1 de mai. de 2007

O homem público Ciro Gomes – grosseria e mentiras marcam sua postura ao defender o insano projeto de Transposição do Rio São Francisco.

Delze dos Santos Laureano[1]

Arrogância, prepotência, destempero, machismo, linguagem chula são algumas das palavras que me ocorrem quando recordo da postura do ex-ministro Ciro Gomes, na tarde do dia 26 de abril de 2007, na Assembléia Legislativa de Minas Gerais.[2]
Estive no auditório a convite de um assessor parlamentar e representando o Núcleo de Estudos de Direito Ambiental da FD/UFMG. Estava encarregada de apresentar informações acerca das questões jurídicas que envolvem a discussão do “Projeto de Integração do Rio São Francisco”, eufemismo do velho e requentado projeto de transposição, cujas decisões das ações judiciais em andamento estão hoje a cargo do Supremo Tribunal Federal.
Naquela data foi que ouvi pela primeira vez, da boca do próprio articulador do projeto faraônico, os argumentos dos que querem nos empurrar goela abaixo uma obra com a qual não concorda a sociedade civil, representada por mais 900 organizações que lutam contra a Transposição. Isso, no meu entendimento, dá-nos conta da falência da democracia representativa no Brasil. Se a sociedade civil não reconhece o projeto como justo, seguro e necessário, por que os nossos representantes eleitos, tidos como homens públicos, insistem no empreendimento mesmo assim? Será que eles têm uma procuração em branco para decidir o nosso e o futuro das novas gerações?
Diz o dito popular que jamais teremos uma segunda oportunidade de causar uma primeira boa impressão. O ex-ministro da Integração Nacional do Governo Lula, e atual deputado federal pelo Estado do Ceará, Ciro Gomes, ficou feio no retrato. Demonstrou que não tem equilíbrio emocional para ocupar um cargo público. Já adentrou no pequeno auditório demonstrando uma enorme irritação a qualquer pergunta que lhe era dirigida pelos repórteres e ao final gritava espalhando ofensas a todas as pessoas presentes. Interrompeu sua fala por diversas vezes para responder a qualquer gesto de manifestação da platéia. Afirmou que os rios brasileiros já estão todos “ferrados”, defendendo-se contra as alegações de que o Rio São Francisco precisa ser revitalizado. Passou a imagem de quem se acha o dono da verdade e, não tendo argumentos, ridiculariza todas as pessoas que desconstroem os seus fundamentos viciados. Ademais não tem paciência para ouvir ninguém.
Senti-me profundamente incomodada quando depois de fazer diversas afirmações falaciosas e mentirosas, o ex-ministro passou a referir-se de forma extremamente desrespeitosa ao bispo Dom Luiz Flávio Cappio. Disse que o bispo meteu-se em assunto do qual não entende nada. Afirmou também que padre não tem que se meter em política e que deve ficar no seu canto rezando. Disse que se Dom Cappio quiser interferir na política que seja eleito. Ridicularizou o bispo com sua veste franciscana. Da platéia falei que não era verdade as afirmações feitas acerca de Dom Luiz Cappio. Também demonstrei que não concordava com a forma desrespeitosa como ele se referia ao bispo. No meu modo de ver, dada a ausência de Dom Cappio no debate e considerando que o fato de ser um religioso não retira do bispo a legitimidade para atuar politicamente como cidadão. Aliás o que está faltando no Brasil é cidadania, pois sem cidadania não há democracia e sem democracia não há Estado de Direito. Entendi como provocação e profunda falta de ética o tom do discurso do ex-ministro. Sei que Dom Cappio é um Homem público, com H maiúsculo, e que representa importante segmento da sociedade civil organizada, que são as pastorais sociais e os movimentos populares. Essas organizações são muito bem assessoradas e têm informações seguras para denunciar o projeto de transposição, algo insano, ilegal, contrário ao interesse público, um crime sócio-ambiental.
Antes Ciro Gomes já havia se referido também a João Abner Guimarães como idiota. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Abner é contra o projeto de transposição. Ele conseguiu refutar um a um, tecnicamente, os argumentos falaciosos dos estudos realizados sobre a Transposição. Por isso também se tornou, na fala do arrogante Ciro, um idiota, alguém que só quer aparecer.
Quando me manifestei, por não concordar com as ofensas dirigidas a D. Cappio, o ex-ministro me provocou para que eu dissesse porquê são mentirosas as suas afirmações. Tenho certeza que D. Cappio conhece profundamente todas as questões e tem toda a legitimidade de quem convive com o povo ribeirinho da bacia sanfranciscana há mais de trinta anos e estudou bastante todas as questões da bacia.
Foi então que me levantei e dirigi-me para dar a resposta à provocação. Para minha surpresa, o petulante deputado federal não consegue ouvir ninguém. Dava ordens como um Senhor de Engenho aos negros nas lavouras. Tentou me ridicularizar quando calmamente falei que ele demonstrava irritação incontrolada e, na falta de argumentos, partia para a agressão.
Moral da história. Vendo que não tinha nada a aprender com aquele homem que se coloca na posição de representante do povo, mas que na realidade representa apenas a si mesmo, à velha oligarquia brasileira, consegui apenas expressar em breves palavras o reconhecimento que o povo brasileiro tem pelo religioso e pela liderança legítima de D. Luiz Flávio Cappio. Ao final, ainda que rapidamente, falei de aspectos do projeto que são ilegais e inconstitucionais. Vale destacar, por exemplo, a ausência de audiências públicas legítimas, já que essas foram realizadas dentro de hotéis 5 estrelas, ou sem o financiamento público para o deslocamento das pessoas, impossibilitando a participação da população efetivamente atingida, a falta de estudos acerca dos impactos sobre as comunidades quilombolas e as reservas indígenas existentes na bacia, cuja existência foi textualmente negada pelo ex-ministro. Falei também da disposição do povo brasileiro em lutar democraticamente contra esse projeto insano e faraônico.
Para mim ficou mais claro ainda que o projeto é inconstitucional, ilegal e contrário ao interesse público. Também é uma farsa acreditar que vão fazer reforma agrária nos 2,5 quilômetros de terras desapropriadas ao longo do canal. Os pequenos agricultores não terão como pagar as contas de água e de luz necessárias para tocar suas atividades.
Na minha cabeça continua martelando uma última frase do ex-ministro, antes de eu sair. Após afirmar que estamos numa democracia disse: “apesar de vocês, o projeto vai ser executado”. Muito democrático mesmo, não? E ainda dizem que todo o poder emana do povo. Já disse o poeta mineiro: “A lição sabemos de cor, só nos resta aprender!”

Delze dos Santos Laureano, e-mail: delzesantos@hotmail.com

[1] Delze dos Santos Laureano é advogada da RENAP – Rede Nacional de Advogados Populares, especialista em assessoria técnico-legislativa e mestre em Direito Constitucional pela UFMG é professora no Curso de Direito da Escola Superior Dom Héder Câmara. E-mail: delzesantos@hotmail.com

[2] Cf. reportagens dos Jornais ESTADO DE MINAS, DIÁRIO DA TARDE e O TEMPO, de 27/04/2007, sobre a passagem de Ciro Gomes em Minas Gerais.

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