão e do perdão no mundo desde o justo Abel até o último eleito. Esta dimensão-Cristo se encontra presente em cada ser humano. Em figuras seminais como Buda, Krishna, Miriam de Nazaré, Gandhi, Dom Helder e Irmã Dulce se densificou de forma singular. Para os cristãos, apareceu de forma suprema, em Jesus de Nazaré. Por isso começou a ser chamado de Jesus, o Cristo. Mas bem entendido: ele não detém o monopólio do "Cristo" que se realiza também em outras figuras históricas.

A dimensão-Anticristo se opõe à dimensão-Cristo. Ela representa a história do ódio, da perversidade, da desumanidade, da destrutividade em supremo grau. Pode expressar-se em estruturas de grande injustiça, em ideologias que se propõem eliminar etnias e em políticas que optam pela truculência como única forma resolver problemas. E pode também ganhar corpo em figuras perversas, das quais o século XX nos forneceu exemplares aterradores.

O Anticristo faz uso de duas armas: da política e da religião. Pela política arrogante, bestial e tirânica se impõe a todos e sacrifica os opositores. Pela religião utiliza os símbolos sagrados e o nome de Deus para seduzir à sua causa e conferir legitimidade última à sua política perversa. Sua blasfêmia maior reside, segundo São Paulo, no fato de "erguer-se acima de tudo que se chama Deus".

A dimensão-Cristo e a dimensão-Anticristo se permeiam nos envolvendo a todos em enfrentamentos dramáticos. Há momentos em que a dimensão-Anticristo parece triunfar como agora. Irrompe de forma tão aterradora que nos paralisa e quase rouba a esperança dos justos.Em circunstâncias assim consola-nos o Mestre:"O Cristo aniquilará o Anticristo com um simples sopro de sua boca". Mas quando, Senhor, quando?

A categoria Anticristo foi esgrimida na história com o fim de alguém satanizar o outro. Devemos precaver-nos contra identificações fáceis. Mas há momentos como o atual em que a perversidade é tanta que devemos usá-la como denúncia e profecia. O Anticristo está, sim, entre nós, agindo em ambos os lados. Eles têm em comum o desprezo pela vida e a falta de piedade para com os inocentes. E são assassinos frios.

Leonardo Boff, Teólogo. Membro da Comissão da Carta da Terra.

27 de fev. de 2007

Festa na aldeia Krahô-Canela



História de Deus na História da gente. Nas tribos primeiras, raiz Ameríndia do povo da terra, da Terra sem Males, dos males da terra. Nos dias antigos do rio, da lua, da dança. Na História violenta de tantas conquistas e tantos martírios. Na História teimosa de tanta bravura vencendo os impérios do lucro e da morte. Na História de Deus feito gente na história. Na história da gente tornando-se Deus, na única História da terra e do céu. (Dom Pedro Casaldaliga – Bispo Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia – MT).

Todo grupo humano é culturalmente festeiro. Festejamos tudo na vida. Desde o nascimento de uma criança até mesmo festejamos a irmã morte em algumas culturas. Festar ou festejar é uma atitude humana-animal. Quantas e quantas vezes somos acordados pelo som festeiro dos pardais em suas danças nas manhãs que surge anunciando um novo dia porvir. Quantas vezes vemos o grupo de andorinhas deslizando numa atitude de festa nos ares e no vento de um cair da tarde anunciando a noite que está para chegar. A própria natureza é uma festa constante, pois tudo é vida. Nem mesmo a morte nos separa da vida, pois até mesmo a morte não é capaz de nos separar da vida que é uma Festa.

Na sociedade ocidental, judaica-cristã, festeja-se a fé, a vida, o aniversário, a memória, amor, a colheita, a produção etc. Tudo se festeja. A vida é uma festa e a festa é símbolo da vida. A aldeia está em festa. A maloca Krahô canta sua alegria, pois estão em marcha, retornando ao lar que lhes é de direito.

