6 de mar. de 2007

As dores do parto da humanidade


Em vários países dos cinco continentes, os povos vivem um ambiente de ressaca pós-eleitoral. Para nós, brasileiros, que dispomos apenas notícias geradas por agências internacionais do Ocidente, é difícil avaliar o resultado das eleições do domingo passado no Afeganistão, nas regionais da Venezuela e no Uruguai que, pela primeira vez na história, terá um presidente, até aqui considerado de esquerda.

A derrota do PT em São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e Goiânia permite reações divergentes, de acordo com a ótica ideológica de quem faz a análise. Os iraquianos nem tiveram tempo de viver a ressaca dos norte-americanos, sofridos com o mecanismo autoritário e pouco democrático do império. Menos de uma semana depois de reeleito, Bush já ordenou novos bombardeios sobre Faluja (Iraque) e declarou aos cubanos yankees de Miami que o próximo passo é "libertar" Cuba. Isso provocou reações dos presidentes latino-americanos reunidos no Rio de Janeiro e do presidente Chirac, eleito na França como homem de "direita". Com a mesma discrepância de visões, o mundo assiste ao que parece ser a partida definitiva de Iasser Arafat. Este homem, desde jovem, obteve o respeito da ONU e de personalidades tão diferentes como o presidente Carter, o papa João Paulo II e a comissão internacional que o considerou digno de receber o prêmio Nobel da Paz, por sua vida totalmente dedicada à sobrevivência do seu povo e pela coragem com que, durante anos, arriscou a vida até conseguir o mínimo reconhecimento do Estado Palestino. Até hoje, sem terra e sem ver respeitados os justos direitos de autonomia política e liberdade, o Estado Palestino ainda é um sonho a ser conquistado pela humanidade.

Um jovem leitor do "O Popular" escreveu perguntando: "Diante da permanente vitória do dinheiro e da discreta ou indiscreta corrupção e aliciamento do povo mais pobre e menos informado, como manter a esperança de transformar este mundo injusto?".

Neste espaço, procuro, semanalmente, conversar com os leitores como irmão em humanidade, e não a partir de algum título religioso que não seria compreensível a todos. Não acredito que a nossa esperança de transformação da história possa se basear em uma mera análise objetiva da realidade do mundo. Este estudo sociológico e político é importante e tem de ser permanentemente refeito para evitar ilusões vazias e decepções terríveis. Mas não basta para fortalecer a esperança. A Bíblia diz, sobre o patriarca Abraão, que ele "esperou contra toda esperança". Creio que a confiança que podemos sempre acalentar de um mundo melhor e mais justo nasce da certeza da força do amor, presente em cada ser humano. Apesar de tudo, esta capacidade humana de amar nunca está totalmente ausente das estruturas do mundo. Em meio a muita gente que perdeu sua humanidade ou a vende por um bom dinheiro, há sempre pessoas que se mantêm fiéis ao que o livro do Apocalipse chama de "primeiro amor da sua juventude"; ou seja, a sua coerência fundamental. É a experiência que sempre tenho, por exemplo, cada vez que encontro o professor Pedro Wilson, desde que o - atual prefeito de Goiânia, pelo PT e derrotado nestas eleições pelo "coronel" Íris Rezende do PMDB - conheci e tive o privilégio de ser seu professor de Bíblia, nos idos de 70, no curso de teologia para leigos da arquidiocese de Goiânia. Atrevo-me a dar aqui este testemunho porque nem sou eleitor de Goiânia. Nesta caminhada que ele e tantos de nós fazemos em comum por "uma terra nova e um céu novo", aprendemos que o "Reino de Deus" da Bíblia, é o que a maioria da humanidade aprendeu a reconhecer como "utopia".

Em um conto de Eduardo Galeano, li o diálogo:

- Você está sempre no horizonte, disse Fernando Birri. Quando eu consigo me aproximar de você, dando dois passos à frente, você parece que também dá dois passos à frente e se mantém longe. Faço um esforço enorme e caminho dez passos, mas o horizonte se desloca, ao mesmo tempo, dez passos. Parece que, por mais que eu caminhe, nunca chegarei onde você está. Para que serve, então, a utopia?

- Serve, justamente, para isso: estimular você a caminhar.

Esta força que chamamos de "utopia", no plano da fé, pode-se denominar "mística do Reino de Deus": o alimento para as nossas mais radicais esperanças de transformação do mundo e de nós mesmos.

Em sua época, o filósofo judeu Emanuel Levinas se perguntava: "Como sair deste grande Auschwitz cultural no qual o mundo tem se transformado?" (Auschwitz foi um dos piores campos de extermínio, perpretado pelos nazistas contra judeus, comunistas e homossexuais). Se o mestre Levinas tivesse vivido na América Latina, na Palestina ou na África, teria sabido que, infelizmente, este permanente Auschwitz não é só cultural, mas se traduz no apartheid econômico e social. É humano.

Todo mundo lamenta que exista tanta gente vivendo abaixo da linha da pobreza, mas, no fundo, muitos consideram isso "natural"? A própria ONU faz planos para erradicar a miséria, mas prometem apenas reduzir a pobreza 50% (como se bastasse) e isso mesmo a partir de 2.015. A intuição fundamental de Levinas é que só se encontrará saída para esta desorganização estrutural do mundo se para nós a prioridade for a humanidade e a dignidade do outro. Muitos poderosos e líderes da sociedade civil aceitam que a extrema pobreza continue existindo. No fundo, pensam em si mesmos e não no outro como prioridade de sua vida.

Muitos católicos e evangélicos não percebem que o desrespeito aos diretos humanos, sofrido por uma única pessoa, atenta mais contra o plano de Deus do que todas as regras moralistas que eles, em nome de Jesus, inventam para suas Igrejas.

Tanto para o mundo como para cada um de nós, só existe salvação a partir do encontro com o rosto e a realidade do outro. Esta utopia podemos viver desde já. Ela faz com que, ainda se sofremos as mais duras derrotas, elas não nos provocarão ressaca de lutar, porque as receberemos, não como frutos do acaso, e sim como dores de parto de uma humanidade nova.

Irmão Marcelo Barros, Monge beneditino e autor de 26 livros.

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