Hoje a maloca está em festa. É uma festa humana-divina, pois Deus também dança a alegria de um povo. Não seria demais pensarmos na promessa de Deus ao Povo de Israel no passado e promessa de Deus hoje ao Povo Krahô-Canela, a saber: “Eu vi muito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para liberta-lo do poder dos egípcios e para faze-lo subir dessa terra a uma terra fértil e espaçosa, terra onde corre leite e mel...” (Ex 3, 7-8). Deus viu o sofrimento de seu povo Krahô que está em Tocantins. O mesmo Deus de Israel ouviu o clamor do Povo Krahô contra seus opressores, ouviu o clamor por libertação. O poder dos latifundiários e do poder local não foram suficientes para se esconderem de Deus que os conhece e sabe de suas ações contra os Krahô. O Deus da Vida e da Festa se fez Krahô e habita entre nós, pois fez com que os índios subissem ou retornassem ao seu verdadeiro lar, uma terra que historicamente lhes pertence e que lhes foi tomada por seus opressores. Por isso, esse Deus da Vida e da Festa é um Deus Justo.

Para os cristãos, Deus se fez gente entre nós e ao se fazer gente, assumiu nossa história de alegrias e tristezas. Vale lembrar o que diz a Constituição Pastoral Gaudium et Spes acerca do papel da Igreja no mundo de hoje: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (n. 01). Deus dança e a Igreja também dança de alegria junto com aqueles que sofreram para conquistar o direito de cidadania legítimo, direito a terra.

Depois de tantas cruzes no caminho do Povo Indígena Krahô-Canela, enfim a Páscoa-Ressurreição. Deus hoje se faz índio na esperança e nos sonhos desse povo irmão. Para nós cristãos tornou-se motivo de alegria pascal a participação nessa luta pela conquista da homologação das terras a estes irmãos e irmãs. Sabemos que muitas expressões de solidariedade se destacaram para conseguir pressionar o Ministério Público e o Juiz Federal com o objetivo de promover uma verdadeira rede de solidariedade humana para com os Krahô-Canela.


Os Krahô-Canela conseguiram suas terras. Sua luta foi nossa luta. Suas tristezas foram nossas tristezas que geraram gestos concretos de solidariedade por todo o Brasil. Localizados no estado do Tocantins, contaram com o apoio de muitos e muitas que colaboraram na campanha organizada pelos Direitos Humanos e por agentes de pastorais, entre eles, destaco dois personagens centrais: Dom Heriberto Hermes, bispo católico da Prelazia de Cristalândia e Padre Brás Rodrigues da Costa, sacerdote da Igreja Anglicana. Com seus testemunhos muitos outros entraram nesta rede de solidariedade criada para apoiar a conquista dos direitos de cidadania dos Krahô-Canela.

Foram quase 30 anos de angústia, dor, sofrimento, cruzes e a implantação de um projeto de genocídio a uma cultura, a um povo. Uma cultura da morte foi implantada para exterminar, massacrar e humilhar uma cultura que não conhecia as violentas formas de atuação do império do lucro, do medo e do capital. Para a lógica do capital, matar índios e tomar suas terras parece ser eticamente correto, pois nessa mesma lógica os índios não precisam de tanta terra.

Terra conquistada, sonhos recriados. Um novo sol urge na esperança. É Páscoa-Ressurreição na história de um povo que vence os males da terra. É hora de celebrar a festa da vida de um povo da terra, povo Krahô que também sonha com uma Terra Sem Males. É hora de repensar a cultura, os gestos, os símbolos, as tradições, os cantos e encantos milenares. É chegada a hora de rever a caminhada na alegria da conquista da Mãe-Terra, Pacha de todos os povos da terra, Gaia de sempre. Neste momento de alegria e de esperança torna-se propício o discernimento da caminhada feita na história. O caminho continuará apresentando novos desafios que serão assumidos para serem conquistados e outros superados. Mas, a dimensão da Festa jamais poderá ser perdida no tempo e no espaço, pois é nela que o Povo continuará resistindo e mantendo os rumos da história assumido pela luta social realizada para se (re) conquistar a tão esperada Terra Prometida.

A vida venceu a morte. O projeto de vida venceu, ao menos neste caso, o projeto da morte. Por isso, hoje tem festa na aldeia Krahô-Canela. Tem vinho novo no espírito da terra conquistada que é de todos e todas, ou seja, da comunidade Krahô.


Claudemiro Godoy do Nascimento